O filme da minha vida (2017)

Por André Dick

Terceiro filme dirigido por Selton Mello, O filme da minha vida é baseado no romance Um pai de cinema, do chileno Antonio Skármeta. Mello adapta o cenário original para a Serra Gaúcha dos anos 60, seguindo sua experiência cinematográfica iniciada em Feliz Natal e continuada em O palhaço, de 2011. Se apenas atuando Mello já fez ótimas comédias (O auto da Compadecida, Lisbela e o prisioneiro) e bons dramas (Lavoura arcaica, Jean Charles), atrás das câmeras ele vem procurando adotar um estilo próprio, mas dialogando com vários diretores. Por isso, há vários filmes dentro desse filme. Na narrativa, Tony Terranova (Johnny Massaro) tem lembranças constantes do seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), que o deixou quando criança e nunca mais reapareceu. O jovem vive com a sua mãe, Sofia (Ondina Clais Castilho), enquanto dá aulas de francês numa escola do município onde vive. A cidade é cortada pelos trilhos de uma linha férrea que vai dar em algum lugar ainda desconhecido do espectador.

Com interesse especial por livros e pelo cinema, um tema que já ecoava em outra obra de Skármeta, o conhecido O carteiro e o poeta, Tony é apaixonado por Luna Madeira (Bruna Linzmeyer), irmã de Petra (Bia Arantes). O seu amigo principal, Paco (Selton Mello), tem como filosofia comparar humanos com um determinado animal de sua fazenda. É com ele que Tony tem conversas sobre o pai, e as lembranças se dão principalmente nos seus passeios de motocicleta, destacando-se que a bicicleta que ele leva ao celeiro traz novamente o personagem a um passado próximo.
Mello, de modo geral, mostra a história do personagem inicialmente em fragmentos, que se assemelham a visões, e se sustenta na belíssima fotografia de Walter Carvalho. Pode-se apontar como a melhor aquela em que imagina as irmãs ensaiando um número de dança no pátio da escola direcionadas a seu olhar. Em outro momento, ele observa as duas na rua da cidade com outros motociclistas, como se estivesse assistindo a um filme dos anos 1960, parecendo um diálogo com Loucuras de verão e A doce vida. Na escola onde dá aula, os seus alunos parecem saídos exatamente de alguma fotografia dessa época, o que é destacada pela coloração da imagem. Aos poucos, a narrativa um pouco dispersa vai ganhando mais unidade e, junto com as imagens que despertam uma espécie de lembrança longínqua, quase simétricas, com um design de produção muito elaborado, O filme da minha vida se torna uma espécie de ponte entre vida e arte de modo inegável.

A maneira como se costura a ligação desse personagem com o filme Rio vermelho, de Howard Hawks, é especialmente lúcida e concentra boa parte das memórias dele, assim como a conversa do maquinista Giuseppe (Rolando Boldrin, com breve e eficiente participação) com Paco, sintetizada na sequência final de maneira discreta e extremamente funcional pelo roteiro do diretor em parceria com Marcelo Vindicato. Neste sentido, há um diálogo com o adorável Cinema Paradiso, dos anos 80, com o encantamento de um menino pelo cinema e sua amizade com um projecionista, sem exatamente diluir a ideia. No entanto, não se trata apenas disso: o filme é composto por ligações de um ponto a ponto e não por acaso Sofia trabalha numa central telefônica. É uma espécie de representação do esforço de Tony em se conectar com as pessoas do seu círculo.
O mais interessante talvez seja como Mello vai costurando memórias e narrações internas com o cenário ao redor: as viagens de motocicleta por estradas desertas evocam uma solidão estendida aos personagens. Se o diálogo com o cinema de Fellini é evidente por meio da metalinguagem e da maneira como se desperta a paixão pelo cinema, os arredores da casa de campo onde Tony e sua mãe vivem, com seus varais de roupa e uma longa fileira de árvores distante remete ao melhor Andrei Tarkosky de O espelho e Nostalgia, com sua sensação de isolamento de tudo, o que se sente igualmente na ficção científica do cineasta russo Solaris. Conhecendo algumas dessas paisagens, arrisco dizer que Selton Mello as mostra como talvez nenhum cineasta brasileiro antes dele (lembrei algumas vezes do subestimado e semiesquecido O quatrilho, mas aqui uma dinâmica narrativa maior está em jogo). Isso não é pouco, visto a qualidade de algumas obras.

Se O filme da minha vida tem um pouco de dificuldade na parte sonora (algumas narrações em tom baixo são difíceis de se entender), não se pode dizer o mesmo da sua qualidade em termos de direção, elenco e fotografia. A intensidade do personagem central é acentuada pela atuação de Johnny Massaro, parecido com Louis Garrel e muito expressivo, que encontra em Bruna Linzmeyer um efetivo complemento para sua interpretação e empatia imediata. E, conhecido por Cisne negro, entre outras obras, Cassel tem uma rápida, mas boa presença. Sob o ponto de vista do design de produção elaborado, há uma passagem por um bordel da cidade vizinha àquela em que vive Tony que é iluminada quase como se por Zhang Yimou, tornando cada quadro histórico. Mais ainda quando vemos o bordel de dia, com o céu azul contrastando com a cena anterior, à noite, parecendo uma extensão de Santa Sangre, de Jodorowsky. Há uma estranha circularidade nesta história: se o início pode ir de encontro ao final por um palmo de película, suas imagens estão ligadas sempre à memória desses personagens. Este é um dos melhores filmes brasileiros já feitos, no qual a narrativa muitas vezes é explicada por seu aspecto visual. Não se trata de estilo sobre a substância e sim um triunfo na trajetória de Selton Mello.

O filme da minha vida, BRA, 2017 Diretor: Selton Mello Elenco: Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Vincent Cassel, Selton Mello, Bia Arantes, Ondina Clais Castilho, Rolando Boldrin Roteiro: Marcelo Vindicato, Selton Mello Fotografia: Walter Carvalho Produção: Vania Catani Duração: 113 min. Estúdio: Bananeira Filmes, Globo Filmes Distribuidora: Vitrine Filmes

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