O reino da beleza (2014)

Por André Dick

O diretor canadense Denys Arcand teve duas indicações ao Oscar de filme estrangeiro: O declínio do império americano, em 1986, e As invasões bárbaras, em 2003, considerado sua obra-prima e vencedor do prêmio. Neste sentido, O reino da beleza é seu filme recebido com menos entusiasmo, passando em festivais desde 2014 e chegando ao mercado de exibição nos Estados Unidos apenas no ano passado e agora no Brasil.
Seu personagem central é Luc Sauvageau (Éric Bruneau), um arquiteto de Thirtysomething, perto de Quebec, casado com Stéphanie (Mélanie Thierry) e que conhece Lindsay Walker (Melanie Merkosky), também casada, numa ida a uma reunião de negócios em Toronto. Luc e Lindsay se veem atraídos e acabam iniciando um caso. Eric, além de rico, aproveita sua vida como uma espécie de passagem para a perfeição, além de frequentar o coral da igreja. E Lindsay se encontra infeliz em seu casamento, ideia pouco cogitada por ele, mesmo inserindo-se numa relação fora do matrimônio. Mesmo o primeiro encontro, com os dois de bicicleta, parece indicar uma volta a uma espécie de vida fora dos compromissos adultos. É justamente neste ponto de diferença que os personagens se encontram mais complexos.

No entanto, Luc volta para sua cidade de origem e continua mantendo seu casamento. O reino da beleza se joga entre um passado feliz do personagem central e um presente no qual a aproximação com a esposa se dá por meio do contato com a natureza, apesar de ser dedicado à arquitetura. Arcand transforma o personagem num símbolo de alguém que está à procura de si mesmo, e precisa expor particularidades a uma amiga médica (Marie-Josee Croze), enquanto lida com problemas de saúde de um contratante de longa data (Michel Forget). Arcand não está interessado em estabelecer um eixo linear para sua história, tratando mais da relação subjetiva entre as pessoas. Quando Stéphanie, ex-tenista de destaque, começa a ter crises de pânico, ele não almeja colocá-la como uma vítima e sim como um retrato do que está acontecendo com sua relação, mesmo que Luc nada procure manifestar, procurando nas formas arquitetônicas a sua fuga. Ela também tem encontros furtivos com uma amiga (Genevieve Boivin-Roussy). Há elementos de Terrence Malick e Atom Egoyan na maneira como Arcand vai costurando sua narrativa, além de, por vezes, recordar Leviathan (na cena de caçada aos patos, por exemplo).

Que este filme seja recebido sem a mesma perspicácia que logrou As invasões bárbaras é um mistério. Arcand evoluiu muito como cineasta, usando os ambientes de maneira equilibrada, sem recorrer a artifícios, e principalmente extraindo uma atuação discreta excepcional do triângulo central, quase sem diálogos, apenas por olhares. De certo modo, O reino da beleza é focado à margem dessas pessoas, mas também a maneira como elas estão inseridas em casas no gelo, em hotéis à noite, em caminhadas pelo parque, em passeios pelo rio. Ele visualiza a traição e os relacionamentos como parte de um universo onde não há construção determinada como a arquitetura, em que tudo é capaz de ser verdadeiramente abalado. É muita significativa a passagem em que Luc se encontra com Lindsay em Quebec e ele pede para que se escondam pois todos no lugar o conhecem: na verdade, ele tem receio da desestrutura que pode causar à esposa a perda desse reino intocável e perfeito que ele produziu dentro de si. Quando sai à noite e se refugia num hotel, querendo esquecer a amante, Arcand lida, em sua fuga, com inúmeras paisagens esplêndidas que não reconhecem mais o personagem. Ele está desmontado por dentro. Essa ligação entre os personagens e as paisagens pelas quais eles passam é determinante: assim acontece quando Luc e Stéphanie estão esquiando e ela tem outra crise de pânico: a beleza do entorno não pode salvar essa relação. As atuações de Bruneau e Thierry são ótimas, contrabalançando um certo vazio existencial dele e uma constante fuga dela da realidade.

Arcand monta isso de maneira quase irretocável, não fossem alguns relances em branco ao longo do filme. A fotografia de Nathalie Moliavko-Visotzky, captando a arquitetura em torno dos personagens para representar seus sentimentos, é arrebatadora, principalmente em determinadas sequências: quando Luc vai caçar patos, quando parte em viagem por um rio com a esposa e quando encontra sua amante em Quebec, sendo as ruas uma ameaça para o segredo que esconde. O reino da beleza trata, na verdade, da subjetividade das relações humanas, quase nunca expostas, mas visíveis em um roteiro muito interessante. Melanie Merkosky conserva, desde o início, uma espécie de traço de mistério, nunca mostrando de fato quem seria sua personagem e concedendo a Arcand uma grande exploração das dúvidas de origem humana. Mais do que possíveis aproximações da obra de Rohmer que o roteiro teria, estamos diante quase diante de um olhar atualizado sobre aquilo que Primo, prima apresentou de maneira bem-humorada nos anos 70.

Le règne de la beauté, CAN, 2014 Diretor: Denys Arcand Elenco: Éric Bruneau, Geneviève Boivin-Roussy, Johanne-Marie Tremblay, Juana Acosta, Leni Parker, Magalie Lépine Blondeau, Marie-Josée Croze, Mathieu Quesnel, Melanie Merkosky, Mélanie Thierry, Michel Forget, Yves Jacques Roteiro: Denys Arcand Fotografia: Nathalie Moliavko-Visotzky Trilha Sonora: Pierre-Philippe Côtén Produção: Daniel Louis, Denise Robert Duração: 102 min. Distribuidora: Fênix Filmes Estúdio: Cinémaginaire Inc.

 

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