Além das palavras (2017)

Por André Dick

O diretor britânico Terence Davies sempre foi conhecido por sua discrição narrativa, com acertos maiores (O fim de um longo dia) e outros menores (Amor profundo). Por sua formação, há uma tendência, em Davies, a uma narrativa reflexiva e ponderada, bastante lenta. Em Além das palavras, ao mostrar uma cinebiografia da poeta Emily Dickinson, ele faz um retrato em tom literário, intercalando passagens da vida dela com poemas sendo recitados, de modo quase clássico, lembrando um filme dos anos 50. Esta já era uma característica de outra cinebiografia com fundo literário, Sylvia, em que Gwyneth Paltrow era a poeta norte-americana Sylvia Plath, em conflitos permanentes com seu marido.
Dickinson é interpretada na juventude por Emma Bell, quando desiste de ficar num convento, indo contra as regras impostas e já revelando seu ímpeto contra qualquer tipo de enquadramento em um determinado ambiente, e depois por Cynthia Nixon. A poeta possui uma boa relação com o pai Edward (Keith Carradine) e a mãe Emily (Joanna Bacon). Por outro lado, entra em conflitos com o irmão Austin (Duncan Duff), enquanto mantém uma delicada relação com a irmã Lavinia (Jennifer Ehle), vivendo dedicada a seus versos, sem quase estabelecer vínculos com outros ao seu redor.

A dedicação é muito bem conduzida por Davies, sem afastá-la, no entanto, de seu período histórico, em busca do espaço da mulher. Vem à tona também o debate sobre a tentativa de acabar com a escravidão, em relação à qual Dickinson se coloca como uma potente rival, e algumas imagens lembram, também pelo tom de um álbum de época, o referencial Lincoln, de Spielberg. Tornou-se histórica a desconsideração em vida dos seus poemas (em torno de 1.800), mesmo sendo uma escritora de raríssimo talento que inclusive praticamente introduziu o travessão como um sinal gráfico para demarcar versos na página (e em certo momento há uma discussão exatamente sobre isso) e teve em Samuel Bowles (Trevor Cooper) um dos poucos que acreditaram no potencial deles. Interessante é a maneira como ela pergunta a seu pai, Edward, se pode escrever seus versos à noite, momento em que mais consegue produzir, como se precisasse da autoridade masculina (assim como no universo editorial) para poder se manifestar. Mas é brilhante a delicadeza com que Carradine efetua essa cena, mostrando por que sua filha tem respeito por sua pessoa, não o misturando com os demais homens, aos quais possui aversão.

Bell é uma atriz que traz muita empatia com o espectador, quase inexistente com Nixon, o que em parte prejudica a relação com a personagem, mas estamos diante de alguém que, mais do que viver a poesia, tinha uma experiência melancólica diante das coisas. Não nos enganemos: Nixon a retrata  bem sob esse ponto de vista (além de ser fisicamente parecida), mais ainda quando a história se encaminha para o final e Davies a traduz por meio de imagens de maneira muito interessante, seja nas conversas com os irmãos, seja no comportamento dela quando se sente confrontada, às voltas com Susan Gilbert (Jodhi May) e Vryling Buffam (Catherine Bailey), ou com a tia Elizabeth (Annette Badland, especialmente ótima). Ressalte-se, porém: a atuação que dá o equilíbrio da história é de Ehle, magistral desde A hora mais escura e infelizmente subestimada. E é o irmão de Dickinson seu principal ponto de embate com o universo masculino: Austin quer desconsiderar seu trabalho poético, mesmo que utilize isso apenas para demonstrar uma rusga pessoal com a irmã.

A ambientação em Amherst, Massachusetts, e a fotografia de Florian Hoffmeister se inspiram claramente em O mestre, de Paul Thomas Anderson, sobretudo numa determinada passagem do tempo, e Amor e amizade. No entanto, Davies não possui nem a técnica magistral de Anderson nem a leveza de Stillman para conduzir sua trama. Em certos momentos, o filme acaba pesando: toda sua elaboração de época e seu diálogo com a literatura se sentem um pouco excessivos, impedindo a fluidez de determinados trechos e mesmo certo andamento de alguns personagens, que entram e saem de cena sem ter uma explicação muito plausível. Em seu melhor filme, O fim de um longo dia, Davies mostrava o envolvimento e a paixão de um menino pelo cinema e pela música: aqui apenas muda a arte. É a poesia que o diretor pretende desenhar em atuações e cenários, mesmo em gestos do cotidiano aparentemente sem importância, mas definidores para a essência de uma pessoa. E, embora não empregue um certo bom humor que há na poesia de Dickinson na tela, esta cinebiografia ainda se mostra uma conquista.

A quiet passion, ING/BEL, 2017 Diretor: Terence Davies Elenco: Cynthia Nixon, Jennifer Ehle, Duncan Duff, Keith Carradine, Jodhi May, Joanna Bacon, Catherine Bailey, Emma Bell, Benjamin Wainwright, Annette Badland, Rose William, Stefan Menaul, Trevor Cooper Roteiro: Terence Davies Fotografia: Florian Hoffmeister Produção: Roy Boulter, Sol Papadopoulos Duração: 125 min. Distribuidora: Cineart Filmes Estúdio: Hurricane Films / WeatherVane Productions

 

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