Lady Bird – A hora de voar (2017)

Por André Dick

Lançado no Festival de Sundance de 2017 e desde então elevado pela crítica a ponto de chegar a indicações principais ao Oscar, Lady Bird, de Greta Gerwig, é um filme sobre a adolescência com vários elementos que já vimos antes. São organizados de maneira a fazer o espectador sentir uma espécie de nostalgia, assim como as obras dos anos 80 de John Hughes e do recente e excepcional As vantagens de ser invisível e de Quase 18, em que uma jovem gosta de um colega sem saber ao certo o motivo. Saoirse Ronan interpreta Christine McPherson, mais conhecida pelo nome-título, filha de Marion (Laurie Metcalf) e Larry (Tracy Letts), que tem um irmão, Miguel (Jordan Rodrigues), adotado. Ela estuda numa escola secundária religiosa de Sacramento, onde sua melhor amiga é Julie Steffans (Beanie Feldstein). Ambas resolvem entrar no grupo de teatro escolar, com o padre Leviatch (Stephen McKinley Henderson) à frente, onde Lady Bird conhecerá Danny O’Neill (Lucas Hedges). Essas inter-relações de Lady Bird levam a um conflito frequente com a mãe e a uma tentativa de sempre compreender sua melhor amiga. E ela não gosta da cidade onde vive, pois queria ter uma experiência artística em Nova York ou qualquer outro lugar.

Gerwig, assim como no roteiro que ajudou a escrever com seu marido Noah Baumbach, também diretor, em Frances Ha, mostra uma generosidade com esse sentimento de uma pessoa querendo sair da adolescência e entrar na vida adulta. A personagem, aqui, pretende ingressar numa boa universidade, mas sem deixar a essência para trás. Entre descobertas e paixões, também com o jovem de uma banda de música, Kyle Scheible (Timothée Chalamet, infelizmente a peça menos funcional do elenco), Lady Bird tende a descobrir que seu microuniverso se estende a um cosmos do qual não chegava a ser admiradora e se aproxima de Shelly (Marielle Scott), a namorada do irmão.
Além de tudo, o filme possui uma montagem muito criativa, com cenas curtas e ainda assim eficazes. Embora nos primeiros 15 minutos há certos maneirismos e referências claríssimas a Eleição, de Alexander Payne, aos poucos mesmo eles vão se encaixando nos personagens. Ronan, desde Brooklyn, possui uma grande empatia com o público e aqui se destaca realmente como uma atriz capaz de sustentar a história. Suas amizades e romances são visivelmente elementos autobiográficos de Gerwig. Quando a personagem começa a tentar deixar de lado sua antiga amiga, para se tornar próxima de Jenna (Odeya Rush), isso não vem sem uma determinada pré-condição de que ela consegue se aceitar, nem a si, nem sua família. Há elementos aqui que Gerwig explorou no roteiro de outro filme que fez com Baumbach, Mistress America, mas neste ela ainda mantinha uma certa aura cultural que não satisfazia aos seus objetivos, nem havia propriamente uma fluidez na história.

Gerwig insere seus personagens num equilíbrio entre a transgressão (querer ser rebelde) e a permanência (a tradição da família), não sem uma boa porção de gags, visuais sobretudo, em peças de teatro exageradas. No roteiro, há um humor agridoce que Gerwig traz também de Mulheres do século 20, no qual faz uma jovem também de cabelo tingido, como Lady Bird, ajudando uma amiga a criar seu filho adolescente. Com uma mescla de nuances e sobreposições de tempos que remetem aos melhores momentos recentes de Malick (quando várias festas de fim de ano passam e Lady Bird procura emprego), sem o uso de voice overs, por outro lado, a narrativa se constrói de maneira interessante e sem, embora aparente, um elemento pop. Para um olhar superficial, trata-se apenas de um filme sobre a vinda da adolescência, como se costuma falar.

No entanto, vendo-se atentamente, Lady Bird representa uma espécie de transição entre sentimentos passageiros e outros mais duradouros. O que está para se passar na vida dela é justamente esse sentimento de que os indivíduos não são construídos também por seu núcleo (familiar, escolar etc.): Greta mostra com sensibilidade de que não há possibilidade de um indivíduo ser alguém distanciado de tudo para se entender, e com isso vem o elemento da sexualidade. O momento em que ela percebe que o espaço da escola se desloca para outros lugares é o momento exatamente de compreender que as gags proporcionadas pela primeira parte não se sustentam longe de um conhecimento existencial. Há cenas significativas que parecem descompromissadas, como aquela da festa de colégio em que todos estão vestidos com roupas de Velho Oeste e há cactus luminosos: Lady Bird mostra visão sobre o interior dos Estados Unidos e de como a religião da escola onde ela estuda simboliza a época posterior dos confrontos dessa região.

Em razão de um roteiro simples e personagens mais ainda, no entanto sem nunca perder um elemento de humanidade que normalmente é esquecido na maior parte dos filmes, por meio de um elenco cuja simpatia conta muito (Tracey Letts, Stephen McKinley Henderson e Beanie Feldsteine de forma destacada), Lady Bird realmente consegue voar. Aqui, a passagem para as novas gerações não traz conflito, e sim aceitação, mesmo que por vezes dolorosa. A sequência final, na qual temos um vínculo com a primeira parte da narrativa, deixa a personagem e o espectador em suspenso, devido à sua fragilidade, e a química entre Ronan e a ótima Metcalf indica essa progressão. Para Greta, o início da vida adulta não significa mais do que entender quem nos formou, independente de qual seja a aceitação. Para muitos, isso pode ser uma obviedade: não para quem viveu a adolescência e sabe que ninguém nasce com uma linguagem independente dos demais. Lady Bird, no fundo, trata disso como poucos filmes a respeito de sua faixa etária: nós somos feitos de um sentimento universal e é isso que nos faz, de fato, humanos.

Lady Bird, EUA, 2017 Diretora: Greta Gerwig Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Stephen McKinley Henderson, Lois Smith, Jordan Rodrigues, Marielle Scott Roteiro: Greta Gerwig Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: Jon Brion Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Evelyn O’Neil Duração: 93 min. Estúdio: Scott Rudin Productions, Management 360, IAC Films Distribuidora: A24, Universal Pictures Release date

 

Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: