David Lynch – A vida de um artista (2017)

Por André Dick

David Lynch é um dos melhores cineastas de todos os tempos e um documentário sobre sua arte e sua história se torna primordial, principalmente num momento em que uma de suas principais criações, Twin Peaks, voltou em grande estilo. Por isso, David Lynch – A vida de um artista tem, por um lado, atrativos consideráveis e, por outro, é um tanto decepcionante. Basicamente, ela tem os problemas de outra cinebiografia recente, Kurt Cobain: Montage of heck. Vemos o artista tratando de sua origem, de sua inclinação para a pintura, por meio da ajuda de Bushnell Keeler (finalmente sabemos por que há o Bushnell Mullins da nova temporada de Twin Peaks), pai de um de seus amigos, e revisitando memórias familiares envolvendo os pais, irmãos e vídeos particulares da primeira esposa Peggy com sua filha Jennifer, em meio às filmagens de sua primeira obra cinematográfica, Eraserhead, e fotografias com seu amigo Jack Fisk.

A grande questão é que não vemos Lynch, como naquele documentário sobre Cobain, se referir a suas influências. É como se ele fosse uma espécie de gênio (sob o ponto de vista romântico) cuja formação se deu independente de tudo. “Eu não gosto de sair”, ele diz em determinado momento, para concluir que gosta de “viver em seu mundo”, sugerindo um criador autônomo. Sabe-se o quanto Francis Bacon, Buñuel, Edward Hopper e Magritte, entre outros, contribuíram em sua formação, e nenhum deles é mencionado. Não se trata aqui de pedir uma explicação didática; trata-se de compor sua obra em diálogo como a dos outros. As lembranças que ele tem da infância – e dialogam com seus filmes, embora se possa acreditar que ele esteja também “contando histórias” para aproximar sua obra de sua vida – e dos pais são especialmente comoventes. É visível a tentativa que tinha de se aproximar, por meio do interesse pela arte, da expectativa familiar em relação a ele. Podemos ver, em muitas referências, as ideias originais para Veludo azul e Twin Peaks. Ficamos sabendo de sua juventude tumultuada, o que deve ter inspirado bastante na criação de personagens como Bobby, de Twin Peaks (a partir deste documentário, quase seu alter ego), e Sailor, de Coração selvagem. No entanto, falta algo.

Com direção de Jon Nguyen, Olivia Neergaard-Holm e Rick Barnes, este é um documentário guiado por Lynch. Não vemos ninguém falando dele; apenas Lynch se expressa, e o vemos pintando em sua casa em Los Angeles, também ao lado de sua filha pequena, Lula (nome da personagem de Coração selvagem e que rende algumas das melhores e singelas sequências), mostrando que ele é, mais do que um artista, um carpinteiro nos moldes daquela cultura que ele apresenta nas telas: do interior dos Estados Unidos e seus mistérios. Lynch mexe com furadeiras, tinta, pincéis, borrachas, fios, arames, tudo o que se encontra à frente para produzir arte. São imagens raras. No entanto, temos aqui um predomínio de seu trabalho pictórico que, todos que o acompanham sabem, o levou para o cinema. Pouco se vê de sua admiração pelo cinema em si. Parece que a pintura o levou para outro meio de expressão, sem nunca a abandonar, mas em nenhum momento ele considera o meio cinematográfico que o tornou conhecido tão importante quanto. Isso acaba soando deslocado mesmo para quem acompanha seus filmes. Não há na tela nenhum momento de Lynch falando de sua obra depois de Eraserhead.

É como se ele tivesse colocado essa obra inicial como síntese de tudo o que ele fez, o que não pareceria o mais adequado. Pode-se dizer que Eraserhead introduziu o trabalho de um diretor conhecido por seu surrealismo, mas que foi adentrando, obra a obra, na vida norte-americana em geral. A maneira como o filmam (numa cabine de som ou fumando e mexendo no cabelo) remete a seu estilo em geral, no entanto é pouco criativa em relação ao que apresenta em seus filmes. Ou seja, em se tratando de uma cinebiografia, que deveria captar de certo modo a essência de sua figura enfocada, há temas ausentes de maneira significativa. Gostaria muito de saber como Lynch se sentiu ao ser convidado por Mel Brooks a dirigir O homem elefante, depois de assistir a Eraserhead; como foram os conflitos e concordâncias com a família De Laurentiis em Duna e Veludo azul; o sucesso com Twin Peaks e a Palma de Ouro com Coração selvagem; e todas as experimentações em seguida na proximidade com a vanguarda mais ativa do cinema, além de seu envolvimento com a meditação transcendental, abordada em livros e palestras. E, para verdadeiros apreciadores de arthouse, Lynch foi indicado três vezes ao Oscar e recebeu uma Palma de Ouro, mostrando que grande cinema não se restringe a filmes e diretores ignorados por premiações. Não se deveria esperar pelo óbvio, pode-se apontar. Justo. A questão é que o trailer do documentário anunciava os títulos desses filmes em destaque, como se também tratasse deles.

Sendo Eraserhead seu ponto de partida e chegada, não temos aqui seu conhecimento de literatura visível, influência para seus roteiros, e sim o Lynch admirador da pintura. Outro detalhe interessante é por que o diretor apresenta pinturas que são colagens surrealistas, mas muito de seu cinema conversa com a pop art e cenários bem delineados, quase sem nenhum elemento que remeta a Eraserhead (falo especificamente de Twin Peaks e Coração selvagem). Trata-se, desse modo, de um documentário às vezes confuso no seu propósito e, embora eu entenda seus objetivos (manter-se como um artista misterioso), um tanto falho em sua execução. Mesmo que tenhamos Lynch falando de forma alegre do seu ingresso no American Film Institute e sua convivência com moradores na Filadélfia, além de ter uma conversa definidora com seu pai, talvez a lembrança mais significativa desse documentário, sabemos que haveria muito mais aqui a ser dito. O aprendizado mais uma vez deve ser buscado em sua obra.

David Lynch – The art life, EUA, 2017 Direção: Jon Nguyen, Rick Barnes, Olivia Neergaard-Holm Elenco: David Lynch, Lula Fotografia: Jason S. Trilha Sonora: Jonatan Bengta Produção: Jason S., Jon Nguyen, Sabrina S. Sutherland Duração: 88 min.

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