Patti Cake$ (2017)

Por André Dick

O diretor Geremy Jasper tem sua estreia à frente de um filme com Patti Cake$. Com produção, entre outros, de Chris Columbus (mais conhecido pelos roteiros de Gremlins e Os Goonies e por dirigir dois Esqueceram de mim e os primeiros Harry Potter) e do brasileiro Rodrigo Teixeira, ele conta a história de Patricia Dombrowski, ou, simplesmente, Patti (Danielle Macdonald), uma jovem obesa, que vive num bairro de periferia tentando obter rimas para seus raps. No entanto, ela é chamada de Dumbo e apenas seu amigo Jheri (Siddharth Dhananjay) a leva a sério. Enquanto cuida de sua avó, Nana (Cathy Moriarty, excelente), precisa ver sua mãe, Barb (Bridget Everett), cantando no mesmo bar onde atende. A mãe gostaria de ter tido uma carreira musical, mas em razão do compromisso com a filha não pôde se dedicar. Não é preciso mais que um par de cenas para mostrar a vida solitária da personagem, em meio à pressão de não conseguir valer sua arte. No entanto, é justamente essa solidão que a move para frente: mais do que qualquer personagem feminino recente, Patti é uma figura capaz de se superar com seus próprios problemas.

O diretor Jasper mostra um talento muito grande para encadear uma sequência de conflitos críveis e por vezes engraçados, além de ter escrito todas as canções (muito boas) da trama. A cena do clube em que ela vai para assistir a outros se apresentarem lembra uma atmosfera realista aplicada por diretores indie, por outro lado sem cair em maneirismos. Muitos apontam semelhanças com 8 mile, com Eminem, e realmente há, mas esta obra parece mais humana sobretudo por causa de Macdonald, excepcional no papel central, e Everett, como sua mãe (ambas mereciam ser indicadas ao Oscar). Ambas possuem uma química rigorosa em cena: a primeira cena em que se encontram no bar é conduzida com raro esmero, pois o espectador logo imagina que elas não têm nada em comum, quando as semelhanças se dão justamente pelas diferenças. Siddharth Dhananjay, como o melhor amigo dela, também é uma ótima revelação. São personagens que possuem um certo descompromisso que víamos no ano passado no excepcional Docinho da América, de Andrea Arnold, que fazem parte de uma América muitas vezes esquecida. Ele possui também algum estilo extraído de Dope – Um deslize perigoso, mas é melhor resolvido.

Nessa narrativa, Patti, que tem o nome artístico Killa P, tem como ídolo um rapper, OZ (Sahr Ngaujah), e conhece um músico, Basterd (Mamoudou Athie), um afroamericano rebelde que pode lhe proporcionar a capacitação sonora que sua música precisa. O que chama a atenção em Patti Cake$ é como ele não se leva a sério no bom sentido, parecendo realmente dar vida a uma personagem que representa muitas outras renegadas pelos “pilares” culturais de uma sociedade. Há passagens decisivamente cômicas e que não soam forçadas, funcionando num plano mesmo de nostalgia. E não deixa, algumas vezes, de desenhar uma espécie de sátira ao estilo do rap, principalmente nas visões e sonhos de Patti, sem nunca planificar o gênero. Ao mesmo tempo, ele soa dramático, a exemplo da sequência em que a personagem terá de confrontar um inimigo do verso num posto de gasolina e as pessoas que vão surgindo em torno desenham uma pressão a ser enfrentada pela aspirante à artista.

Mesmo querendo ser aceita pelo “sistema”, pela indústria musical, Patti quer, antes de mais nada, aplicar sua alma nas composições. Para ela, é questão necessária para se sobressair como ser humano. Nisso, o filme lida com relação entre fã e ídolo e rivalidade entre mãe e filha de modo tocante. E o melhor: Jasper nunca visualiza seus personagens de maneira a torná-los retratos de uma melancolia moderna, mesmo que também se sintam atingidos por ela. Seu foco, porém, é o sonho, a divagação. O visual do filme, baseado nos recentes Docinho da AméricaTangerine, possui cores vibrantes e um movimento contínuo, reforçado por uma trilha sonora de ótimo nível. A canção que Patti faz com seus companheiros e toca num momento-chave é um hit de rap poucas vezes ouvido. Fará o espectador que gostar da proposta torcer por ela e isso diz muito da obra de Jasper.

Patti Cake$, EUA, 2017 Diretor: Geremy Jasper Elenco: Danielle Macdonald, Cathy Moriarty, Bridget Everett, Siddharth Dhananjay, Mamoudou Athie Roteiro: Geremy Jasper Fotografia: Federico Cesca Produção: Chris Columbus, Michael Gottwald, Dan Janvey, Noah Stahl, Daniela Taplin Lundberg, Rodrigo Teixeira Duração: 108 min. Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

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