It – A coisa (2017)

Por André Dick

Em 1990, o diretor Tommy Lee Wallace foi o responsável pela primeira adaptação para outro meio (naquele caso, a televisão) de It, livro de Stephen King. Lee Wallace era conhecido pela direção de Halloween III e A hora do espanto 2, ou seja, filmes de duas franquias de terror e apostava em It um clima capaz de dialogar com outra obra de King, Conta comigo, adaptada por Rob Reiner. Na pele do personagem ameaçador, o palhaço Pennywise, que se esconde nos esgotos da cidade de Derry, Maine, Tim Curry mostrava a desenvoltura como figura maligna que já víamos em A lenda. A série de TV foi lançada em VHS como um filme e até hoje se considera que seja de fato uma obra cinematográfica de três horas, pelo cuidado visual e narrativo. Visto na década de 90, nunca mais o revisitei, mas lembro de ter sido marcante e que a divulgação foi tão boa quanto para esta nova adaptação. A imagem do palhaço aparecia em muitas revistas e pôsters de locadoras.

Esta, intitulada It – A coisa, é dirigida pelo diretor argentino Andy Muschietti, o mesmo de Mama. Tudo inicia em 1988, quando Bill Denbrough (Jaeden Lieberher, de Destino especial) oferece a seu irmão Georgie (Jackson Robert Scott), de apenas 7 anos, um barco feito com uma folha de caderno. Georgie sai brincando com o barco numa tempestade, até que este cai num esgoto. Surge, então, a figura assustadora de um palhaço, Pennywise (Bill Skarsgård).
No ano seguinte, quando se encerram as aulas no Derry High School, numa referência explícita a Super 8, Bill e seus amigos Richie Tozier (Finn Wolfhard), Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) e Stanley Uris (Wyatt Oleaff) enfrentam Henry Bowers (Nicholas Hamilton) e sua gangue. Por sua vez, Beverly Marsh (Sophia Lillis) é perseguida por colegas, maltratada, assim como o é em casa por seu pai, Alvin (Stephen Bogaert). Ela se encontra com Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor), que é apaixonado secretamente por ela e encontra um livro sobre a história de Derry, descobrindo o quanto ela tem sido vítima de numerosos desaparecimentos de crianças. Em seguida, há uma sequência assustadora, talvez a mais bem definida e uma homenagem clara a Os caça-fantasmas de 1984.

Outro menino, Mike Hanlon (Chosen Jacobs), encontra Pennywise antes de quase ser atropelado pela gangue. Pennywise começa a aparecer também para o grupo de amigos: enquanto Bill o vê no porão de casa, confundindo-o com a figura do irmão, Eddie passa por uma casa abandonada, onde se depara com o palhaço por trás de um balão no pátio. Já Stan vê a criatura projetada num quadro e Beverly ouve vozes das crianças desaparecidas vindas da pia do banheiro, numa das sequências melhor desenhadas, remetendo ao melhor Wes Craven de A hora do pesadelo.
O grupo se autointitula “The Losers Club” e nota, depois de um intervalo Moonrise Kingdom (no qual Beverly é a menina do grupo), que a entidade o cerca. Este é o melhor momento do filme de Muschietti: quando a turma descobre que, além da amizade, tem em comum essa ameaça. Até aí, a narrativa já construiu uma atmosfera eficiente e envolvente, o que significa que temos também pelo menos três cenas assustadoras e uma analogia com a violência paterna por meio de um banho de sangue que faz lembrar O iluminado. Mesmo Bill Skarsgård funciona até este momento em que aparece mais discretamente.

No entanto, aos poucos, percebe-se como o diretor na verdade se apoia demais em experimentos de nostalgia, como Os Goonies e Super 8, e mais recentemente Stranger things (utilizando até mesmo seu ator principal, Wolfhard), para pretensamente fazer uma peça de terror que, a cada passo, aparenta ter sido realizada e decidida por um grupo de executivos em busca de uma franquia da maneira mais previsível e sintomática. Se o livro e a série original se passava nos anos 50, na infância dessas crianças, o filme, ao transportá-las para os anos 80, utiliza todos os lugares-comuns que isso indicaria, inclusive com referência a New Kids on the Block. Há, por exemplo, uma sequência em que eles projetam um filme, elemento já aproveitado em Super 8. A relação de Beverly também lembra muito a que tinha a personagem de Elle Fanning na obra de Abrams, embora tenha um viés muito mais grave. Muschietti diz não apreciar a adaptação dos anos 90 feita por Wallace, mas a sequência inicial é basicamente igual, inclusive nos movimentos de câmera, e o clima do bosque, se não é evidentemente dos anos 50 (em razão de a atual adaptação não ser fiel, neste quesito, ao romance original), lembra bastante igualmente, embora esta sua versão tenha cenários (como o da casa abandonada) em diálogo mais com Tim Burton e certas soluções desajeitadas lembrem Cowboys e aliens.

Com roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman, a impressão é que It possui pelo menos meia hora a mais do que deveria, o que é estranho pois se baseia num livro com em torno de mil páginas (mesmo sabendo que parte da história ficou para a já divulgada sequência). Os personagens se sentem apenas como preenchimentos vagos para uma tentativa de o diretor reviver filmes alheios aos seus, sem nenhum esforço para empregar sua própria visão, mesmo que descenda da mesma nostalgia de outros. Ele salta do horror e do suspense para a comédia e depois para o drama não porque deseja uma síntese desses gêneros e sim porque deseja apenas agradar ao espectador, não de maneira criativa e sim apenas procurando seu desejo de rever imagens de crianças andando de bicicleta. Existe a impressão de que há três tons diferentes tentando se ajustar num só.
Na terceira parte, a trilha sonora de Benjamin Wallfisch é excessivamente calcada em John Williams para incorporar qualquer verdadeiro susto, que não sejam apenas aqueles pré-projetados, embora a fotografia de Chung-hoon Chung, colaborador de Chan-wook Park (A criada é uma obra-prima visual, por exemplo), seja irretocável e produza uma frequente imersão em cada quadro. O filme cresce exatamente quando mescla a realidade e o onirismo em forma de pesadelo e comportamentos inesperados. Há uma história terrivelmente assustadora por baixo desta e que King oferece, algo mais próximo de Sobre meninos e lobos do que aparenta: de que a infância pode ser traumática, mas que crescer pode ser ainda mais, algo que se destaca principalmente na atuação dramática de Jaeden Lieberher, talvez o único, ao lado da ótima Lillis, que está na obra certa – e não é a mesma do diretor. Este quer apenas uma atmosfera pop e voltada ao consumo e isso não seria prejudicial se realmente se mostrasse mais interessante e sem apostar essencialmente em nostalgia do espectador.

It, EUA, 2017 Diretor: Andy Muschietti Elenco: Jaeden Lieberher, Bill Skarsgård, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Wyatt Oleff, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Nicholas Hamilton, Jackson Robert Scott Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman Fotografia: Chung-hoon Chung Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Roy Lee, Dan Lin, Seth Grahame-Smith, David Katzenberg. Barbara Muschietti Duração: 135 min. Estúdio: New Line Cinema, Vertigo Entertainment, Lin Pictures, KatzSmith Productions, RatPac-Dune Entertainment Distribuidora: Warner Bros.

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4 Comentários

  1. filme de terror que é bom entaum quais?

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    • André Dick

       /  14 de setembro de 2017

      Lançados apenas neste ano: Corra!, A cura e Ao cair da noite, além do episódio 8 de Twin Peaks – O retorno.

      Responder
  2. Gosto muito de suas criticas. Parabéns.

    Responder
    • André Dick

       /  21 de setembro de 2017

      Prezado Rafael,

      agradeço por sua mensagem generosa sobre as críticas publicadas aqui.

      Volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder

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