Todo o dinheiro do mundo (2017)

Por André Dick

No ano em que completou 80 anos, o diretor Ridley Scott lançou a sequência de Prometheus, colaborou no roteiro de Blade Runner 2049 sem ser creditado, ajudou a produzir Assassinato no expresso do Oriente e finalmente, diante de várias denúncias de assédio contra Kevin Spacey, que participava de seu novo filme, Todo o dinheiro do mundo, resolveu refilmar todas as cenas em que ele aparecia, trocando-o por Christopher Plummer. O resultado em termos financeiros e de crítica foram irrisórios, mas a nova obra de Scott tem uma história muito interessante, baseada em fatos reais.
Tudo começa em 1973, quando JP “Paul” Getty III (Charlie Plummer) é sequestrado em Roma por um grupo. Ele é um jovem de 16 anos, neto de J. Paul Getty (Christopher Plummer), magnata do petróleo e o homem mais rico daquela época. Os sequestradores exigem 17 milhões de dólares como resgate. Sabemos por meio de flashbacks que os pais do adolescente, Gail Harris (Michelle Williams) e John Getty Jr. (Andrew Buchan), se divorciaram quase uma década antes e ela não recebe nenhuma pensão alimentícia para ter a custódia dos filhos. E que John Getty se entregou às drogas.

Ela fica desesperada e pede o dinheiro ao ex-sogro, que coloca Fletcher Chase (Mark Wahlberg), negociador do Getty Oil, a empresa de Getty, para cuidar do caso. Sem querer dar o montante em dinheiro requisitado, Getty quer que seu assessor, também ex-integrante da CIA, investigue onde pode estar o neto. Este se encontra num cativeiro no interior da Itália, vigiado por, entre outros, Cinquanta (Romain Duris).
A história parece previsível, porém a maneira como Ridley Scott a conduz tem a voltagem de um thriller americanos em terra italiana, com um bom contraste entre a cidade e a área rural e entre o desespero de uma mãe e o luxo de um milionário pouco emotivo. De forma indireta ou direta, Todo o dinheiro do mundo trata da constituição de uma família e de como um sobrenome pode pesar ou significar em momentos que se tornam nebulosos ou perturbadores diante de uma realidade mais angustiante.

Williams apresenta uma atuação discreta e ainda notável, seguida pela de Plummer, num registro muito mais expansivo do que pareciam indicar as refilmagens. O personagem dele realmente serve de guia para o filme, com uma presença estranhamente maligna, embora, mais ao início, sua participação seja um pouco entrecortada pelas idas e vindas no tempo. Sua reação ao sequestro do neto reserva um comportamento dúbio: se, por um lado, ele parece se preocupar com o que acontece a ele, por outro há uma frieza. Ele lembra do neto principalmente criança, e quando Scott mostra os dois caminhando em ruínas do Coliseu (seus semblantes lembram de Chaplin e o menino em O garoto) parece que ele quer entrelaçar passado e frente para dizer que o personagem está em outra dimensão, junto com sua concepção de dinheiro. E Romain Duris apresenta uma atuação muito convincente como um dos sequestradores que deseja pôr fim à situação o quanto antes. A atuação de Charlie Plummer (nenhum parentesco real com Christopher) é surpreendente, mesmo com pouco roteiro, e Wahlberg é competente, mesmo com uma figura escrita com menos ênfase, principalmente levando em conta a função que poderia ter.

A fotografia de Dariusz Wolski ajuda a criar uma atmosfera que mescla alguns dos melhores momentos da trajetória de Scott, fazendo a história dialogar com Gladiador, Hannibal e O conselheiro do crime, além de Um bom ano: Scott é quase um cidadão italiano por seu interesse pelo país. Desde O poderoso chefão III, no cinema norte-americano ou inglês, não se tinha uma visão geral do interior desse país tão aproximada, com suas cidades de becos apertados e fazendas como pontos de encontro entre mafiosos. Ele tem uma obsessão por esculturas e estátuas do universo romano, e aqui mostra literalmente como alguns privilegiam essas peças do que o corpo humano e seu sentimento. Há uma concepção muito interessante do filme sobre a arte ser considerada uma riqueza e um passo para um indivíduo se sentir atemporal e acima de seus semelhantes. Isso se manifestava no início de Alien: Covenant, por exemplo, quando vemos Peter Weyland e David numa sala com a pintura “Natividade”, de Piero della Francesca, ao fundo. Aqui, surge outra obra de arte como significado para as perturbações de Getty. Em outro momento, é oferecida uma quantia de dinheiro para que possa aproveitar de forma jornalística uma informação referente ao neto. Scott evita uma manipulação dramática e concede à sua narrativa uma visão moderna de que todos desejam tirar algo dessa situação.

Os sequestradores não podem ter seu rosto revelado, mas em nenhum instante vemos também Getty se revelar. Em Todo o dinheiro do mundo, o rosto habita as notas de dinheiro e as esculturas, não os humanos. Esses se escondem sempre por trás de suas decisões meramente pessoais. Não existe em Getty, por exemplo, a visão que Scott lançava em O gângster, sobre como um homem crescia por meio da máfia, porém a maneira com que ambos se distanciam da realidade é semelhante. Não imagino o impacto que terá para o espectador que sabe da história real. Evitei ter informações antes de assisti-lo e, mesmo com alguns traços recorrentes de narrativa de sequestro, teve uma certa surpresa.
O roteiro de David Scarpa, adaptado do livro Painfully rich: The outrageous fortunes and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty, é muito conciso e funcional, não havendo nenhum excesso, com auxílio da montagem agilíssima, e Scott entrega sua melhor direção desde O conselheiro do crime, com grande domínio sobre os espaços e elenco. Que este filme não esteja entre os indicados principais ao Oscar é um mistério tão grande quanto se achar que a última grande obra de Scott é Blade Runner. Todo o dinheiro do mundo é excepcional.

All the money in the world, EUA/ING, 2017 Diretor: Ridley Scott Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Charlie Plummer, Andrew Buchan Roteiro: David Scarpa Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh Duração: 135 min. Estúdio: Imperative Entertainment, Scott Free Productions Distribuidora: TriStar Pictures

 

Deixe um comentário

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: