Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi (2017)

Por André Dick

Depois de estar à frente de Pariah (muito elogiado no Festival de Sundance) e Bessie, a diretora Dee Rees traz a Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi, produção da Netflix, baseada no romance de Hillary Jordan, o que se esperava: uma espécie de encontro de A cor púrpura com 12 anos de escravidão, mas com características próprias. Esses são dois filmes basilares para o conhecimento da história dos afrodescendentes nos Estados Unidos, sobretudo no que se refere à sua dificuldade de inserção e à tragédia da escravidão, que perpassou gerações. O que Rees faz não é simples: ela traz ao mesmo âmbito de obras consagradas um novo olhar sobre a tentativa de domínio do homem branco, sem abdicar de uma visão humana sobre aqueles que ousaram, diante disso, fazer diferente.

A narrativa do filme começa com a imagem de uma cova sendo cavada em meio a uma terrível tempestade. Do que se trata? Rees não esclarece e se volta a alguns anos antes, para acompanhar a história de Laura (Carey Mulligan), que se casa com Henry McAllan (Jason Clarke) e se muda para o Mississipi, junto com as duas filhas pequenas. Lá, eles conhecem a família de Hap Jackson (Rob Morgan), casado com Florence (Mary J. Blige). O filho deles, Ronsel (Jason Mitchell), vai servir na Segunda Guerra Mundial, assim como o irmão de Henry, Jamie (Garrett Hedlund). Temos ainda uma vizinha, Vera (Lucy Faust), acometida pelos problemas financeiros e as infidelidades de seu marido. Nesta construção, percebe-se um estilo de relato próximo ao épico ou à de passagem de gerações, afastadas pelo tempo: mesmo que haja muita informação na primeira parte, ela nunca é menos do que indispensável para que se crie uma sensação de tempos mesclados e figuras crescendo em conjunto ou separadamente.
Embora com um pai racista, Pappy (Jonathan Banks), Henry tenta se adaptar à comunidade que o cerca e fazer amizade, embora sem o espectador saber ao certo se é verdadeira ou falsa, com Hap e sua família. O fato de suas filhas ficarem doentes faz com que ele precise da ajuda de Florence para cuidá-las. Mudbound trata dessa proximidade dos brancos de afrodescendentes com o intuito de, primeiramente, manter tudo como está e, depois, como tentativa de conciliação.

Baseada em um romance de Hillary Jordan, Rees entrega uma adaptação feita com Virgil Williams com um ritmo próprio decisivo para sua concretização. Com belíssima fotografia de Rachel Morrison (a primeira mulher indicada ao Oscar da categoria), Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi mostra em paralelo a rotina de Henry e Hap nas plantações do lugar onde vivem e a rotina na guerra de Ronsel e Jamie. O mais notável é que a direção de Rees costura tudo com uma fluidez rara, não havendo um choque entre perspectivas, mas um complemento. Isso se dá apoiado nos personagens e atuações extraordinárias de todo o elenco, sem exceção. Hedlund (depois de já se mostrar grande ator em Na estrada e Invencível) e Mulligan (um pouco ausente depois de O grande Gatsby), particularmente, nunca estiveram tão bem, e Mitchell é uma ótima revelação. Além disso, temos Blige, que acabou sendo a escolhida do elenco para representar o filme em premiações, como coadjuvante, com um certo estilo que faz lembrar a grandiosa atuação de Whoopi Goldberg em A cor púrpura.

O tom do filme possui certa melancolia, mas ela nunca é utilizada para uma certa comoção pré-programada e sim como um elo entre esses personagens. O Mississipi é uma paisagem que serve de pano de fundo para os conflitos, no entanto vai, aos poucos, se integrando a cada uma dessas figuras, como se existisse para elas. O tom dado pela fotografia – que remete à terra – segue desde o início seu estilo eficaz. Esse tom não está apenas na própria ambientação, como no horizonte e nos figurinos dos personagens. Rees mostra a dificuldade que era construir uma família e uma casa nesse período com rara eficácia: ela visualiza o trabalho da fazenda como uma espécie de tentativa de o ser humano não ter mais do que outro, e sim poder ter direito de dizer que a terra é mais sua do que do outro.
Outro detalhe que funciona para a história se sentir próxima do espectador é o uso da narração em off de personagens diferentes, não causando confusão e sim um tom de agregação interessante. Quando os personagens partem para a guerra, a visão vai se modificando e o espectador se torna parte dessas famílias. Além disso, Rees não se torna apaziguadora da história: aqui já existe o que seria premissa básica para outro filme baseado nessa localidade, Mississipi em chamas, dos anos 80. Mudbound é realmente notável, possivelmente o melhor já lançado pela Netflix (seguido por Os Meyerowitz) e que promete, pelas indicações ao Oscar (quatro no total), a eliminação definitiva entre filme feito para as grandes telas (é a primeira obra da companhia lançada nos cinemas do Brasil) ou para streaming, pois o mais importante é a preocupação com a qualidade narrativa, da direção e do elenco. Esses elementos decisivamente não faltam à obra de Rees.

Mudbound, EUA, 2017 Diretora: Dee Rees Elenco: Carey Mulligan, Jason Clarke, Jason Mitchell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jonathan Banks, Garrett Hedlund Roteiro: Dee Rees e Virgil Williams Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Tamar-kali Produção: Carl Effenson, Sally Jo Effenson, Cassian Elwes, Charles King, Christopher Lemole, Kim Roth, Tim Zajaros Duração: 134 min. Estúdio: Elevated Films, Joule Films Distribuidora: Netflix

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