Eu, Tonya (2017)

Por André Dick

“Eu, Martin Scorsese ou David O. Russell.”
Este é um filme de Craig Gillespie, o mesmo da refilmagem interessante de A hora do espanto, mas parece desses dois cineastas, levando em conta que O. Russell já homenageia, digamos assim, o estilo de Scorsese. Se o espectador está procurando por movimentos de câmera do início ao fim, com pessoas olhando pelos vidros de um carro ou na plateia de um evento esportivo, com o olhar atento ao que está acontecendo, Eu, Tonya é uma bela referência, embora seu foco não seja este.
O filme está concentrado na história de Tonya Harding (Mckenna Grace na infância e Margot Robbie na adolescência e vida adulta), que se tornou um grande nome da patinação artística nos Estados Unidos nos anos 90. A sua mãe, LaVona Fay Golden (Allison Janney), a tira da escola, nos anos 70, para tentar torná-la uma profissional, mas sempre com muita agressividade e muitos maços de cigarro. Esta história basicamente constitui a primeira parte do filme, que é narrado como se os personagens estivessem dentro de um programa de TV explorando suas imagens e condições.

Tonya acaba se casando com Jeff Gillooly (Sebastian Stan) com o objetivo de fugir desta pressão materna, mas cai em outra situação angustiante. Isso porque Gillooy, sempre acompanhado pelo amigo Shaw Eckhardt (Paul Walter Hauser), não é a figura mais atrativa para se ter uma conversa sobre um relacionamento ou mesmo para se tratar de maneira tranquila sobre a família. Gillespie emula bastante Os bons companheiros e Cassino para tratar desse relacionamento conturbado, enquanto a mãe de Tonya dá espaço a outra treinadora, Dody Teachman (Bojana Novakovic), para as Olimpíadas de Inverno de 1992. Baseada em fatos reais, a narrativa traz uma tentativa de boicote a uma das patinadoras rivais de Tonya, o que tomou grande repercussão nos Estados Unidos.
Se a obra inicia nos anos 70 e possui uma certa aura de Trapaça, inclusive na trilha sonora, assim como da série Vinyl, os travellings se multiplicam e acabam minando uma narrativa já não interessante como poderia, entretanto é quando a ação se transporta para os anos 90 que os eixos da história se dispersam e realmente não se encontram tão cedo, apenas mais ao final. Robbie é uma boa atriz em punhado de sequências, no entanto não lhe é oferecida a chance de brilhar, o que é estranho, já que ela é uma das produtoras.

Ela fez o filme visando à indicação ao Oscar, que conseguiu, já merecida por O lobo de Wall Street, no qual fazia a esposa casada com o personagem de DiCaprio (e em cujo estilo a obra de Gillespie também se baseia, principalmente quando insere os depoimentos), e se tornou uma estrela popular depois de interpretar Arlequina em Esquadrão suicida e a namorada do rei das selvas em A lenda de Tarzan, contudo deveria ter pedido menos espaço no roteiro ao personagem do marido violento, que se torna, em última instância, o principal. Há uma razão: os personagens não chegam a ser por um momento sequer agradáveis, parecendo todos oportunistas, enquanto Tonya se deixa levar pela violência alheia e não coloca freios nela. A personagem da mãe, além de unidimensional e evitando que Janney, normalmente uma ótima atriz, consiga extrair um punhado de sinceridade dela, se torna a representação de todos do filme: tanto Stan quanto Hauser estão difíceis de suportar em seus respectivos papéis. Essa é a diferença em relação a Scorsese: este, mesmo quando foca bandidos, consegue extrair deles algum elemento de humor, algum atenuante para criar um interesse por suas trajetórias. Em Eu, Tonya, Gillespie mostra apenas a miséria de comportamento humano, porém querendo ser também divertido, como Scorsese. Quem apreciar o enfoque de Gillespie terá mais chance de apreciar a história.

Em linhas gerais, Eu, Tonya trata de uma mulher que deixa sua vida ser governada, de certo modo, pela violência. Isso, por um lado, soa uma visão determinada sobre essa personagem, por outro o espectador se torna apenas testemunha de uma série de atitudes incompreensíveis. Por isso, ao se ver nesse filme uma espécie de libelo feminista, talvez esteja se escondendo o seu potencial fator: o de que ele atenua a violência contra a mulher, de que pelo menos Tonya teria nascido não para lutar por sua vida e sim para, literalmente, ser agredida, tanto física quanto psicologicamente. Seu grande confronto com a vida seria este, não exatamente sua tentativa de ser uma exímia patinadora. Pode ser uma ideia a ser revista; a impressão que fica, pessoalmente, é esta. Gillespie compõe uma cinebiografia que se pretende original, moderna, contudo parece uma repaginação de muitas coisas já vistas, e melhores. Com essa influência estilística e algumas vezes temática de Scorsese e O. Russell, Eu, Tonya imagina estar gravando uma espécie de vida em movimento acelerado, sem perceber, muitas vezes, que isso só torna sua narrativa mais atrasada, não apenas em termos de funcionalidade, como de ideias.

I, Tonya, EUA, 2017 Diretor: Craig Gillespie Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Bobby Cannavale, Paul Walter Hauser, Bojana Novakovic Roteiro: Steven Rogers Fotografia: Nicolas Karakatsanis Trilha Sonora: Peter Nashel Produção: Tom Ackerley, Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless Duração: 119 min. Estúdio: LuckyChap Entertainment, Clubhouse Pictures, AI Film Distribuidora: Neon

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