Twin Peaks – O retorno (Episódios 17 e 18) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre os episódios 17 e 18, a terceira temporada e o filme de 1992

Numa entrevista durante o lançamento de Duna, David Lynch disse que sua infância foi marcada por “casas antigas, ruas arborizadas, o leiteiro, construção de fortalezas do quintal, aviões monótonos, céu azul, cercas, grama verde, cerejeiras”. Para ele, “era um mundo de sonho”, com a ressalva de que “sempre há formigas vermelhas por baixo”. Este universo foi explorado ao máximo em obras como Veludo azul – literalmente, com as formigas – e nas duas temporadas originais de Twin Peaks. Desta vez, na terceira (disponível na Netflix), Lynch utilizou algumas dessas imagens, mas seu foco foi muito mais conceitual, na exploração da realidade como um sonho. Ele expandiu bastante aquilo que ficava muitas vezes subentendido na série dos anos 90. No entanto, nos episódios finais (principalmente a partir do 12), Lynch foi voltando a esse universo de uma pequena cidade, à verdadeira Twin Peaks, às ruas arborizadas, ao céu azul, às cercas de pátios com grama verde, mesmo que fosse na Lancelot Court, rua onde morava Dougie Jones. Dougie passou a ser realmente o agente Cooper, tentando voltar no tempo, à antiga Twin Peaks e aos efeitos da última vez em que adentrou o bosque em busca de Annie Blackburn (Heather Graham).

Para uma série que se concentrou principalmente em personagens da terceira idade, principalmente com a figura vital da Senhora do Tronco, Lynch obteve uma certa ideia circular a respeito de alguns personagens, como se suas impressões estivessem congeladas no espelho, igual ao reflexo do duplo mal de Cooper. E com esse ambiente natural fomos levados, como no restante da série, por um surrealismo estranho e original.
Se no início da terceira temporada víamos o agente Cooper vir para nossa dimensão substituindo o pacato corretor de seguros Dougie Jones, ultrapassando cenários estranhos e chegando às máquinas de jogos de Las Vegas, aos poucos fomos conhecendo o que aconteceu com alguns personagens de Twin Peaks, o corpo policial da cidade, agora com Bobby Briggs e Frank Truman, irmão de Harry, Benjamin Horne, Doutor Hayward, Big Ed, Norma Jennings, Shelly… Também conhecemos personagens novos, como Janey-E e Sonny Jim, mulher e filho de Dougie Jones, seu chefe Bushnell Mullins e uma conspiração do mal organizada pelo duplo mal de Cooper para matá-lo, envolvendo até mesmo dois irmãos gângsteres, os Mitchum. Conhecemos os irmãos Fusco, policiais de Las Vegas, ao mesmo tempo que reencontramos Gordon Cole, Albert Rosenfield, ao lado de Tammy Preston e Diane. Outros personagens ficaram envoltos por um mistério, a exemplo de Sarah Palmer e Audrey Horne.

De modo geral, ao longo desse retorno, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em Estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland); e analisou os efeitos do White Lodge e do Black Lodge no dia a dia dos personagens, a relação entre sonho e realidade e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos. Pode-se dizer que os dois episódios finais da terceira temporada costuram algumas dessas questões, mas se concentram na ideia do tempo como um círculo que se repete ao infinito.
No episódio 17, o agente Cooper é levado a Twin Peaks pelos irmãos Robert (Robert Knepper) e Bradley Mitchum (James Belushi), dos quais se tornou amigo – como se eles tivessem saído do Black Lodge para o White Lodge por meio de Cooper – e já chega à delegacia numa situação delicada. O seu duplo mal, Mr. C., estava pronto para balear Frank Truman (Robert Forster) quando é alvejado por nada mais nada menos que Lucy (Kimmy Robertson). Enquanto isso, o jovem Freddie Sykes (Jake Wardle) usa seu punho poderoso para derrubar o policial Chad Broxford (John Pirruccello) e ajuda Naido (Nae Yuuki), a moça sem olhos, junto com James Hurley (James Marshall), a chegar à sala principal do xerife. Enquanto os woodsmen cercam o Mr. C como no episódio 8, para reerguê-lo, surge novamente Bob dentro da mesma bola que o víamos ser expelido nesse episódio referido. O garoto de punho verde se coloca como adversário em potencial – e um grande adversário. Não há tempo para muito, apenas para vermos a chegada de Gordon Cole (David Lynch), Thammy Preston (Chrysta Bell), Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), além de Bobby Briggs (Dana Ashbrook) depois de uma sucessão de imagens que lembra um filme surrealista em seu grau extremo, embora envolva uma briga.
Cooper descobre que Naido é a verdadeira Diane (Laura Dern). Seu rosto se sobrepõe à imagem: será ele o “sonhador”? Junto com ela e Gordon Cole, Cooper segue pelos caminhos do forno do Greath Northern, que James Hurley visitava no episódio 14. Passando a porta que James olhava, ele se depara com o Homem de um Braço Só (Al Strobel), que o conduz até a Loja de Conveniência do episódio 15. Cooper encontra Philip Jeffries, em forma de sino/chaleira gigante e vai até o passado. “É futuro ou passado?”, perguntava o Homem de um Braço Só desde as primeiras temporadas. Sabemos que é passado e agente Cooper tenta salvar Laura Palmer (Sheryl Lee) de seu destino, mesclando sua participação com cenas incluídas em Twin Peaks – Fire walk with me em preto e branco e outras inéditas. “Eu o vi no meu sonho”, diz ela, referindo-se exatamente a uma passagem do filme, antes de encontrar Ronette Pulaski, Leo Johnson e Jacques Renault no bosque. Cooper atua como uma espécie de mensageiro de uma bondade.
Em uma sequência emocionante, vislumbra-se o início da série nos anos 1990 com Pete Martell (Jack Nance) saindo para pescar sem haver o corpo de Laura Palmer na beira do rio. Cooper teria conseguido mudar o destino de Laura? De volta ao bosque e com Cooper tentando conduzi-la até o portal que resultará no White Lodge, ela escapa de suas mãos e ele ouve gritos na floresta. O episódio se encerra com a nostálgica Julee Cruise cantando na Roadhouse.

O episódio 18 inicia com uma visão de Mr. C se desintegrando em chamas no Black Lodge. O Homem de um Braço Só produz uma nova versão de Dougie Jones para ele entrar pela porta vermelha para sempre – e vemos Janey-E (Naomi Watts) e Sonny Jim (Pierce Gagnon) de costas o recebendo alegremente. Cooper volta ao Black Lodge onde reencontra o Braço falando da menina do final da rua. Lembre-se que isto remete a um filme sobre abuso sexual com Jodie Foster dos anos 70: essa menina é Laura Palmer. O agente Cooper sai do Black Lodge pela cortina vermelha em que entrou no final da segunda temporada, em meio aos sicômoros, e se depara com Diane. Ele viaja com ela por uma estrada deserta, até chegar a vários postes de eletricidade. É ali que se passará, pelo que se entende, para outra dimensão. Chegando a um hotel de beira de estrada, o agente Cooper e Diane se hospedam. Ela vislumbra um duplo ao longe.
No quarto de hotel, Cooper e Diane fazem amor, numa sequência que remete muito a Coração selvagem, com Nicolas Cage e Laura Dern, dos anos 90. No dia seguinte, no entanto, ela lhe deixa um bilhete, referindo-se a ele como Richard e a ela como Linda – os nomes dados pelo Bombeiro no primeiro episódio desta temporada. Também não é mais o hotel de beira de estrada, e sim um na cidade, parecendo ter havido uma troca de corpo como em Estrada perdida. Numa espécie de tempo paralelo, mas ainda se considerando Cooper, o agente do FBI vai até uma cafeteria de nome Judy – o nome pronunciado no filme e no episódio 15 por Philip Jeffries. Ali, Cooper enfrenta alguns cowboys (Matt Bataghlia, Heath Hensley, Rob Mars) que mexem com uma garçonete, Kristi (Francesca Eastwood, filha de Clint). Ele pede o endereço de outra funcionária que atende ali e segue até uma casa em que há um poste com o número 6 à frente (o mesmo que aparecia no filme e no episódio 14).
Quem atende à porta é Carrie Page (Sheryl Lee), mas se trata de Laura Palmer. Cooper pergunta se o nome dos pais dela são Sarah e Leland e ela diz que sim. Repare-se na vida da moça: um homem baleado no sofá e detalhe para a imagem do cavalo branco (que Sarah Palmer enxergava em suas visões e também estava na fala do woodman do episódio 8) numa decoração da sala de estar. Cooper descobre estar em Odessa, no Texas, e dirige para Twin Peaks, para levá-la de volta ao lar. No entanto, na casa não se encontra Sarah, e sim uma mulher que se diz Alice Tremond (Mary Reber). Os Tremond são uma avó e o neto do Black Lodge que apareciam no filme Twin Peaks – Fire walk with me entregando um quadro a Laura Palmer, e na segunda temporada da série, na rota de entrega de refeições do Double R. Ele pergunta quem alugou a casa antes dela. E ela responda que foram os Chalfont. Os Chalfont são o outro nome dado aos Tremond. Eles moravam no parque de trailers de Twin Peaks – Fire walk with me, de Carl Rodd. É embaixo do trailer dos Chalfont que desaparece o agente Chester Desmond (Chris Isaak). A casa dos Palmer seria uma extensão do Black Lodge?

O que mais estabeleceu ligação com as duas primeiras temporadas foi o número de mistérios relacionados ao Major Briggs, justamente o ponto mais criticado da segunda temporada e que tomou outra dimensão aqui, com o propósito de Lynch compor um extenso universo sobre o universo do bem e do mal que rege a todos. Lynch estabeleceu explicações sobre o White Lodge, o Black Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… mesmo que tudo pareça igualmente enigmático ao fim de tudo. Muito do mistério de Twin Peaks, na verdade, ganhou uma especial consideração aqui nessa conclusão. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário.
Como se esperava (e também porque não sabemos se terá uma quarta temporada), o retorno de Twin Peaks deixou vários temas em aberto: as questões suscitadas pelo antológico episódio 8 ficaram pendentes. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. O Bombeiro (Carel Struycken) aparece novamente no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar. Audrey, que terminou o episódio anterior, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nesse episódio. Outros pontos não são claramente explicados: o que aconteceu, por exemplo, ao casal Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt) no bosque? Benjamin Horne (Richard Beymer) aparece no início do episódio 17 tendo informações do seu irmão, encontrado perdido e desnudo. Mas qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?

É interessante lembrar que, no último capítulo da segunda temporada, Cooper entra no Black Lodge para resgatar sua namorada, Annie Blackburn (Heather Graham). A temporada se encerra melancolicamente, com Bob possuindo o agente Cooper. No filme Twin Peaks – Fire walk with me, o corpo de Laura boia para ser descoberto pelos policiais da cidade, mas seu espírito está liberto. Na verdade, o filme se encerra com uma simbologia transcendental, própria de Lynch. Mais do que em Veludo azul ou no piloto da série e em seus melhores episódios da série dos anos 90, existe, aqui, uma trajetória em queda e, depois, em subida; existe o sonho de normalidade do personagem.
Para Lynch, um personagem como Laura, com duas personalidades, quando se encontra com Cooper em sonho (também na série), é um encontro sobretudo com a normalidade, apesar de estar imersa na estranheza. E, ao não se render à figura de Bob – que precisa enfrentar, conforme o episódio 8 desta temporada –, ou seja, resistir ao Black Lodge, consegue escapar dessa floresta estranha e perturbadora. O regresso da figura do anjo que havia desaparecido do quadro de seu quarto faz Lynch encerrar o filme com uma nota otimista, do encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade. Na série, Cooper só se entrega a Bob para salvar sua amada Annie, ou seja, acima de tudo, a série e o filme de David Lynch tratam do amor mais intenso.
No fechamento da terceira temporada, esses temas são trazidos novamente à cena. Nos episódios 17 e 18, é como se Cooper estivesse num loop temporal, tentando mudar o destino de Laura, inclusive ao encontrar uma espécie de duplo dela, como Dougie Jones foi dele. E o duplo de Laura mora em Odessa, que provém da palavra “odisseya”, em grego, ou seja, uma “grande jornada”. David Lynch concebe um fechamento desta temporada inesquecível porque é, sem dúvida, o tema de Twin Peaks: não se pode voltar ao passado e corrigir os erros, mas numa espécie de circularidade, para Lynch, é possível tentar reviver e encontrar a bondade humana, mesmo onde ela pode não existir mais. É absolutamente comovente Cooper tentando conduzi-la à entrada do White Lodge, a fim de modificar o que aconteceu a ela. E, ao final, tentar encontrar sua casa, para que ela volte aos braços dos pais, mesmo que seja apenas um duplo. E em qual ano ele se encontra? Passado ou futuro? Sarah Palmer não estaria sendo escondida por Alice Tremond? A estrada se estende noturna, mas, ao mesmo tempo, carrega a existência, a grande jornada, desses personagens que se ligam: Laura e Cooper. Tudo sublinhado por uma atuação irretocável de Sheryl Lee. O passado e o grito se repetem (depois de Page/Laura ouvir a voz de sua mãe, Sarah, dentro da casa) – e o grito está ligado à humanidade e à eletricidade. Pelo final, tudo se entende que Lynch gostaria de uma quarta temporada – mas este tudo pode indicar também que ele tenha desejado novamente deixar a história em aberto. É fascinante, exatamente como foi desde os anos 90 e, por mais estranho e irresolvido que pareça às vezes, é fiel tanto à obra quanto ao conceito aplicado em Twin Peaks – O retorno, que acaba – esperamos que apenas por enquanto – de maneira realmente extraordinária.

Twin Peaks – Episodes 17 & 18, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 116 min. Distribuidora: Showtime

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13 Comentários

  1. Leandro

     /  5 de setembro de 2017

    Boas palavras, poéticas, assim como o foi a série num todo. Porém, em mim o que permaneceu impresso, depois de tudo, e depois de uma leve esperança de mais consideração por parte do Lynch é: frustração! E a sensação frustrante de repetição; e não falo como algo cíclico mas como uma limitação narrativa, uma falta de opção. Não buscava final feliz e hermético, mas uma penumbra misteriosa, amistoso e maduro, presenteado para tantos quanto aguardaram depois de todos esses anos. Mas, minha reação é só mais uma esperada pelo próprio autor, entre tantos outros e, logicamente um autor nesse calibre, despertaria e desperta sempre amor e ódio, nunca indiferença. Alguns, como no caso o autor dessa poderosa e vibrante dissertação do episódio, sentirão em seu coração com sinceridade uma genialidade ímpar; eu, como há de ser com alguns outros que surgirão pelo caminho, enxergará o copo meio vazio, e verá tudo apenas como mais do mesmo e uma falta de amadurecimento do autor em mais um desfecho. Na minha simples e duvidosa opinião, a chegada é tão importante quanto a jornada. E foram 25 anos para chegarmos no mesmo lugar.

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    • André Dick

       /  5 de setembro de 2017

      Spoilers abaixo

      Prezado Leandro,

      agradeço por seu ótimo comentário e não tenho possibilidade de discordar da sua frustração. Você coloca os sentimentos em relação à série que escuto de fãs das duas primeiras temporadas que não apreciaram esta (em parte ou no todo)… e não são menos fãs de Twin Peaks por isso. Como apontei em algumas análises, determinados episódios foram prejudicados pelo excesso de conceitos de Lynch. Nesse sentido, quando percebi que a proposta era outra, sobretudo quando Dougie Jones começou a ocupar quase toda a temporada, tentei analisar como uma obra à parte (sendo também parte, claro, pelos personagens e alguns cenários) desse universo. Os dois episódios finais como peças independentes são, a meu ver, excepcionais, mas, como fontes para colher expectativas, não posso dizer que não sejam também frustrantes, principalmente se nunca tivermos uma resolução para novas teorias surgidas (o que Laura sussurrou ao ouvido de Cooper agora? Lembremos que a série original existiu quase toda em função do mistério que ela havia contado a ele na sala vermelha). Eu esperaria uma nova temporada ou mesmo um novo filme. Caso não haja, não saberemos, é claro, o que houve com Audrey Horne, por exemplo (apenas imaginar). Sempre imaginei um reencontro dela com Cooper. Nesse sentido, Lynch foi bastante radical: simplesmente não colocou os dois em cena juntos. Sequer tivemos cenas de saguão do Greath Northern, uma característica da série antiga. Alguns personagens da série antiga (como Big Ed, Norma, Shelly, Dr. Jacoby, Nadine…) nunca se sentiram parte realmente dessa nova temporada. Mesmo no encontro de Cooper com o corpo policial de Twin Peaks não há tempo sequer para cumprimentos. Mas ele avisa que espera vê-los em breve (pelo que lembro) antes de dizer que é hora do passado determinar o futuro.

      Entendo (posso estar enganado) que Lynch gostaria de uma continuação para esses eventos. Eu particularmente achei extraordinária a ideia de que possa haver uma Laura Palmer vagando com o nome de outra pessoa, assim como Dougie Jones era Cooper. E que Cooper é uma espécie de escolhido, como foi Laura, num loop temporal para tentar evitar a tragédia humana. A maneira como ele pensa em oferecer um duplo para Janey-E e Sonny Jim sintetiza a bondade desse personagem. Ele não tem casa definida, como Laura, depois de tantos anos, vagando em dimensões paralelas, mas ainda assim há a generosidade do personagem das duas primeiras temporadas. Acho que, em relação à proposta desta temporada (que é diferente das duas primeiras temporadas, em termos narrativos e de objetivos), isso fecha com chave de ouro. A jornada a que me refiro, nesse sentido, é interminável, é a própria existência deles, no plano real ou não. Quando você observa: “Não buscava final feliz e hermético, mas uma penumbra misteriosa, amistoso e maduro, presenteado para tantos quanto aguardaram depois de todos esses anos”. Eu digo que esperaria o mesmo em parte, caso não haja uma continuação. Gostaria particularmente de ver Cooper entrando pela porta do Double R com Hawk, Andy, Lucy e reencontrando Audrey Horne, ou mesmo uma possível volta do xerife Harry Truman (não se sabe claramente por que ele não participou desta temporada). Mas isso faz parte dos meus sonhos (e sou um dos que esperaram uma nova temporada desde 1991). O que Lynch mostrou foram os dele. Isso, claro, se não mostrar outros sonhos que se fechem mais com as expectativas de todos, embora eu ache que ele não deseja em nenhum momento isso.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

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  2. Spoilers abaixo

    Mais um ótimo review. Acho que no Brasil, poucos conhecem Twin Peaks como vc.

    Tbm gostei muito desses últimos 2 eps da temporada.

    Algumas coisas:

    Outra curiosidade sobre Odessa: o animal símbolo da cidade é o Jack Rabbit!

    Nos minutos finais, a pessoa que interpretou Alice Tremond(Mary Reber) não é uma atriz de fato, mas sim a proprietária dessa casa na vida real. Lynch quis dizer algo aqui ou foi apenas uma brincadeira dele?

    E uma pergunta sobre o Mr. C: qual era mesmo o objetivo dele? Ele pretendia de alguma forma corromper o White Lodge? E pq ele já estava preso naquela gaiola? Será que foi por não ter colocado terra no bolso antes de entrar? hehe

    Não sei se vc notou, mas o Cooper no último ep parecia uma mistura de Dale Cooper e Mr. C. Ele tinha a bondade do Dale, mas em algumas cenas tbm a frieza/maneira/seriedade/fala autoritária que vimos no Mr. C ao longo da temporada. Seria esse um “híbrido” do Cooper?

    Sobre a Audrey e tantos outros questionamentos, acho que teremos várias respostas no livro que vai ser lançado.

    Desde já torço por uma nova temporada.

    Abraços.

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    • André Dick

       /  6 de setembro de 2017

      Spoilers abaixo

      Prezado Alan,

      agradeço por seu comentário generoso sobre os comentários feitos aqui e fico feliz em saber que também apreciou esses dois episódios finais!

      Não sabia que o Jack Rabbit era o símbolo da cidade de Odessa! Essa é uma informação que compartilha a divisão entre sonho e realidade desse episódio, além do universo paralelo evidente na troca de identidades e de lugares (do hotel de beira de estrada para um da cidade). Agradeço pela informação.

      Eu li depois de escrever a crítica que a atriz que interpretou Alice Tremond era dona da casa dos Palmer na realidade, outra referência a esse limite pouco definido entre realidade e universo paralelo. Quando ela disse que era da família Tremond, talvez tenha sido o momento mais assustador de todos os episódios. E a maneira como ela olha para Carrie Page/Laura mostra que ela sabe que é Laura, na minha visão. Me pareceu mais uma pista do que uma brincadeira: Cooper e Laura Palmer/Carrie Page estão em 2017.

      Quanto ao Mr. C, ele queria, penso o mesmo, desvirtuar o White Lodge. No entanto, parecia ser o plano do Bombeiro que ele soubesse as coordenadas do White Lodge (não haveria terra que o salvasse rss), a fim de que ele pudesse ser enviado à delegacia de Twin Peaks, onde, pela visão de Andy, Lucy o mataria e Cooper poderia colocar o anel da Coruja nele.

      Também tive essa sensação de que, a partir da cena em que o agente Cooper e Diane ultrapassam para a dimensão paralela (na qual também parecem estar em um filme de Hitchock), nenhum dos dois é exatamente como era antes. Cooper até alerta para isso antes de cruzarem a linha. Desse modo, ele se comporta de maneira mais séria e pragmática, quando enfrenta os cowboys, por exemplo, ou experimenta o café e não o elogia. O melhor é quando ele substitui no óleo as batatas fritas da Cafeteria pelas armas. Lembremos que o Black Lodge tinha cheiro de óleo queimado. Quando ele encontra Laura, no entanto, parece mais Cooper, ou seja, há um conflito de personalidades muito interessante, a exemplo do que você assinala, muita pela ótima atuação de MacLachlan. O episódio 18 é talvez a peça mais simbólica do terror/suspense desde O iluminado, em que, não por acaso, Kubrick disse ter sido influenciado por Eraserhead.

      Mesmo com o livro a ser lançado, eu ainda aguardo uma nova temporada, igual a você, para saber o que houve com Audrey Horne. Talvez minha maior decepção com a temporada tenha sido não haver uma cena dela com o agente Cooper, nem menção dele a ela (ou a Annie Blackburn).

      Obrigado novamente e volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder
  3. Leandro

     /  6 de setembro de 2017

    Falha minha, André, confesso, pois desde o episódio 8 descobri este blog e nunca parei para dar uma respirada e tbm contribuir com algum comentário ou pensamento; já está favoritado em meu navegador e espero corrigir este meu lapso e ter mais oportunidades futuras de participar de algum texto.
    Foi tudo uma experiência inenarrável, valiosa e extremamente empolgante que preencheu todos os momentos em que parei e assisti. Foi a primeira vez que debati com outros, ouvi podcasts, li artigos, poxa, como foi bom compartilhar e somar com experiências e impressões de outrem.
    Em minha primeira viagem por Twin Peaks, por aquelas estranhas terras com estranhas pessoas, estava eu na flor da idade, no meio de minha juventude descobrindo coisas novas e que iam além do lugar comum. Foi quando descobri tbm “Duna”. Não me lembrava se o final, se aquele final tinha passado nas redes de tv e se havia assistido. Aconteceu, anos depois, mais uma viagem onde reencontrei aqueles personagens tão queridos, mas desta vez minha viagem já não era mais solitária, minha esposa estava junto a mim, para alegria e para a tristeza, assistindo àquele final tão impactante e sem uma conclusão. Foi boa a viagem, apesar de inconclusiva. Uma década depois eis que somos surpreendidos pela possibilidade, e então os portões da cidade se abriram, o caminho estava mais florido, a cidade ampliada e mesmo temendo uma nova expectativa vazia, nos aventuramos e desta vez levando junto meu menino de 9 anos que se encantou com a Audrey, com o Cooper, com a Lucy e maravilhosamente com o Andy. Assistimos juntos as primeiras temporadas enquanto não vinha o próximo episódio; foi uma experiência incrível, mas desta vez uma esperança de que Lynch percebeu “o mal que fez à humanidade” e talvez agora teríamos um final menos abrupto, mais contido, ainda que continuasse brincando com nossa curiosidade e nosso senso de finitude. Você pontuou maravilhosamente, André, o sonho era totalmente dele. Apenas participamos como espectadores, mas era todo dele. Quanto não ficou pra traz? Mas quanto ele nos trouxe tbm conta bastante; quantos personagens novos e igualmente cativantes e queridos. Lynch transformou Twin Peaks irremediavelmente em um lugar maior, todas as cidades crescem afinal; porém, todos tem seus vícios e o do autor é o de confundir e se divertir no processo. Já nos 20 minutos iniciais do último episódio ficou nítido a decisão de Lynch por mais uma temporada, mas é impossível garantias e mesmo se vier, possivelmente ele não abra mão de nos confundir mais e por fim ele se despedir de nós com uma declaração: “Foi divertido brincar com vocês, obrigado pela companhia!”
    Temos os mesmos sonhos, ver aquele grupo de amigos tomando um bom café, e talvez, quiçá um belo pedaço de torta, enquanto nos é explicado o que afinal era aquele cubo de vidro (filtro extra-dimensional talvez?), o que aconteceu com Audrey, quem afinal é Sarah Palmer, qual na verdade é o propósito da “mãe” e afinal qual era o real objetivo de Bad Cooper, que loucura afinal foi aquela do episódio 8, que chamado foi aquele e quem eram aqueles dois jovens, quem é Billy, e mais ainda: que loucura foi aquela entre realidades temporais ou mesmo espaciais?

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    • André Dick

       /  11 de setembro de 2017

      Prezado Leandro,

      desculpe-me pela demora em publicar seu comentário, pois, não sei o motivo, ele foi identificado como spam de forma equivocada. Achei seu comentário novamente ótimo e agradeço pela generosidade de suas palavras a respeito dos textos e do blog, o que contribuiu muito certamente. Ter esse diálogo com apreciadores da série me deixou muito satisfeito e espero que possa haver uma nova temporada para a experiência continuar.

      Como quem acompanhou a série nos anos 90, também foi uma grande experiência poder compartilhar informações ao mesmo tempo que a série estava sendo exibida. Independente de qualquer coisa, se irá continuar ou não, Lynch novamente fez uma bela história por meio desse retorno.

      É interessante você remeter à juventude quando disse ter descoberto Duna. Eu o descobri na mesma época da série, em 1990, e me tornei apreciador de modo geral da obra de Lynch também por causa dessa ficção científica subestimada. Certamente à época, só assisti aos episódios exibidos pela Globo. Tanto que, quando fui assistir o filme de 1992 fiquei sem entender algumas referências (o que Cooper fazia ao final com Laura naquela sala vermelha… bem, era outro sonho, o que em se tratando de Lynch faz sentido de qualquer modo).

      Fui assistir à série de maneira completa justamente com minha esposa, que se tornou também fã, inclusive, como você se refere, com aquele “final tão impactante e sem uma conclusão”. Entendo perfeitamente o que observa nesse reingresso em Twin Peaks, e com a “esperança de que Lynch percebeu ‘o mal que fez à humanidade’ e talvez agora teríamos um final menos abrupto, mais contido ainda que continuasse brincando com nossa curiosidade e nosso senso de finitude”. Eu acredito que ele trouxe muito brilho para essa temporada, mas também evitou justamente retomar e religar pontos que os fãs mais antigos gostariam de ter tido. Sem desconsiderar novos fãs da série, é muito diferente quem assistiu à série em sequência sem esperar pela terceira e quem esperou 25 anos. As expectativas são completamente distintas, não há como comparar. Também esperava um final menos abrupto, mesmo tendo gostado realmente de seu impacto e fechamento com alguns pontos e pistas da série, e Lynch certamente se arriscou, pois pode não haver uma temporada. E eu tomo esse retorno como um novo conceito, apesar de ter elementos e personagens das duas primeiras. Lynch certamente estava, a exemplo do que observa, se divertindo nesse processo e quis deixar os espectadores novamente sem um apoio sólido.

      Todos esses elementos que você observa ao final de seu comentário sintetizam o que penso: há muitas perguntas não respondidas ou, se respondidas, ficam num meio-termo. Acho interessante porque se trata de uma obra de David Lynch, irresolvida, mas ainda assim vejo potencial num desenvolvimento. Para um autor que quis explicar tantas teorias, acho estranho ele não explicar esses detalhes. Sarah Palmer, pelo que se entende, foi dominada por Judy, mas onde estaria Audrey, já que Ben Horne diz que Richard Horne foi criado sem pai, mas não diz “sem mãe”? Li num lugar (em meio a tantas teorias) que, assim como Lynch sonha com a atriz italiana, Audrey está sonhando com Billy Zane, o ator que faz o seu namorado ao fim da segunda temporada. Num emaranhado de possibilidades, não duvidaria nada. Assinalo também que gostaria de saber mais sobre os eventos do episódio 8 e mesmo novos flashbacks explicando por que Twin Peaks é o centro desse universo investigado. Revendo os dois episódios finais, eu diria que o sonho de Lynch era mudar o espaço e o tempo para reencontrar Jack Nance, Catherine E. Coulson, Don S. Davis, Will Frost, Miguel Ferrer e David Bowie, que morreram antes ou depois de rodar a temporada. Isso é o que me deixou como última impressão. Twin Peaks se transformou na sua própria pessoa.

      Obrigado novamente e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  4. Luís

     /  5 de outubro de 2017

    Prezados fãs (assim como eu) de TP e David Lynch. Fiz algumas observações do meu entendimento sobre a 3ª temporada:
    – o bem e o mal (fogo e água, Black Lodge e White Lodge, Bob e Laura) são criados com a explosão (Bob na irradiação elétrica provocada por ela, e Laura criada pelo Bombeiro – o “guardião do equilíbrio entre bem e mal).
    – o casal que aparece no episódio 8, na minha opinião são Nadine e Big Ed. Lembre que ela encontra uma moeda da sorte (isso irá ser decisivo no futuro, pois na minha opinião mudará o destino de Laura). Ela chega em casa e ouve rádio (lembrem querê-la sempre ouve rádio na 3ª temporada), quando adormece com o mantra entoado pelo woodsman e possuída pelo inseto. Lembrem que no mantra entoado pelo woodsman ele menciona água e fogo (bem e mal) e “Branco do olho” (o bem existente dentro de cada um – cavalo Branco??) escuro do olho (o lado mau de cada um). Talvez, movido por sua bondade, Big Ed tenha, no futuro, arrancado seu olho, que representava o mal (isso, se não me engano, é mencionado em um episódio da temporada 2), assim como Salesman arrancou seu próprio braço.
    Esta “sorte” de ter Big Ed (uma pessoa de bom coração ) ao seu lado possa ter mudado o destino de Laura, pois o espírito maligno buscou Sarah (lembrem que Sarah assiste muita TV, e o mal move-se pela eletricidade).
    – o neto da Sra. Chalfont (ou Tremond) é Gordon Cole ou seu duplo? Seriam eles (os Chalfont, uma espécie de Margaret e seu tronco?)
    – Seria Richard fruto de um relacionamento entre o então já Mr C com Audrey Horne, o que a teria deixado louca em um hospício?
    – Seria o esposo (oculto) da Sra Tremond, nova moradora da casa dos Palmer uma espécie de duplo mal de Gordon?

    Enfim, duvidas que espero que sejam sanadas em uma 4ª temporada.
    Mas também existe a possibilidade de termos tido um The End nesta 3ª temporada, nos mostrando que por mais que existam boas pessoas, mal e bem sempre existirão, e é inútil buscar acabar com ele, pois isso representa o equilíbrio, quer seja no passado, quer seja no presente!

    Abraços e HELLOOOOO…(o Cooper tragicômico foi inesquecível)

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    • André Dick

       /  5 de outubro de 2017

      Prezado Luís,

      apenas algumas observações (spoilers a seguir): na segunda temporada, Big Ed relata a Cooper que atirou por acidente numa caçada e atingiu o olho de Nadine. Esta não ouve rádio na terceira temporada e sim assiste na internet ao programa do Dr. Jacoby. O neto que aparece na segunda temporada da sra. Chalfont/Tremond já existe, ou seja, não poderia ser Gordon Cole. Se ele é um duplo, acredito que não (embora o ator que faça o neto na série de TV seja filho de David Lynch), não como os outros pelo menos, que possuem idade igual. Já Richard é filho de Audrey Horne, como ele observa ao Mr. C no episódio 15. Sua última observação está de acordo com muitas teorias sobre os episódios finais. Também estou de acordo com a primeira, sobre Laura Palmer representar o bem, ser a escolhida, como escrevi na análise sobre o episódio 8 e na teoria sobre o episódio 18.

      Um abraço,
      André

      Responder
  5. Matheus

     /  29 de novembro de 2017

    Spoilers abaixo

    Boa postagem!

    Também fiquei com as mesmas dúvidas que o comentado, e ainda trago mais algumas:

    – No inicio do primeiro capitulo dessa temporada, o gigante fala pro Cooper: “Richard e Linda, 430”. No último capitulo, quando está com Diane, Cooper para o carro e diz: “Exatamente 430 milhas! E depois daí vira noite e eles param naquele motel onde ele acha o recado de Linda para Richard”. O que será que isso tudo significa? Depois que o Cooper sai do quarto, o carro dele ficou diferente e o motel também. Por que mesmo depois de atravessar o portal depois das 430 milhas e entrar na noite, tudo mudou somente depois que ele acorda? Será que tudo que aconteceu antes foi um sonho e Cooper se chama Richard? Ou o que acontece daí em diante na realidade paralela que é um sonho? (o sonhador dentro do sonho).

    – Quando Phillip Jeffries explica ao Cooper como encontrar Judy, ele mostra que o simbolo do anel repesenta um 8 (infinito?) e uma bola percorre parte dele. Seria isso a representação de uma outra dimensão o 8? E a bola percorrendo, seria algo do tipo percorrer uma estrada? E logo em seguida, ele volta ao passado e encontra com a Laura. Na dimensão paralela, o restaurante onde a Laura trabalha e Cooper para pra tomar café chama-se Judy. Será que a Laura é Judy? Ou ao menos filha dela? Já que a mãe dela (Sarah) demonstrou um comportamento estranho num episódio anterior (arrancando pedaço do pescoço do cara no bar). Outra semelhança: As duas abriram o rosto e saiu uma luz de dentro. Só que a diferença que da Laura foi uma luz branca (o bem?) e a Sarah uma escuridão com uma cara dentro (mal?). A Laura faz este ato, se não me engano, no 1o ou 2o capitulo da temporada, ao conversar com o Cooper na sala da cortina vermelha.

    – Nas temporadas anteriores, da a entender que a sala da cortina vermelha seria o black lodge. Mas, lá parece ser tipo um limbo, um lugar que equilibra as duas forças, uma mistura entre os dois (piso preto e branco). Já que Bob está lá, mas o braço e o homem de um braço só estão lá também e ajudam o Cooper diversas vezes. Com exceção do Cooper, todo mundo que aparece na sala da cortina vermelha são supostas entidades (do bem ou mal) e já morreram: Laura, Leland, Bob, o braço. Será que Cooper também é uma entidade?

    – Ao que parece o “Evil Coop” é o pai do Richard (filho da Audrey), visto que ele diz “Adeus meu filho” quando ele morre eletrocutado na pedra. Em algum momento da temporada o Ben diz que a Audrey estava em coma e ele viu o Cooper no hospital. Isso justifica a personalidade do Richard.

    – O que de fato aconteceu com a Audrey? Será que ela está sonhando também? Em sua última cena, que troca do RoadHouse para a sala branca em frente ao espelho, parece que sim, mas o estranho que, o papo dela com o marido sobre Billy e Chuck, foi contado por outra menina no final de um episódio. Isto também poderia ser parte de um sonho, mas o cara que bate no James quando ele cumprimenta a mulher dele, chama-se Chuck, então sabemos que esse Chuck de fato existe.

    – A trama policial em Twin Peaks nessa temporada girou em torno de chegar ate o White Lodge. Mas qual foi a real necessidade disso? Parecia que eles iriam descobrir algo impactante mas não descobriram nada. Somente o Andy foi ao white lodge e quando voltou mandou tomarem conta da mulher dos olhos vendados pq ela era “importante”. Parece que ela tinha medo do Evil Coop, pois ficou agitada quando ele chegou na delegacia. Mas qual é a importância dela? Será que ela é Judy (visto que o Evil Coop estava caçando a Judy)? Ou será que ela era uma chave para levar o Cooper à outra dimensão, visto que, ela se transformou na Diane, e só depois do Cooper fazer sexo com ela, que acordou na outra dimensão?

    – De acordo com o wiki de twin peaks, a menina que engole o inseto em novo mexico é realmente Sarah Palmer. http://twinpeaks.wikia.com/wiki/Sarah_Palmer. Lá informam que o pai dela se mudou pra new mexico para trabalhar no manhatan project. No site cita o recem lançado livro do Mark Frost, “O final dossie”, como fonte desta informação.

    Responder
    • André Dick

       /  1 de dezembro de 2017

      Spoilers abaixo (sobre o livro recém-lançado de Twin Peaks também)

      Prezado Matheus,

      agradeço pelo comentário. São vários apontamentos e dúvidas que também se mantêm para mim depois desta temporada. Sobre alguns pontos eu trato em outros textos do site. O que se pode dizer é que, em se tratando de David Lynch, toda interpretação é válida. Diante da primeira, sabendo algumas notícias sobre o livro recém-lançado por Frost (que ainda não li), tudo indica que não se trata de um sonho: Cooper realmente conseguiu modificar o passado e nesta passagem viaja para a realidade alterada, onde Laura está viva.

      Sobre o segundo ponto, o número realmente traz essa simbologia que você assinala, mas principalmente porque é formado a partir da imagem do anel. Não acredito que Laura seja Judy. Como apontam algumas teorias, Judy seria a mãe de Laura, Sarah (como analiso no texto específico sobre o episódio 18).

      Em relação ao terceiro ponto, não acredito que Cooper seja exatamente como os outros, já que ele continua interferindo de modo direto na dimensão real ou paralela, deslocando-se também por meio de Dougie Jones. Sobre a sala vermelha, ela continua um ponto em aberto. O Homem de Um Braço Só ajuda Cooper a combater Bob porque este, na verdade, tinha utilidade quando servia à sala. No entanto, não tenho uma definição para a ação desses personagens, que se modifica de acordo com algumas situações.

      Sobre Richard Horne ser filho de Mr. C, sim. No livro recém-lançado de Frost, é explicada parte dessa história.

      Segundo o livro de Frost, Audrey está afastada da sociedade. Mas, como observo acima, não sei de detalhes, pois não o li ainda. De que modo ela está afastada? Na verdade, esta parte é o lado que Lynch ficou devendo nesta temporada: ele poderia ter trabalhado melhor a personagem e os personagens que aparecem na Roadhouse falando sobre as mesmas pessoas referidas por ela ao marido indicariam uma realidade, que, ao final, não se estabelece.

      A trama policial localizada em Twin Peaks serviu mais para inserir os personagens e a cidade na narrativa do que efetivamente trouxe algum acréscimo especial. No entanto, funcionou principalmente a trama que circulou em torno de Bobby Briggs, mostrando sua mudança. Lucy e Andy pouco apareceram, e o xerife Truman teve pouca oportunidade. Hawk, pelo contrário, mostrou sua influência na história, estabelecendo bons pontos com a mitologia e os símbolos. A mulher vendada ter se transformado em Diane não necessariamente indica que seja Diane, como você observa. Acho que ela é mais uma possibilidade de passagem para a outra dimensão, onde, no hotel de beira de estrada, ela vê outra imagem dela.

      A revelação sobre a jovem do episódio 8 ajuda a explicar muitas dúvidas que ficaram de Twin Peaks. De qualquer modo, eu preferia que Lynch tivesse revelado isso na série, com novos flashbacks no Novo México. Depois do episódio 8, ele teve 10 episódios para fazer isso. Foi uma escolha autoral, porém, desta vez, não acertada. Vamos ver se ele retoma esses temas numa possível quarta temporada. Seria ótimo.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  6. Matheus

     /  17 de dezembro de 2017

    Fala André! Obrigado pela resposta!

    Concordo com você, e parece que no livro explica muita coisa. O Lynch deixou em aberto que poderia fazer uma nova temporada, mas imagino que se vier a fazer, vai demorar bastante, visto que ele demorou por volta de 4 anos para fazer essa.

    Revi algumas cenas das três temporadas do filme e percebi mais alguns detalhes: aquele número e placa num poste perto de uma cerca, que foi visto pelo Cooper no último capítulo, também é visto pelo Andy no white lodge, e aparece também em uma cena no início do filme, se não me engano quando o detetive anterior ao Cooper vai investigar a morte da Teresa Banks. Mas não consegui traçar um paralelo do significado disso. Mas deve haver algum.

    Como voce mesmo disse, também acho que a sala vermelha é uma incógnita, existe uma dualidade nela entre o black e white lodge (além do piso ser preto e branco, como já foi dito). Até por que, em uma cena do filme, personagens que costumam habitar a sala vermelha, estão num lugar que parece ser o black lodge, a loja de conveniencia. Neste lugar estão o anão, o Bob, um outro personagem não identificado, mas que parece ser o demônio da fuligem, antes de ficar com aquela aparência de queimado. Aparece uma boca dizendo “eletricidade”. Eletricidade está ligada também a vários eventos, os demonios da fuligem puxam uma alavanca de eletricidade quando o Evil Cooper pede para ver Judy, O gigante puxa uma alavanca semelhante quando cria a Laura Palmer de sua cabeça, a mulher dos olhos tampados puxa uma alavanca semelhante antes de cair daquele lugar lugar no espaço pouco antes do Cooper voltar pra terra.

    Sobre este local citado anteriormente, parece ser o lugar onde Judy habita. Na cena do episodio 8 que mostra a criação de bob, pouco antes do bicho o vomitar, aparece um mar infinito com algo tipo um farol no meio, e quando o braço manda o Cooper de volta pra terra, a cena seguinte mostra o Cooper numa varanda num mar infinito, muito semelhante a esse lugar. E além disso, depois que ele sobe no terraço do lugar e que a mulher dos olhos vendados puxa a alavanca, ao descer, a moça que está na sala diz: ” vá embora rapido pois a mãe está vindo” ao mesmo tempo que ouvimos o barulho de batidas na porta. Imagino que seja a Judy. Uma outra coisa nessa cena que não consegui entender a relação, pouco antes de subir no terraço, o Cooper foi em direção a tomada que ele usar para se teleportar, mas a mulher de olhos vendados fez um simbolo de morte para ele nao entrar ali. Naquela hora estava o número 3 ali. Aí depois que ele sobe a escada e volta, agora o número é 15, e a moça fala para ele se apressar e entrar ali. Não consegui também entender do que se trata, mas talvez seriam realidades ou momentos alternativos de tempo.

    Se alguém tiver uma ideia sobre essas teorias e quiser comentar algo, fiquem a vontade!

    Abraços

    Responder
  7. Olá.
    Como vai?
    Li todas as resenhas que você fez da temporada nova e vou começar a ler as outras dos filmes do TP.
    Realmente o parabenizo, excelentes análises que muito me ajudaram a apurar minha interpretação até então.
    Creio que muitas pontas ainda ficaram sem resolução (para mim), contudo, discordo de sua opinião que supostamente haverá uma 4a temporada. Vejo que David Lynch fez esta atual realmente para fechar de vez com a série, e com chave de ouro ao meu ver, dialogando diretamente com os dois livros recentemente lançado.

    Em minha opinião, alguns episódios você pegou muito duro em relação à algumas críticas feitas em determinados episódios. Vejo que todos eles foram excepcionalmente bem feitos e totalmente coerentes entre si, alternando-se entre suspense, terror, comédia de forma soberba.
    Tampouco observei esgotamento com relação aos novos personagens (Janey e Dougie), ambos foram brilhantes e necessários. Não compartilhei deste frenesi pelo retorno de Dale Cooper e Audrey Horne como foi exposto ao longo das resenhas. Achei que a série funcionou perfeitamente desta forma.

    (Seguem SPOILERS)

    – Audrey Horne criou parte da vida seu filho Richard. Richard, aliás, é filho do doopleganger de Dale Cooper, que a estuprou enquanto se encontrava em coma.
    – Acredito sim que o bêbado da cela é Billy, amante de Audrey.
    – Charlie, marido de Audrey era seu contador.
    – A menina do Novo México, o casal referido no episódio 8 era Sarah Palmer. Aí liga-se o fato de sua anormalidade, os lenhadores e, talvez até mesmo a futura ligação com Leland que viria a ser possuído por BOB a partir de sua infância.
    – A importância desta nova versão de Jerry Horne psicodélica realmente ainda não compreendi.
    – Quem é o sonhador citado em sonho de Gordon Cole? Tudo realmente era apenas um pesadelo? Ao final do ep. 16 fica implícito que seria um pesadelo de Audrey?

    Fica uma recomendação de leitura (em inglês): pesquisar twinpeaks.wikia
    Lá tem todo o universo TP, tudo que foi mencionado em temporadas, filmes, livros e afins.

    Abraços

    Responder
    • André Dick

       /  6 de junho de 2018

      Prezado Marcelo,

      agradeço por seu comentário generoso sobre as críticas publicadas aqui sobre Twin Peaks, e fico feliz que seja também admirador da série. Em relação a uma possível volta dela, ela foi cogitada mais na época do fechamento da temporada. Como Lynch é um artista escorregadio, ele não deixou bem clara sua intenção. Minha impressão é: ele não recebeu nova proposta da emissora (talvez pelos índices de audiência baixos), mas também não ficou desapontado, pois, como você observa, ele contou tudo o que queria. Esta temporada não foi uma série, e sim um grande filme! Sou fã do universo multimídia da série, mas não gostei tanto que pontos-chave tenham sido explicados ou solucionados em livro; eu sempre preferiria ver como Lynch retrata essas resoluções em imagens.

      Sim, alguns episódios não foram, para mim, tão interessantes (excessivamente conceituais), embora eu ache, igual a você, que ele mesclou vários gêneros de maneira irretocável (o episódio 16 é talvez o melhor exemplo). Os personagens de Janey-E e Dougie foram dois dos melhores da temporada, com Naomi Watts e MacLachlan brilhando, mas tiveram, na minha percepção, uma presença maior nos episódios iniciais (do 2º ao 6º), aparecendo depois mais esporadicamente, o que me deixou a impressão de esgotamento. O fechamento do arco deles, no episódio 16, no entanto, foi uma das melhores coisas que aconteceram.

      Sobre o não encontro entre Cooper e Audrey, foi, pessoalmente, o grande ponto baixo deste retorno. Audrey era o elo de Cooper com esse universo na primeira temporada e parte da segunda: chegou a ajudar em sua investigação. Lynch não ter proporcionado um reencontro foi uma escolha arriscada e autoral, no entanto, a meu ver, infeliz. Lynch preferiu, no meu entendimento, dar espaço à sua musa, Laura Dern, como Diane. Bem, ele é o autor rssss

      Sobre spoilers:

      * Essa explicação sobre Audrey Horne foi subentendida pela série e ratificada no livro. Eu preferia que Lynch tivesse desenvolvido melhor essa parte.
      * Sim, também acho que Billy, da cela, era amante de Audrey e Charlie seu contador.
      * Sarah Palmer era a menina do Novo México, mas preferia essa explicação ser melhor desenvolvida na série e não no livro de Frost.
      * Jerry Horne me pareceu apenas uma participação cômica. Lynch não me parecia muito interessado nos personagens antigos, com exceção feita a Bobby Briggs.
      – Quem é o sonhador citado em sonho de Gordon Cole?
      Não me arriscaria a responder. Tudo neste retorno é bastante nebuloso e surpreendentemente original e surreal 🙂 Mas não apostaria que tenha sido um pesadelo de Audrey: como explica o livro lançado por Frost depois do fim da temporada, salvo engano, ela passou por problemas mentais e Lynch preferiu deixá-la como uma extensão da passagem de tempo não resolvida. Como tudo neste retorno trata de espaçotempo, ela talvez seja essencial nesse sentido.

      Esse material que sugere é excelente; fica a dica para os apreciadores de Twin Peaks.

      Agradeço novamente por sua mensagem e seu comentário sobre a série!

      Volte sempre!

      Abraços,
      André.

      Responder

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