Twin Peaks – O retorno (Episódio 16) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), White e Black Lodges, voltando apenas algumas vezes à pequena cidade em meio às florestas na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série é Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passa mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
Aos poucos, pode-se concluir que Lynch esteve decidido a não oferecer em quase momento algum a atmosfera de Twin Peaks que reconhecíamos, não apenas pelos cenários mais urbanos, como também pela quase ausência da trilha sonora de Angelo Badalamenti, tão marcante. À medida que a série foi avançando, ela jamais foi do agente Cooper, vagando pelo corpo de Dougie Jones; era de David Lynch apenas, como diretor, inclusive com seu agente Gordon Cole, apostando principalmente na estranheza.
A questão é que Twin Peaks nunca foi apenas estranheza nem diferença: ela sempre desconstruiu tudo a partir exatamente de uma imagem da vida padrão e clássica do interior dos Estados Unidos, iluminada por toques de surrealismo lynchiano e pela fotografia de Frank Byers. Esse era seu elemento diferenciador. Na nova temporada, Lynch se dedica especialmente à estranheza e a compor e explicar teorias por meio de seu estilo único, o que faz, muitas vezes, com notável êxito. Alguns desses temas mencionados remetem a Twin Peaks, sem dúvida, mas eram tratados de maneira subentendida nas primeiras temporadas, por meio do desenvolvimento dos personagens. Voltar à cidade que o espectador admirou, junto com seu personagem central, não era o foco: o Double R, o Greath Northern e a delegacia de Twin Peaks foram, de certo modo, reduzidos a cenários de nostalgia. Os bosques só eram vistos praticamente em tomadas aéreas (belíssimas, por sinal).

É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks, que houve episódios surpreendentes. O clima funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (nas melhores atuações em conjunto) e o 14.
A partir principalmente do episódio 10, Lynch alternou bons ou ótimos momentos com alguns irregulares. Não é o caso desde episódio 16. Este é um exemplo do que Lynch poderia ter feito toda a temporada. E, perto do final, Lynch traz de volta o personagem que sempre tornou a série Twin Peaks conhecida, independente de todo o seu universo riquíssimo: o agente Cooper. Afinal, em certo momento pensou-se que ele nunca voltaria a aparecer – se desconsiderarmos que nos 3 primeiros episódios desta temporada ele vaga pelo White e Black Lodges –, escondido no corpo de Dougie Jones. Foi extraordinário. Sim, muitos estavam acompanhando a temporada também para rever o personagem. Neste episódio, ele aparece hospitalizado depois do choque no episódio anterior. Cuidado por Janey-E (Naomi Watts), seu filho Sonny Jim (Pierce Gagnon) e Bushnell Mullins (Don Murray), ele recebe ainda em coma a visita dos irmãos Mitchum, Rodney (Robert Knepper) e Bradley (James Belushi), carregando flores, e de suas assistentes, Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal).  É um momento divertido e remete aos melhores momentos da atmosfera de Twin Peaks: humor e drama juntos. Depois de Bushnell ouvir o mesmo som de eletricidade que Benjamin Horne ouvia com sua secretária no Greath Northern e Gordon Cole estar em meio às máquinas do escritório do FBI no hotel, o agente Cooper finalmente acorda, recebendo um conselho do Homem de Um Braço Só (Al Strobel), além do anel da Coruja (possivelmente para tentar colocar no Mr. C, que tenta evitar sua volta ao Black Lodge). Depois de dizer que está 100%, alerta a um surpreso Bushnell quando este lembra que agentes do FBI estão atrás dele: “Eu sou o FBI”.

O início do episódio, no entanto, é puro Black Lodge. O duplo mal de Cooper, Mr. C (Kyle MacLachlan), anda por uma estrada noturna, nos moldes dos filmes de Lynch, e leva Richard Horne (Eamon Farren) a um determinado lugar para simplesmente conduzi-lo a um monte de pedra onde recebe uma corrente elétrica. Surge, ao longe, correndo nada menos que seu tio Jerry (David Patrick Kelly). Richard é um bom exemplo de como Lynch tratou alguns personagens esta temporada: depois de aparecer em relances durante alguns episódios, ele é morto – de maneira impactante – sem ter uma cena em conjunto com sua mãe, Audrey. De qualquer modo, Richard foi apenas um conceito de Lynch, não um personagem. E, apesar da grande atuação de Farren, uma boa revelação, nunca lhe foi entregue um roteiro à altura nem inter-ligações suficientes para agregar à mitologia da série.
Ao mesmo tempo, Mr. C contacta Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh) que estão em frente à porta de Dougie Jones em Las Vegas. Veem os irmãos Mitchum chegarem, para abastecer a casa dos Jones com alimentos, e carros do FBI à procura dele. No entanto, quando um homem (Jonny Coyne) os aborda para que tirem sua van da entrada de sua casa, Chantal acelera contra o carro dele. O problema é que o sujeito está mais armado que ambos e os aniquila com uma chuva de balas. Trata-se de um dos momentos mais impactantes da temporada de Twin Peaks, uma aula de direção de David Lynch, e lembra muito o estilo de Tarantino. Não por acaso, os dois atores, Roth e Leigh, participaram de Os oito odiados, e Lynch faz o mesmo que Tarantino aqui: numa manhã ensolarada, de assuntos banais sobre salgadinhos entre Hutch e Chantal, surge o inesperado para dois matadores. Em um bairro pacífico, temos quase a taverna de Bastardos inglórios. E, ao verem o tiroteio, os irmãos Mitchum comentam como as pessoas estão nervosas hoje em dia.

Depois de sair do hospital, o agente Cooper acelera seu carro, para felicidade de Janey-E e Sonny-Jim que finalmente o veem falar depois de semanas, mas, principalmente, volta o tema central de Angelo Badalamenti para a série, mostrando que ela não é a mesma sem Cooper. A maneira como Lynch filma essa sequência traduz uma emoção para os espectadores recolhida desde os anos 90. Eles vão para o cassino dos irmãos Mitchum, onde o agente Cooper se despede de ambos, dizendo que vai voltar, no mesmo espaço entre as máquinas de jogos na qual sua trajetória neste retorno iniciou. As palavras do personagem aos dois remetem às melhores falas das duas primeiras temporadas, com sentimento, mas sem maniqueísmo. Nesta sequência, está impressa a sensibilidade de Lynch, que faltou em alguns instantes mais ásperos da retomada desse universo, prejudicados por uma montagem irregular. Além disso, dá oportunidade a MacLachlan e Watts de mostrarem atuações irretocáveis, assim como Gagnon tem uma boa participação. Cooper pede que os irmãos Mitchum o auxiliem a voar para Twin Peaks, onde deve ir até a delegacia.
Enquanto isso, Diane (Laura Dern) recebe uma mensagem de que deve matar seus companheiros de FBI. Num elevador com fundo vermelho – como se viesse do Black Lodge –, e com a mesma música de fundo que introduz Mr. C no início desta temporada, ela vai até o quarto onde estão Gordon Cole (David Lynch), Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) e Thammy Preston (Chrysta Bell) e conta que quando recebeu a visita de Cooper anos antes – já o duplo mal – aconteceu um incidente terrível, que a fez não ser mais ela. E, quando ela tenta disparar neles, Thammy e Albert atiram de volta. Diane desaparece no ar, como Laura Palmer no segundo episódio, indo para o Black Lodge. Diante do Homem de Um Braço Só, ela vai sumindo como Dougie Jones, não sem antes sublinhar para ele: “Fuck you”. Ela se transforma na mesma esfera de metal em que Dougie havia se transformado no terceiro episódio. Onde estaria a Diane verdadeira?

O espectador então é transportado para a Roadhouse, onde se apresenta Edward Louis Severson, mais conhecido como Eddie Vedder (numa grande performance, cantando “Out of sand”), quando Audrey Horne (Sherilyn Fenn) e seu marido Charlie (Cark Middleton) chegam ao local. Depois do show de Vedder, o apresentador anuncia a dança de Audrey. Todos da Roadhouse se afastam para abrir a pista a Audrey, que dança a mesma música de Badalamenti do episódio em que encontra Donna Hayward no Double R e é a participação mais antológica da personagem. No entanto, surge um homem puxando briga no bar – o sonho se converte em pesadelo – e vemos Audrey se olhando num espelho, sem maquiagem, como se acordasse. Será do coma? Tudo seria um sonho?
Este episódio 16 é um verdadeiro exemplo do que Lynch é capaz de fazer em termos de mescla entre drama, comédia, ação e mistério, com uma sequência irretocável de cenas, sem nenhum desequilíbrio. Ao contrário do episódio anterior, em que a história ficava em círculos, aqui ele consegue, mesmo em cenas vagarosas, dar uma solução adequada ao contexto dos personagens. Toda a tensão que cercava a tentativa de matar Dougie é solucionada de maneira ágil, o que se esperava há alguns episódios. Além disso, o simples regresso da trilha sonora de Badalamenti acentua a atmosfera de Twin Peaks, sem praticamente ter cenas passadas na cidade. É um grande momento, também, para o elenco: pela primeira vez, há um elo verdadeiro dos irmãos Mitchum com a narrativa, assim como a rápida conversa entre Cooper e Bushnell mostra o humor e afeto do agente do FBI desaparecido há 25 anos. É como se finalmente a série tivesse tido uma continuidade em relação ao último episódio da segunda temporada. Twin Peaks, como o agente Cooper, renasce novamente, depois de alguns impasses, antecipando os aguardados dois capítulos finais, que serão exibidos na próxima semana. E, assim se espera, antecipando uma quarta temporada.

Twin Peaks – Episode 16, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Pierce Gagnon, Naomi Watts, Robert Knepper, James Belushi, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Don Murray, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Eamon Farren, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

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4 Comentários

  1. Mais um ótimo review!

    Algumas coisas:

    No começo do seu texto, faltou mencionar que também tivemos cena na Argentina.

    E curiosa a homenagem ao Tarantino, visto que ele é um grande fã do Lynch, mas odiou o filme de Twin Peaks quando este passou em Cannes. Se o Tarantino estiver assistindo a atual temporada, deve ter se sentido honrado com isso.

    Uma coisa que eu senti falta foi do Lynch não ter feito alguma menção ao Windom Earle, que era um personagem que eu gostava muito. Sei que a história dele foi finalizada na segunda temporada, mas mesmo assim gostaria de ter visto algo sobre ele(por sinal, o ator Kenneth Welsh ainda está na ativa). Dizem que o Lynch nunca gostou do personagem, por isso teve aquele fim e sequer foi mencionado na atual temporada.

    Caso não tenhamos uma quarta temporada, vc acha que eventuais pontas soltas serão resolvidas no livro que será lançado depois do término da terceira temporada? Lynch e Frost sempre disseram que Twin Peaks era pensado para a multimídia e não apenas restrito ao seriado.

    Responder
    • André Dick

       /  29 de agosto de 2017

      Prezado Alan,

      agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica! Boa lembrança em relação à Argentina; acrescentei a informação no texto. Houve momentos como este referido que me pareceram homenagem de Lynch a Tarantino: a primeira aparição de Mr. C enfrentando um capanga antes de entrar naquela cabana é outro momento; Ike matando num determinado episódio com o picador de gelo também. Imagino que Tarantino tenha ido na onda da plateia e crítica em Cannes quando criticou o filme de Twin Peaks… muitos elementos (o uso de drogas de Laura) ele adaptaria em Pulp Fiction (com a personagem de Uma Thurman).

      Bem lembrado. Também achei estranha nenhuma menção a Earle, pois ele praticamente foi o primeiro a trazer essas ideias do Black Lodge, e o ator interpretou muito bem o papel: parecia ingênuo e perigoso ao mesmo tempo. Tenho certas restrições, ao mesmo tempo, ao fato de não haver menções a Annie Blackburn, além daquela conversa sobre as páginas rasgadas do diário de Laura, e Donna Hayward (que poderia ter voltado com Moira Kelly, do filme, que prefiro a Lara Flynn Boyle).

      Sempre gostei desta ideia multimídia para Twin Peaks (o diário de Laura, com as gravações de Dale Cooper desde a infância), mas não me agrada muito amarrar as pontas soltas num livro. Eu iria preferir que Lynch e Frost apostassem numa quarta temporada, talvez com menos episódios. Twin Peaks é, sobretudo, audiovisual. Se o Showtime não bancar (e, pelo que leio, mesmo com a audiência não ser a esperada, a série aumentou o número de assinantes do canal), a Netflix com certeza bancaria.

      Agradeço novamente e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Larissa

     /  31 de agosto de 2017

    Discordo quando reclama de alguns episódios serem irregulares, pois na minha opinião não se teria a mesmo emoção ao assistir o episódio 16 se tudo játivesse sido feito logo de inicio, costumo dizer que essa série é diferenciada e não é recomendada para pessoas ansiosas e que querem soluções e respostas simplistas.

    Responder
    • André Dick

       /  31 de agosto de 2017

      Para uma série com 18 episódios e dirigida por David Lynch, o que menos eu esperava certamente eram soluções ou respostas simplistas. Tampouco eu esperava, como admirador de sua filmografia, alguns episódios com a trama rodando em círculos, com excesso de repetições. Tanto que os melhores episódios são justamente aqueles que mantêm o mistério e, mesmo vagarosos, justificam cada diálogo, cada atuação. De um artista como David Lynch se espera sempre o melhor; da maioria de outros diretores não se esperaria o mesmo. E a emoção que ele concede neste episódio 16 ele só obtém por causa de episódios realmente ótimos (os seis primeiros, o 8º, o 9º, o 14º), que justificam chegar aqui e se emocionar. Por isso, eu costumo dizer que Twin Peaks não é para pessoas ansiosas em querer tomar a série como sem falhas porque um dito consenso quer desse modo e sim para aquelas que, conhecendo a obra de Lynch, esperam sempre o melhor de um dos maiores diretores de todos os tempos.

      Responder

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