Um lugar silencioso (2018)

Por André Dick

Todos os anos há um filme de suspense ou terror que acaba chamando a atenção do público e da crítica em especial. Em 2016, foi A bruxa; em 2017, Corra!Ao cair da noite. Em 2018, parece ser o caso de Um lugar silencioso, estreia na direção do ator John Krasinki, que também aparece no filme. Passada em 2020, a história mostra que a humanidade foi quase extinta por criaturas alienígenas com audição hiper-desenvolvida, por meio da qual alcançam as pessoas para matá-las. Krasinki interpreta o pai da família Abbott, Lee, casado com Evelyn (Emily Blunt) e que tem como filhos Regan (Millicent Simmonds), Marcus (Noah Jupe) e Beau (Cade Woodward).
O início da obra já mostra uma espécie de cenário que remete a Ensaio sobre a cegueira, a adaptação de Fernando Meirelles para José Saramago e, se Lee é uma extensão em situação delicada do personagem que fazia Krasinki em Sob o mesmo céu, também parece o pai de Guerra Mundial Z, preocupado com a família e fazendo cálculos para a sobrevivência. Eles vivem numa fazenda, que remete a American fable e Sinais, ao mesmo tempo que não podem ficar tranquilos: qualquer ruído pode atrair as criaturas.

Neste universo de silêncio ao qual o título do filme já remete, Krasinki constrói um suspense a princípio interessado e mesmo antimainstream, baseando-se nas reações físicas dos personagens, nos gestos contidos pela situação desesperadora. É onde o ator-diretor se sai melhor. As atuações que extrai de Blunt (sua esposa na realidade), Millicent Simmonds e Noah Jupe são ótimas. Blunt já mostrou seu potencial muitas vezes, mas Simmonds e Jupe são revelações recentes. Surda na vida real, ela esteve no ótimo e subestimado Sem fôlego, enquanto Jupe esteve no subvalorizado Suburbicon, de George Clooney, e interpretou um dos amigos do garoto menosprezado pela aparência de Extraordinário.
Krasinki tem competência e sorte em contar com esses talentos para contar uma história que, de outro modo, poderia passar despercebida. Os símbolos utilizados por ele na narrativa são excessivamente previsíveis e quase toda cena remete a outras obras, como Jurassic Park, Guerra dos mundos e Aliens – O resgate.  Não ajuda que ele situe os personagens de maneira rápida demais, tentando empregar, ao mesmo tempo, referências religiosas, como já havia conseguido o diretor de Ao cair da noite, parecido com este Um lugar silencioso e substancialmente melhor. Deve-se dizer, por outro lado, que não haver quase falas no roteiro (os personagens se comunicam praticamente pela linguagem de sinais) não tira dele uma narrativa esclarecida, talvez até demais. Além disso, a trilha sonora do habitualmente discreto Marco Beltrami tenta inflar as cenas destituídas de outros sons humanos.

A ideia de Krasinki é interessante, assim como a maneira com que enxerga o mundo numa situação irremediavelmente inusitada. Porém, se ele mostra até certa competência no tratamento das imagens, com a bela fotografia de Charlotte Bruus Christensen, vista em trabalhos recentes de destaque, como A grande jogada, A garota do trem e Longe deste insensato mundo, ele não consegue afastar suas criaturas do palco que remete imediatamente a Cloverfield e Stranger Things, dos experimentos mais recentes. Chega a ser cansativa a maneira como ele joga a todo instante com obras que o inspiraram. Tudo acaba sendo uma espécie de extensão de algo já visto, embora tente inovar na maneira como as situações são tratadas. Aos poucos, o espectador vai percebendo que há artifícios insustentáveis mesmo para um filme que joga no limite entre o suspense, lances de terror e fantasia, embora os alienígenas sejam plausíveis para uma obra de orçamento até certo ponto limitado.

A dinâmica familiar, de qualquer modo, é muito boa, não apenas pelo elenco, como pela humanidade de Krasinki, um ator que vem de 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi, de Michael Bay, um dos produtores de Um lugar silencioso. Ele tem uma maneira de atuar um tanto desajeitada, mas é justamente ela que lhe concede um estilo diferenciado. Mais conhecido pela participação na série de TV The Office, seu melhor momento no cinema, além desse filme de guerra de Bay, é Distante nós vamos, em que ele compõe, com Maya Rudolph, um casal querendo criar raízes em algum lugar para criar seus filhos. De certo modo, é a essência da narrativa de Um lugar silencioso e seria retribuída do melhor modo não fosse por certa previsibilidade de condução e exageros no ato final para justificar tudo. No momento derradeiro, Krasinski está apenas fazendo o que os diretores fazem em Hollywood: tentar estabelecer uma franquia, o que diminui bastante sua tentativa de fazer um trabalho até certo ponto autoral e limita a atuação de seu elenco de alta qualidade.

A quiet place, EUA, 2018 Diretor: John Krasinski Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward Roteiro: Bryan Woods, Scott Beck, John Krasinski Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Michael Bay, Andrew Form, Brad Fuller Duração: 90 min. Estúdio: Platinum Dunes, Sunday Night Distribuidora: Paramount Pictures

 

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2 Comentários

  1. SPOILERS A RODO – LEIA POR SUA CONTA E RISCO

    Achei que o filme estava muito mais próximo de ser uma fábula familiar do que propriamente um filme de terror/sci fi. E nesse sentido achei ele muito mais próximo de ser um filme autoral do que o primeiro filme de uma franquia.

    Até porque achei o universo do filme mal construído. As pessoas tiveram tempo de publicar jornais sobre as criaturas mas não de testar armas que emitam sonoridades em diversas frequências? Ou de criar armadilhas sonoras (não precisa ser um grande estrategista militar para montar minas terrestres num lugar e colocar um brinquedo para apitar em cima). Como diabos a humanidade foi exterminada em tão pouco tempo (as cidades no filme parecem abandonadas) e ainda assim teve tempo para utilizar um meio de comunicação mais barulhento que qualquer comunicação digital? Ou ainda, as criaturas são capazes de ouvir um brinquedo a quilômetros de distancia mas não escutam o bater de um coração – de uma pessoa em pânico, é importante destacar – a meio metro de distância? É uma audição convenientemente seletiva não?

    Mas nada disso atrapalhou a minha experiência com o filme. Porque o drama familiar – apesar de clichê – é muito mais interessante que o cenário. É clichê porque já vimos essa representação em uma centena de lugares. Mas é interessante porque é uma personificação bem construídas dos arquétipos familiares:

    temos a mãe que deve ser resistente não importa quão desfavoráveis são as circunstancias. Que não deve gritar nem quando perfura o pé com um prego, que deve parir em silêncio e entrar sem hesitar numa inundação para salvar o próprio bebe. Ela é a encarnação do sacrifício, da mãe-santa.

    temos o pai que deve ser corajoso ao ponto de se sacrificar sem hesitar pela vida dos filhos. É o arquétipo de pai/homem ideal correto?

    temos o filho que renega a própria vocação.

    temos a filha que ousa tomar decisões próprias, que erra escandalosamente, cujo o desconhecimento é a mesmo tempo uma benção e um maldição (ela é surda, logo não escuta os monstros se aproximarem e isso em algumas circunstancias é positivo. Por outro lado, é isso que faz com que ela demore a perceber o efeito que o aparelho de surdez tem nos monstros).

    Se por um lado dá para criticar o filme por ser tão conservador na distribuição de arquétipos aos personagens (ainda mais em tempos de desconstrução de gênero), não dá para desconsiderar que ele acerta e muito ao criar interação entre essas personas. A família marcada por uma tragédia (um erro inocente da menina, mas que como todo erro tem consequências) que não destrói a família pois os laços que os unem são muito mais fortes que isso.

    O arco da menina é particularmente interessante. Nele estão resumidos de forma simbólica a passagem da juventude para a fase adulta: aquela sensação de se enxergar com olhos diferentes dos olhos do seus pais (a menina se acha pronta para assumir outras funções, mas os pais não). A sensação de não pertencer a família oriunda da culpa (e que adolescente nao erra, com maiores ou menores consequências?), a redescoberta do amor familiar (na despedida do pai e quando ela encontra os aparelhos de surdez), e finalmente a anuência para agir/reconhecimento que se é adulto (quando a mãe concorda que ela transmita as ondas do aparelho o mais alto possível).

    Não que ele não possa se tornar uma série. Daria uma séria ótima na netflix ou no scifi channel. Pode ser tornar uma franquia de filmes também. mas para isso teria que abandonar totalmente a poesia e as metáforas presentes nesse filme e focar em criar um cenário crível. Ou seja, seria necessário um filme completamente diferente!

    obs: adorei o mostro, com aquele ouvidão gigante e nojento. Um bela concepção de design executada de forma satisfatória (mas não sei se a execução vai envelhecer bem)

    Responder
    • André Dick

       /  8 de maio de 2018

      Prezada (não uso seu nome porque só o colocou no e-mail).

      Agradeço pelos apontamentos que fez sobre o filme em questão. Eu concordo que o filme possa ser visto sob o ponto de vista de ser uma fábula familiar com elementos de terror. Como são Sinais e American fable (literalmente), obras com que eu mais identifico a de Krasinki. Sobre ser um filme autoral, eu concordaria com você não fossem os 10 últimos minutos. Não sei se a equipe fez alguma previsão de sucesso impressionante, mas ela sabia que este filme renderia dinheiro e a sequência final me parece desmanchar seu mistério.

      Li atentamente os pontos que você inclui como parte de um universo mal construído. Eu não posso questionar; tive a mesma impressão, mas não pude usar spoilers como você. Tudo é levemente mal construído, mas, enfim, não estava esperando um universo completamente explicado, fechado, mas você está certa sobre cada detalhe na minha opinião.

      Quanto aos arquétipos familiares, também não posso discordar. Você expõe bem as características de cada personagem. Na realidade, esses personagens me agradaram, assim como a interação entre eles. O que me fez desconfiar do filme foi sua falta de pretensão a ser original, mesmo que estejamos lidando com um gênero já bastante conhecido… mas outros filmes conseguem inovar nas situações com premissas menos originais.

      Concordo, também, com o fato de que o arco da filha é o mais interessante. Eu gosto muito dessa nova atriz, que aparece também em Sem fôlego: ela entrega algo profundo sem precisar de esforço. Sua percepção sobre as cenas em que a personagem aparece é significativa.

      Eu gostaria, sinceramente, que o filme tivesse uma unidade maior, que talvez terminasse em si mesmo, mesmo tendo futuramente uma continuação. Mas já estão pensando no próximo e, conhecendo Hollywood, se continuar rendendo, teremos um batalhão de monstros em filmes futuros.

      Também gostei do design do monstro e minha impressão é de que se trata do maior investimento do filme. Ele dá certo, sendo uma mistura dos monstros de Alien e Super 8.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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