Boneco de neve (2017)

Por André Dick

Responsável por Deixa ela entrar e O espião que sabia demais, ambos considerados referenciais do cinema contemporâneo, o diretor sueco Tomas Alfredson enfrentou uma bateria de críticas pesadas a Boneco de neve, baseado em livro de Jo Nesbø. Ele mesmo veio a público se desculpar por não ter conseguido terminá-lo da maneia que gostaria. Não se sabe exatamente o que não deu certo junto ao público e à crítica, mas certamente nem mesmo a produção de Martin Scorsese e a montagem de sua habitual parceira, Thelma Schoonmaker, junto a Claire Simpson, tiraram o peso de decepção com que o filme foi recebido.
Basicamente, é a história de Harry Hole (Michael Fassbender), um detetive que investiga o desaparecimento de uma mulher no início do inverno numa cidade em torno de Oslo, na Noruega. O suspeito é um serial killer chamado “The Snowman” (“Boneco de Neve”, como o título brasileiro antecipa), que já esteve na ativa, pois deixa exatamente uma figura desse boneco no gelo indicando suas vítimas. A primeira a desaparecer é Birte Becker (Genevieve O’Reilly), casada com Filip (James D’Arcy), pais de Josephine (Jeté Laurence). Como ajudante, Hole recebe a chegada de Katrine Bratt (Rebecca Ferguson), que diz ter estudado seus casos na academia. A aproximação entre os dois não chega a se consumar de fato, pois Hole está imerso em problemas alcóolicos e Bratt esconde um detalhe de seu passado que pode ajudar a explicar seu comportamento presente.

Se Deixa ela entrar tinha problemas, a fotografia não era um. Neste novo filme, ela novamente é um destaque. O trabalho de Dion Beebe carrega uma atmosfera que mescla referenciais claros, como os trabalhos de Atom Egoyan, e mesmo os filmes dos anos 80. O detetive feito por Fassbender lembra, pelo jeito e figurino, o Rick Deckard de Blade Runner. Ele tem relação com a ex-esposa, Rakel Fauke (Charlotte Gainsbourg), e seu filho adolescente, Oleg (Michael Yates). Ela namora Mathias (Jonas Karlsson), um médico que tenta ser agradável com Hole, a fim de evitar atritos familiares. E no meio da história ainda se insere uma espécie de ricaço e que tenta levar Oslo a sediar as Olimpíadas de Inverno, Arve Stop (J.K. Simmons). Alfredson mostra de modo interessante como o comportamento e o sistema familiar se intensificam em tempos diferentes e como podem perturbar a mente de um homem. Os personagens são desenvolvidos mais em seu aspecto enigmático e expositivo, e é muito diferente assistir a Boneco de neve: pouco existe aqui de cinema comercial. E o que se mostra de apelo mais popular é, ao mesmo tempo, misterioso, calcado em imagens diferenciadas.

Há alguns flashbacks que focam o personagem de outro detetive, Gert Rafto (Val Kilmer, quase irreconhecível), que investigou o serial killer do boneco de neve anos antes e, se este material certamente teria mais agilidade com outro diretor, há exatamente um certo fascínio em acompanhar essa história com a lentidão empregada, com toques ainda do Insônia, de Nolan, e o igualmente subestimado À procura, de Egoyan. Fassbender é um dos melhores atores da atualidade e ele confere uma presença determinada a cada cena, representando a frieza do lugar que o cerca: suas atitudes são mecânicas e remotas, mesmo por causa do seu problema com o álcool. No entanto, a investigação o leva, mais do que adotar métodos já utilizados em outras investigações, a enfrentar o que não gostaria: o passado, tanto representado por Rafto quanto pela casa onde se dão alguns momentos-chave do serial killer. A casa, para Hole e o criminoso, representa uma mudança de tempo e atitude.

Também há outro elemento interessante rondando suas peregrinações: Alfredson o pressiona dentro de ônibus, casas, escritórios, como se não tivesse uma saída adequada de seu problema central. Ferguson, como sua companheira, é muito interessante, com uma presença magnetizante, assim como Gainsbourg. É uma narrativa que poderia lembrar Millennium, de Fincher, caso tivesse mais subtramas e desenvolvimento; o que permanece, contudo, me parece estar muito acima do que vem sendo dito, sobretudo pela atmosfera construída, com planos abertos mostrando a solidão desses lugares enfocados da Noruega, que se estende a seus personagens. O que se fala de Boneco de neve se espalhou como acontece às vezes: basta a crítica inventar que um filme é fraco e muitos passam a considerar o mesmo. As críticas mais notáveis se baseiam em detalhes essenciais para a história: o personagem central ter problemas com a bebida e os crimes serem anunciados por um boneco de neve (este é o mote do romance, então não haveria motivo para mudanças, e Alfredson opta por um caminho correto ao mostrar a figura). Mal se sabe que, guardadas as comparações, este filme não fica a dever para outros do gênero.

The snowman, EUA, 2017 Diretor: Tomas Alfredson Elenco: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, Val Kilmer, J. K. Simmons Roteiro: Hossein Amini, Peter Straughan, Søren Sveistrup Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo, Peter Gustafsson Duração: 119 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films, Another Park Film Distribuidora: Universal Pictures

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