Primeiro, mataram o meu pai (2017)

Por André Dick

Angelina Jolie sempre foi mais conhecida como atriz desde o Oscar por Garota, interrompida, no entanto, principalmente a partir de Invencível, vem tentando uma carreira como diretora. Não apenas neste filme ela fazia um retrato minucioso da Segunda Guerra Mundial, como também prestava uma homenagem a um herói, Louis Zamperini, que sobreviveu a verdadeiras provações num campo de guerra. No seu projeto seguinte, À beira mar, ela interpretava uma mulher passando uma crise existencial no casamento com um escritor feito por Brad Pitt. Se a história do filme acabaria se aproximando de sua vida, era uma espécie de homenagem a Eric Rohmer com grande desenvoltura. Jolie prova, nessas duas obras, um talento especial para compor imagens e uma narrativa baseada em poucos diálogos, quase minimalista.

Essas características se repetem em Primeiro, mataram o meu pai, distribuído pela Netflix, que ela dirige e produz com, entre outros, Rithy Panham. Este é o diretor do documentário A imagem que falta, sobre o mesmo tema de que trata este filme baseado em livro de Loung Ung, a invasão que houve no Camboja pelo regime totalitário Khmer Vermelho. Ela aconteceu logo depois de uma intervenção fracassada de Nixon nesse país asiático, no mesmo período em que os Estados Unidos estavam no Vietnã, ou seja, foi apoiada pelos ianques porque desconheceriam as intenções dos homens do movimento, liderados pelo futuro ditador Pol Pot. Pode-se dizer que Primeiro, mataram o meu pai é uma adaptação com personagens em carne e osso daquele filme em que Panham usava bonecos de argila para mostrar o que aconteceu a seu país. Tudo começa em abril de 1975, quando o exército do Khmer invade Phnom Penh, capital do Camboja.

A família de Loung Ung (Sareum Srey Moch), com cinco anos, em que o pai (Kompheak Phoeung) é um ex-membro da polícia militar do governo apoiado pelos Estados Unidos e a mãe (Sveng Socheata) ajuda a cuidar dela e de quatro irmãos, é levada para um lugar onde todos os recrutados precisam prestar um trabalho escravo, sendo alimentados por restos de comida, enquanto plantam para o Khmer Vermelho. O mais impactante é a maneira como o Khmer tentava fazer uma espécie de propagação de ideais de que todos devem ser iguais e ganhar o mesmo – quando acontece exatamente o oposto. Se entrarmos em dados históricos, esse regime dizimou um quarto da população do Camboja entre os anos de 1975 e 1979. Jolie não esconde a violência e a opressão como normalmente aconteceria num filme de Hollywood, sem utilizar esses elementos como uma espécie de incentivo a uma dramaticidade forçada, embora tenha alguns minutos a mais do que deveria e um uso desnecessário de tomadas aéreas em momentos não propícios a isso. O interessante é que Maddox, um dos filhos adotivos de Jolie e Brad Pitt, é do Camboja e trabalha como produtor executivo dessa peça.

Este é um filme que possui ligações com o cinema de sobrevivência como poucos. Inicialmente, ele recorda bastante Império do sol (há uma cena, inclusive, em que Loung, na sacada de sua casa, tenta alcançar com as mãos um helicóptero sobrevoando), mas, onde Spielberg é um tanto mais emotivo e propenso a usar a trilha sonora de John Williams para comover, Jolie é mais discreta, usando as intervenções musicais de Marco Beltrami de maneira econômica. Também dialoga com Vá e veja, de Klimov, embora não mostre a guerra de maneira tão impactante, mesmo que com momentos ao final despidos de qualquer festejo. A maneira como ela mostra a transição da família de um ambiente confortável para a selva é o que mostra a quebra de perspectiva para Loung Ung. Jolie estabelece a história por meio de seu olhar, em relação aos pais e aos irmãos, e como tudo vai se transformando em algo próximo de um pesadelo. Quando ela passa a ser treinada para combate e a plantar minas terrestres é onde Angelina Jolie realmente se mostra uma diretora consciente do que pretende mostrar: o universo onírico de Loung se torna um resultado desses treinamentos e não há mais nada ao redor que possa lembrar o sol que poderia haver em suas lembranças.

Em termos de estilo, por meio da fotografia de Anthony Dod Mantle, Angelina mescla traços de Malick, com movimentos de câmera que dialogam com os de Emmanuel Lubezki, principalmente quando mostram os trabalhadores em meio às plantações, e Apichatpong Weerasethakul (nas cores do figurino e da iluminação das árvores), além de Edward Yang e Jia Zhangke (no colorido das cenas imaginadas ou recordadas pela personagem central). É notável uma sequência em que a personagem vê os efeitos da guerra surgirem como se ela fizesse parte do motivo, e sua observação é de quem entende a guerra pela primeira vez. Mais ainda quando Jolie projeta uma figura importante para a personagem num inimigo, mostrando que entende o que se passou mais do que todos. Representante do Camboja entre os pré-indicados ao Oscar de filme estrangeiro, Primeiro, mataram o meu pai respeita a história e a língua. Ao invés de Angelina colocar atores asiáticos falando em inglês, eles estão realmente falando sua língua natal. Isso torna a obra ainda mais realista, com um pé no documentário (as imagens iniciais, com Nixon e as tropas norte-americanas), mas ainda assim estabelecendo uma grande narrativa de guerra e conhecimento sobre seus efeitos. Não seria imerecido se a jovem Sareum Srey Moch ganhasse também uma nomeação ao Oscar. Sua atuação é extraordinária, do nível de Christian Bale em Império do sol e de Jacob Tremlay em O quarto de Jack, para lembrar de duas atuações dessa faixa etária, e se torna o alter ego da diretora: num universo predominantemente masculino, ela investe contra todas as expectativas.

First they killed my father: a daughter of Cambodia remembers, Camboja, 2017 Diretora: Angelina Jolie Elenco: Sareum Srey Moch, Kompheak Phoeung, Socheata Sveng, Dara Heng, Kimhak Mun Roteiro: Loung Ung, Angelina Jolie Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Angelina Jolie, Rithy Panh, Ted Sarandos, Michael Vieira Duração: 136 min. Estúdio: Jolie Pas Distribuidora: Netflix

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