15h17 – Trem para Paris (2018)

Por André Dick

Este é considerado por muitos o pior filme da carreira de Clint Eastwood. No entanto, há filmes de Eastwood considerados obra-primas e que sequer são bons, embora a média geral seja de grande qualidade. Sua obra mais recente se baseia numa história real, envolvendo Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, soldados dos Estados Unidos que viajam pela Europa, a fim de buscar diversão e descanso.
A história de 15h17 – Trem para Paris começa um pouco antes, mostrando-os desde a infância, quando tinham interesse por armas e eram mandados para a sala do diretor do colégio onde estudavam. Stone (interpretado então por William Jennings) e Alek eram mais próximos; depois, Sadler (Paul Mikél-Williams) se aproxima de ambos. Do mesmo modo, desenha-se a ligação de Stone com sua mãe Joyce (Judy Greer) e de Alek (Bryce Gheisar) com sua mãe Heidi (Jenna Fischer).

Esta interligação com eles ainda crianças mostra uma certa simpatia de Eastwood pela construção do herói improvável e seu filme é uma obra filmada como ficção, mas que poderia ser um documentário, já que conta com as figuras reais em ação na vida adulta. Inicialmente, se o espectador desconhece a história, a sensação é de Eastwood mostrar a cultura armamentista já visualizada no belíssimo Elefante, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Ao mesmo tempo, se quer mostrar a criação religiosa principalmente de Stone. Trata-se de um clima pouco visto na filmografia do diretor: o da infância, com alguns recursos nostálgicos de imagens no bosque, o contato com a natureza, diminuído depois pelos corredores do exército.
Afirma-se que, por isso, o elenco tem um tom amador, entretanto é justamente essa despretensão que torna a narrativa de Eastwood interessante. Há elementos de Sniper americano aqui, um movimento elegante de câmera e intensifica sua tensão no ato final com perícia de um grande diretor. Baseado no livro The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Heroes, de Jeffrey E. Stern, Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, o roteiro de Dorothy Blyskal se caracteriza pela agilidade. A naturalidade dos acontecimentos dialoga muito bem com obras recentes sobre jovens militares, a exemplo de A longa caminhada de Billy Lynn e Honra ao mérito.

É possível apontar algum reducionismo na maneira como algumas situações são enfocadas, no entanto é inegável que Eastwood tem talento. O ambiente militar trazido por este filme e Sniper de certo modo se espalha pela trajetória do diretor. Temos, por exemplo, Firefox e O destemido senhor da guerra nos anos 80, assim como Cartas para Iwo Jima e A conquista da honra. Nesses filmes, Eastwood visualiza seus personagens de maneira a nunca tratá-los como uma extensão do discurso que existe por trás deles.
Talvez seja mais interessante desconhecer a história verdadeira antes de assistir a 15h17 – Trem para Paris, assim como não ver o trailer e ler críticas, que basicamente sintetizam o que ocorre. Não sabia o que iria acontecer (talvez eu tenha visto matérias na época do acontecimento, mas há fatos divulgados em tanta quantidade nos tempos modernos que notadamente acabamos não lembrando de todos) – e isso aumentou a tensão. O fato de ter sido demolido pela crítica diz muito mais desta do que da qualidade do filme, e talvez decorra do fato de o roteiro não trabalhar também o ponto de vista de quem leva a ação às consequências finais da narrativa. E do elenco Sadler é um inevitável destaque; mesmo interpretando a si mesmo, ele confere mais dramaticidade do que os outros.

O final pode se sentir muito formal e previsível, principalmente em relação à sequência-chave da história (com uma crueza bem trabalhada e uma sensação de combate iminente), no entanto poucos filmes falam de como uma pessoa comum pode se tornar verdadeiramente importante num determinado momento em que é requisitada a agir. Esse tema acaba dialogando diretamente com a bela obra anterior do diretor, Sully – O herói do Rio Hudson, com uma atuação magistral de Tom Hanks e um tom documental que não se deixava abater pela neutralidade ou alguma frieza diante dos acontecimentos. Eastwood, acostumado a faroestes clássicos no início de sua carreira e até especialmente a obra-prima Os imperdoáveis, deixa que as figuras enfocadas falem por si, e isso é raro no cinema norte-americano.

The 15:17 to Paris Diretor: Clint Eastwood Elenco: Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone, Judy Greer, Jenna Fischer,William Jennings, Paul Mikél-Williams, Bryce Gheisar Roteiro: Dorothy Blyskal Fotografia: Tom Stern Trilha Sonora: Christian Jacob Produção: Clint Eastwood, Jessica Meier, Tim Moore, Kristina Rivera Duração: 94 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Village Roadshow Pictures, Malpaso Productions, RatPac-Dune Entertainment Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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