A grande jogada (2017)

Por André Dick

Esta estreia na direção de Aaron Sorkin, mais conhecido por seu trabalho como roteirista, reúne suas qualidades já percebidas em Questão de honra, O homem que mudou o jogo e A rede social. Em comum, nesses filmes há um trabalho de encadeamento de diálogos muito apurado, nunca deixando de definir o perfil dos personagens. Aqui ele conta a história, baseada em fatos reais, de Molly Bloom (Jessica Chastain), que esteve à frente de muitos jogos de pôquer em Los Angeles e Nova York, até cair na rede do FBI e precisar ser defendida pelo conhecido advogado Charlie Jaffey (Idris Elba). O roteiro é feito a partir da própria autobiografia de Molly, com um título bastante sugestivo: Molly’s Game: From Hollywood’s elite to Wall Street’s billionaire boys club, my high-stakes adventure in the world of underground poker.

Como o último trabalho de Sorkin havia sido o falho e irregular Steve Jobs, esta estreia em A grande jogada vinha com uma série de dúvidas. No entanto, a maneira como ele apresenta Molly, em que ela faz amizade primeiro com um ator, ou melhor, X (Michael Cera), uma mistura, por informações que acompanham o filme, de Ben Affleck, Tobey Maguire e Leonardo DiCaprio, e depois com Douglas Downey (Chris O’Dowd), que a apresenta a integrantes da máfia russa, é notável pela sequência magnetizante de diálogos e narração em off de Molly, contando sua história. Não há intervalos em A grande jogada, o que poderia soar cansativo, mas nunca ingressa nesse caminho, e sem gostar de jogos muitas vezes me perguntei o que este filme tem de diferente. Na base, ele é uma cinebiografia com elementos até previsíveis, mas a maneira com que foi filmada e a atuação de Jessica Chastain, recuperando-se do overacting de Armas na mesa, no qual tentava exagerar uma frieza, são exemplos de como transformar um filme que poderia ser apenas comum em algo atrativo.

A relação entre Molly e seu pai Larry (Kevin Costner, discreto e eficiente), é o pano de fundo da narrativa, porém é o advogado feito por Elba que traz alguns momentos de intensa dramaticidade, mesmo sendo, no fim das contas, subaproveitado. Não conhecemos muito bem a personagem central como uma personalidade, mesmo com os flashbacks de quando era mais jovem e esportista treinada pelo pai, e sim como a figura inserida numa situação complexa e que determinou sua vida em certo ponto.
Como em Questão de honra, Sorkin apresenta uma atração pelo universo dos advogados e do tribunal, embora as cenas passadas nele não se estendam, sendo mais trabalhados os bastidores, com as tentativas de Charlie em lidar com os advogados que tentam entrar em acordo com sua cliente. E como no ótimo e às vezes esquecido O homem que mudou o jogo há um verdadeiro jogo entre o que pode ser ganho caso se invista em determinadas jogadas – quando no filme de Miller tudo se fazia em torno de compra e venda de jogadores para a construção de uma equipe competitiva. A atração pelo jogo, contudo, era intrínseca, embora no filme com Brad Pitt mais voltada a uma questão histórica, para os personagens e para a equipe.
No entanto, há a presença de mais humor, sobretudo pela figura de Douglas Downey, graças à atuação calibrada do sempre subestimado O’Dowd (o policial de Missão madrinha de casamento) e, quando a violência de uma determinada situação surge para espantar a calmaria, parece que Sorkin recorre a truques bem colocados de suspense.

Apesar de aproximações feitas com A rede social, esta personagem é muito diferente do Zuckerberg daquele filme. Há um senso de realismo muito mais presente, assim como um sentimento de desamparo e solidão da personagem num universo em que ela se insere com gosto pela luxúria e sobrevivência. Sorkin visualiza esse universo longe da simetria informatizada e dividida em atos definidos de Boyle para seu roteiro de Steve Jobs (o qual já não era necessariamente interessante) e recorre a vários cenários para multiplicar essa visão de submundo repleto de ricos, em que transitam interesses pelo dinheiro e pela sexualidade dosados por uso de drogas, sem fixar essa visão.
Chastain transforma Molly numa personagem mais interessante do que transparece ao início, em que parecemos estar diante mais de uma mulher apenas ousada em se envolver com o universo do pôquer – quando há camadas mais psicológicas. Ela encarna uma mulher a princípio determinada, mas depois bastante volúvel, difícil de ser definida. É difícil haver um filme com tantos flashbacks que parece acontecer no mesmo tempo, de maneira linear. Em nenhum momento, Sorkin confunde o espectador com artifícios que fujam ao roteiro ou tenta ser hermético por meio da montagem. Com temas que perfazem um grande panorama, a partir basicamente de apostas, literalmente, A grande jogada se faz marcante.

Molly’s game, EUA, 2017 Diretor: Aaron Sorkin Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O’Dowd, Bill Camp Roteiro: Aaron Sorkin Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Mark Gordon, Amy Pascal, Matt Jackson Duração: 140 min. Estúdio: The Mark Gordon Company, Pascal Pictures, Ciwen Pictures, Huayi Brothers Pictures Distribuidora: STXfilms

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