Me chame pelo seu nome (2017)

Por André Dick

O tradicional diretor James Ivory, conhecido por seus filmes históricos dos anos 80 e 90, alguns de notável qualidade, adaptou o romance de André Aciman para este filme dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, influenciado aqui especificamente por Eric Rohmer, aquele de Pauline na praia. Ele mostra a trajetória de Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, que vive numa área rural da Itália com seus pais, Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar). O pai é um estudioso de arquelogia e recebe um estudante de pós-graduação, Oliver (Armie Hammer), para ficar com a família no verão de 1983 e ajudá-lo a catalogar novas peças. A casa é um verdadeiro oásis: lembrando as paisagens de Um bom ano, de Ridley Scott, este interior da Itália é um convite a um passeio, e a bela fotografia de Sayombhu Mukdeeprom consegue mostrá-las de modo atrativo.
Oliver parece, a princípio, um típico personagem norte-americano, tentando contrastar sua cultura com os belos lugares enfocados pelo diretor. Elio, por algum motivo não definido explicitamente, se torna seu companheiro de visita à região, sobretudo de bicicleta. Em pouco tempo, Oliver já encontra um bar e companhia para apostas, mas Guadagnino quer emprestar a ele uma aura cultural que vai se manifestando em doses ao longo da narrativa. Já Elio, com conhecimento extremo em música, tem interesse por Marzia (Esther Garrel), contudo começa a se sentir atraído pelo pesquisador, em meio a suas experimentações com o violão e o piano de casa.

Na história do cinema recente, em que já tivemos os ótimos O segredo de Brokeback Mountain, The normal heart e Moonlight, para citar apenas alguns conhecidos sobre a relação entre dois homens, Me chame pelo seu nome pretende incluir grandes temas por meio de seu roteiro, no entanto se sente estranhamente vazio. O roteiro de Ivory não consegue esclarecer – mesmo que seja o objetivo, fica num meio-termo – o personagem de Oliver, e Hammer entrega uma atuação aqui capaz de contentar quem questiona seu talento interpretativo (e, particularmente, ele tem atuações destacáveis, em A rede social e O agente da U.N.C.L.E., entre outros). Não há uma ligação dele com o Sr. Perlman, e ele parece mais um turista em férias do que um estudioso dedicado. Em determinado momento, o Sr. Perlman fala dele como se fosse algum gênio não descoberto, mas nada antes o mostra como tal. Nem Hammer nem o roteiro emprestam empatia ao personagem, lembrando apenas alguém certo de um brilhantismo pessoal. Elio é uma espécie de versão mais jovem dele, situando-se entre o tédio de um jovem que não precisa se esforçar para ter tudo e a necessidade de quem deseja corresponder à atração também pela mulher de maneira autocentrada. Timothée Chalamet atua de maneira mais segura, mas longe de qualquer traço memorável, e falta a seu personagem um desenvolvimento.

Além disso, o tom de sedução de Oliver em reação a Elio é enfraquecido pelo roteiro expositivo, sem nuances ou complexidade real. Eles não conversam; eles expõem conceitos, por meio de imagens com o intuito de captar elementos da Roma Antiga, de estátuas históricas. O pesquisador representa essa faceta. Contudo, percebe-se, aos poucos, que Guadagnino evita close-ups em Hammer, pois este não consegue transparecer uma emoção dosada. E isso surpreende, pois ele já havia feito com talento o homem casado com J. Edgar interpretado por DiCaprio no filme de Eastwood.
O número de diálogos em tom pouco crível é notável ao longo da narrativa. Isso se mostra na aproximação pouco natural entre os personagens: durante um jogo de vôlei no gramado dos Perlman, Oliver sai do campo para ver se as costas de Elio, sentado, olhando a partida, estão tensas. Em outro momento, talvez porque não houvesse pêssegos no café atrativo da família Perlman, ele resolve roubar um de Elio enquanto ele está dormindo. Oliver ainda quer ensinar a Elio as melhores notas para uma música sobre a qual não tem conhecimento, possivelmente porque lê Heráclito. Muito do que leva o espectador a gostar do filme é simpatizar com suas figuras: aqui, ambas são pouco naturais, ao contrário do que pretende o filme e seus atores são constantemente prejudicados pela maneira como Guadagnino parece se envergonhar da relação que está mostrando, usando a natureza como subterfúgio. Ele tenta ser naturalista como um filme de Rohmer, mas tudo soa muito disperso para ter uma real emoção. Em momento algum, Oliver e Elio discutem o que estão sentindo um pelo outro; talvez fosse o objetivo, mas para um filme que pretende focar uma paixão é como se algo faltasse.

Em certos momentos, com destaque para aqueles em que Elio toca piano para distrair os convidados dos pais, o diretor quer enfocar um certo vazio rodeado pela cultura (inserindo diálogos sobre Heidegger, como se isso encobrisse a falta do que dizer dos personagens, ou mostrando artefatos históricos) com um bom panorama do interior italiano, capaz de despertar a sexualidade dessas figuras. Não existe, porém, uma química entre os atores, visivelmente desconfortáveis: basta comparar suas atuações com aquelas de Brokeback Mountain e Moonlight, por exemplo. Quando há uma aproximação entre os dois, Guadagnino prefere filmá-los se divertindo, pulando na cama, ou Elio pulando nas costas de Oliver, sem, na verdade, querer mostrar diálogos mais afetivos. Sim, há, mais perto do desfecho, alguns momentos que parecem trazer uma certa essência, num discurso excepcional do personagem de Sthulbarg, mas encaixado para estabelecer uma coesão em relação ao que se viu antes e como uma tentativa de Guadagnino em definir o que não faz ao longo da narrativa por meio dos personagens centrais.
No final das contas, Me chame pelo seu nome procura apresentar uma experiência para o espectador, mas o que atinge é somente a superfície: vemos as paisagens de cartão postal da Itália, mas não a paixão entre duas pessoas, pelo pouco que tem a dizer de maneira emocional e sem recorrer a uma certa pose naturalista. É um filme que, tentando falar de paixão o tempo todo, se esquece efetivamente de transparecer um afeto: como os passeios de bicicletas, ele investe num movimento para que o espectador não perceba que pouco ocorreu. Havia uma história complexa e melancólica no roteiro, sobre como o ser humano precisa se adaptar às mudanças da vida (na última cena, muito bem composta e enquadrada). Faltaram o diretor e os atores certos para fazer isso.

Call me by your name, ITA/FRA/EUA, 2017 Diretor: Luca Guadagnino Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois Roteiro: James Ivory Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom Trilha Sonora: Sufjan Stevens Produção: Peter Spears, Luca Guadagnino, Emilie Georges, Rodrigo Teixeira, Marco Morabito, James Ivory, Howard Rosenman Duração: 132 min. Estúdio: Frenesy Film Company, La Cinéfacture, RT Features, Water’s End Productions Distribuidora: Sony Pictures Classics

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6 Comentários

  1. Anônimo

     /  28 de janeiro de 2018

    Assim, o filme deixa claro que vemos a perspectiva de Elio sobre a chegada de Oliver, assim, é comum que ele parece mais o “turista de férias” porque ele é o objeto de desejo de um jovem em descoberta sexual, e convenhamos que a imagem de um estudioso super talentoso é bem menos atrativo do que a ideia do turista misterioso. E esse é só um ponto negativo da crítica. Eu juro que não entendo porque as pessoas sempre tendem a querer ser as “diferentonas”, o filme é aclamadíssimo,o roteiro (dito raso por você) é indicado ao óscar e com grandes chances de levar o prêmio, mas existe essa necessidade de ser diferente dos outros e ser o que diz que o filme é ruim (2 estrelas);
    Entendo que gosto é algo muito particular, mas sendo assim, deixe claro ao fazer uma crítica que se trata meramente de opinião ao invés de tentar apontar erros técnicos que ninguém notou.

    Responder
    • André Dick

       /  28 de janeiro de 2018

      Caro anônimo,

      A crítica expõe uma visão pessoal, sempre. Se você discorda dela e quer apenas o consenso, leia apenas as que te agradam. Seria mais notável você vir aqui, por exemplo, fazer a defesa de um filme criticadíssimo que eu estivesse defendendo. Há espectadores como você que acham que todos devem seguir um padrão. Na crítica, estão expostas as razões pelas quais Me chame pelo seu nome é tão superestimado. Você observa: “Assim, é comum que ele parece mais o ‘turista de férias’ porque ele é o objeto de desejo de um jovem em descoberta sexual, e convenhamos que a imagem de um estudioso super talentoso é bem menos atrativo do que a ideia do turista misterioso.” Você está avaliando o filme diferente do que ele se pressupõe: pelo próprio Sr Perlman, este é um estudioso modelo, tanto que é selecionado para passar as férias fazendo o que ele não faz: pesquisar. O próprio Sr. Perlman afirma que ele é uma espécie de gênero da área, o que não condiz com o que mostra o filme.

      “Eu juro que não entendo porque as pessoas sempre tendem a querer ser as ‘diferentonas’, o filme é aclamadíssimo,o roteiro (dito raso por você) é indicado ao óscar e com grandes chances de levar o prêmio, mas existe essa necessidade de ser diferente dos outros e ser o que diz que o filme é ruim (2 estrelas)”. Se fosse por número de indicações, Dunkirk e The Post deveriam ser também ótimos filmes, o que, para mim (e não no consenso em que você quer enquadrar o espectador e que não inclui as “diferentonas”), não são. E duas estrelas indicam um filme regular, não ruim. O roteiro é raso pelas razões expostas na crítica. Não se tratam de erros técnicos e sim problemas, na minha visão, conceituais que não só eu notou, mas certamente os outros que acham o mesmo e, para você, não poderiam expressar isso.

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  2. Que crítica vazia e superficial.

    Responder
  3. Renan

     /  28 de janeiro de 2018

    Spoiler abaixo

    Finalmente alguém teve as mesmas percepções que eu em relação ao filme. Vi gente dizendo que Moonlight que tratava esse tema com superficialidade. O meu problema com filme reside também no fato de que, em alguns momentos, parece tratar a homossexualidade como uma fase. O pai teve uma experiência e se casou, Oliver teve essa experiência mas termina o filme noivo de uma mulher e se tiver um próximo filme, provavelmente Eliot estará noivo de uma mulher. Alguns podem argumentar que seria por conta do preconceito, é uma argumentação plausível (O segredo de Brokeback foi pelo mesmo caminho), mas o filme em nenhum momento caminha por esse lado, pelo contrário, trata isso com um certo otimismo.
    Enfim, gostei muito da sua crítica. E sobre a galera dizendo que foi indicado a vários Oscar e blábláblá, é só lembrar quantos filmes ruins foram indicados também, isso não deve ser parâmetro.

    Responder
    • André Dick

       /  28 de janeiro de 2018

      Spoilers abaixo

      Prezado Renan,

      agradeço por seu comentário, no qual você vai a outro ponto questionável do filme. Eu percebi o final do mesmo modo que você: a atração de Elio por um homem seria apenas uma fase para seus pais e talvez eles pensem o mesmo em relação a Oliver, já que consideram normal que ele se case com uma mulher logo depois de ter uma relação com o filho deles. Essa resulta numa dor emocional de Elio para a qual eles parecem não ligar porque justamente a homossexualidade é vista como parte de um jogo ou de uma tradição cultural, de uma alegria de verão e não de inverno, não como parte intrínseca de Elio. A mãe, segundo o pai de Elio, não sabe o que aconteceu, mas ela sabe – e, como as mulheres desse filme, ela deve entender tudo como um momento, uma situação. Mas e se Elio gostar apenas de homens, como sugere ao final? Ora, como o Sr. Perlman, no próximo verão virá uma mulher como pesquisadora, e talvez assim Elio mude e esqueça seu amor do verão passado? Moonlight, em sua narrativa aparentemente mais simples, é muito mais profundo porque realmente tenta focar os sentimentos de Chiron.

      Por isso, aponto na crítica que Guadagnino vê essa relação de maneira envergonhada e seus atores também, porque não há uma paixão real em jogo.

      Quanto ao Oscar, também não o vejo como parâmetro de um bom filme, mas, nesse período de premiações, certos filmes parecem intocáveis, e Me chame pelo seu nome parece um por algumas reações. Por isso, é bom não se construir consenso em torno de obras com problemas conceituais muito claros. Gostar de um filme e querer que todos gostem não pode ser um caminho.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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