Em ritmo de fuga (2017)

Por André Dick

Depois de dois sucessos de crítica, Todo mundo quase morto e Chumbo grosso, com um bom humor corrosivo e tramas ágeis, o inglês Edgar Wright passou a ser uma referência do cinema contemporâneo, uma figura de apelo pop. Ele veio a confirmar seu talento em Scott Pilgrim contra o mundo, uma adaptação das HQs com Michael Cera em grande momento e uma profusão visual inovadora para o cinema, sem definir gênero, mas misturando vários (fantasia, drama, comédia, romance). Depois de colaborar no roteiro de As aventuras de Tintim e de uma volta às suas origens em Heróis de ressaca, talvez sua obra com humor mais inglês, Wright quase dirigiu a adaptação Homem-Formiga (do qual foi um dos roteiristas), assim como Star Trek – Sem fronteiras, sendo talvez impedido pelo seu excesso, digamos assim, de estilo próprio.

É esse estilo que ele confirma no seu filme mais recente, Em ritmo de fuga. A história se passa em Atlanta, Geórgia, onde Baby (Ansel Elgort) é o motorista chamado para assaltos de alto risco. Ele trabalha para Doc (Kevin Spacey), que parece ter uma espécie de trato com ele a respeito de número de vezes determinado para prestar o serviço, e cuida do seu pai adotivo, Joseph (CJ Jones), que é surdo-mudo. Certo dia, esperando por café conhece uma garçonete, Debora (Lily James), por quem se apaixona.
Trabalhar para Doc, no entanto, parece ser como trabalhar para a máfia: Baby é chamado de volta para ajudar novamente num assalto, do qual vão participar Buddy/Jason (John Hamm), Darling/Monica (Eiza González) e Bats/Leon (Jamie Foxx), enquanto Griff (Jon Bernthal) é outro componente da primeira ação mostrada. O problema é que Baby quer constituir uma nova vida com Debora, ficando numa situação delicada. “Seu nome é Baby? Você está em todas as músicas”, diz ela.

A figura de Baby é uma das mais originais de um filme do gênero, muito por causa da excelente atuação de Elgort, que já havia mostrado talento em A culpa é das estrelas e Homens, mulheres e filhos, prejudicado, no entanto, pela série Divergente. Elgort oferece um timing excepcional a seu personagem. Como sempre está escutando música, para ajudar a aliviar um zumbido crônico, ele alterna momentos de leveza, em seu convívio com o padrasto, de tensão, nas reuniões para fazer os assaltos, e de bom humor, quando passa a se interessar por Debora ou quando tenta mixar alguns sons gravados, numa espécie de desejo de ser DJ. Ele também usa óculos para esconder as cicatrizes do acidente que sofreu quando criança e lhe proporcionou o incômodo problema. No entanto, Elgort sempre fica um pouco distante, como é de praxe em suas atuações, para tornar seu personagem mais denso. O espectador consegue ver sua transformação de cena para cena, e poucos atores conseguem isso: Elgort é um. Desde o início, ao som de “Bellbottoms”, da Jon Spencer Blues Explosion, seu personagem preenche a tela, assim como o motorista de Drive feito por Ryan Gosling.

Wright também sempre foi especialista em cenas de ação elaboradas, como mostrou principalmente em Chumbo grosso, mas aqui ele consegue ainda mais. Inspirado claramente pelo referido Drive, Atração perigosa, de Ben Affleck, e Caçadores de emoções (na máscara de Mike Myers, não Michael Myers; ainda com uma participação de Flea, baixista do Red Hot Chili Peppers, que também aparecia na obra de Bigelow), Wright torna o arsenal de cores dos cenários num pacote de amplo apelo popular, sem facilitar a narrativa. O roteiro, sem grandes reviravoltas, é atraente o suficiente e os diálogos ágeis. Ainda temos ótimas atuações especialmente de Lily James – que lembra a Shelley de Twin Peaks, assim como a lanchonete em que trabalha recorda o Double R, principalmente em sua fachada – e Foxx, bastante ameaçador, numa versão séria daquela que faz bem-humorada em Quero matar meu chefe, embora Hamm particularmente cresça na etapa final.

Pode-se avaliar que aqui não há o estilo mais excêntrico de montagem dos filmes anteriores de Wright, embora mantenha sua agilidade. Isso dá ao filme um estilo mais americano, mas não menos eficiente para o espectador. Com isso, há trechos mais vagarosos em relação ao restante da filmografia do diretor. Uma cena é inspirada particularmente em Amor pleno, de Malick, quando Baby e Debora se encontram numa lavanderia – Wright torna o ambiente iluminado como o momento em que se encontram realmente. Não se pode deixar de mencionar a extraordinária trilha sonora do filme, pontuando a vida de Baby e as situações que vão se configurando: num determinado momento, em meio a uma música romântica, temos uma cena de alta tensão, criando um contraste que faz lembrar os melhores momentos de Scott Pilgrim. É como se a música representasse não apenas o afastamento do personagem de seu maior problema, como também do universo de bandidos a seu redor. Não por acaso, o personagem de Bats/Leon parece tão avesso ao fato de Baby ouvir música durante as reuniões. Wright utiliza esse apoio de maneira eficiente em várias sequências, fazendo um repertório capaz de desenhar ainda melhor seu personagem central e inserir o espectador no ritmo da narrativa, basicamente sobre o sonho de um jovem em adentrar na vida adulta. Como em Scott Pilgrim, não há gênero definido aqui, apenas diversão inteligente garantida.

Baby Driver, EUA, 2017 Diretor: Edgar Wright Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Jon Hamm, Jamie Foxx, Eiza González, Jon Bernthal, Sky Ferreira, CJ Jones Roteiro: Edgar Wright Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: Steven Price Produção: Eric Fellner, Nira Park, Tim Bevan Duração: 113 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Big Talk Productions

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2 Comentários

  1. Luciana Costa

     /  17 de abril de 2018

    É uma produção espetacular. Ansel Elgort esta impecável no filme. O ator tem tantos bons filmes, mas esse se destaca. Ele sempre surpreende e contagia. Adoro porque sua atuação não é forçada. Seguramente o êxito de Em Ritmo De Fuga” se deve a a suas expressões faciais, movimentos, a maneira como chora, ri, ama, tudo parece puramente genuíno.

    Responder
    • André Dick

       /  20 de abril de 2018

      Prezada Luciana,

      agradeço por seu comentário. Ansel Elgort realmente está ótimo no filme, seu melhor papel desde Homens, mulheres e filhos. E concordo que a obra se destaca especialmente por causa de sua presença, assim como da direção de Wright, sempre precisa nesta mescla entre drama e ação.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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