Twin Peaks – O retorno (Episódio 11) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Fazendo uma retrospectiva dessa primeira metade da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), depois de assistir ao episódio 10, podia-se concluir que, ao mostrar Richard Horne em três episódios cometendo maldades e nenhuma vez sua mãe Audrey, ponto de equilíbrio da sua série antiga, David Lynch estava colocando em certo risco o restante de sua narrativa. Twin Peaks sempre tratou do amor e da bondade contra a maldade humana, mas esta nunca foi o foco central. Ao fazer isso no episódio 10, ele desequilibrava o jogo, tornando os personagens maus em centrais, quando o espectador deseja um meio-termo. Também podia-se concluir que novos personagens, como o de Becky, filha de Shelly, mereciam um desenvolvimento e que, apesar de ter funcionado em episódios anteriores, era possível se tornar desgastante se Ben Horne, Hawk, Truman, Andy e Lucy continuassem, em linhas gerais, sendo utilizados apenas como nostalgia da série antiga, precisando ganhar inter-relações mais práticas rapidamente, assim como Lynch concluir o seguinte: Gordon Cole não pode ser o agente Cooper desta temporada.

Lynch dedicou tempo a personagens mais fracos quando há outros ótimos: Dougie Jones/Agente Cooper, Janey-E, Bobby Briggs, Hustings. No episódio 10, o desenvolvimento dos irmãos Mitchum destoa da carreira de Lynch e não acrescenta à mitologia da série – pelo menos até o momento.  A trama envolvendo o duplo mal de Cooper querendo matar Dougie Jones também passou a correr o risco de se tornar vazia, tamanha a demora em resolvê-la desde o episódio 6, sobretudo. Os episódios restantes, é visível, não poderiam seguir a linha do décimo, principalmente em sua montagem fragmentada, sem tornar cada cena com a densidade vista nos episódios anteriores, mais lenta e reflexiva do que nas duas primeiras temporadas.
Voltando a rever a segunda temporada, impressionou-me o quanto Lynch consegue, dos episódios 9 ao 16, principalmente, direta ou indiretamente (pois ele não dirige todos), uma sequência de tramas que complementa perfeitamente a primeira, sem sobras. As cenas têm a extensão adequada e não parecem se apressar em alguns pontos e ficar lentas em outros. O destaque neste retorno de Twin Peaks é que alguns arcos narrativos demoram às vezes três ou quatro episódios para regressarem. Isoladamente, eles funcionam muitas vezes de maneira excelente – o sexto é talvez o melhor exemplo –, mas num todo esse estilo pode impedir a interação entre os personagens. É incomparável, nesse sentido, as duas primeiras temporadas com esta: David Lynch trabalha aqui mais com conceitos (a maior parte do tempo de maneira brilhante), e a ausência, até agora, de um núcleo jovem mostra também, sem nenhuma condenação ou preconceito, como o diretor não dá a mesma importância que dava a ele nos anos 90.

Lynch está mais preocupado muitas vezes em mostrar uma “era das trevas”, como se refere Janey-E no quinto episódio aos perseguidores do marido Dougie, a criação do Black Lodge, os mistérios da Zona onde estava o Major Briggs, o mundo dos gângsters de Las Vegas, do que exatamente cafés, tortas e rosquinhas (e, quando esses elementos aparecem, é apenas por nostalgia). Mesmo o bom humor muitas vezes é substituído pelo pesadelo: pode-se contar o número de minutos que Dougie Jones apareceu nos episódios 7, 8, 9 e 10. Isso é recompensador porque se trata de uma série absolutamente original ainda, no século 21, sem preocupação em agradar ao espectador, mas também pode levar este a ter nostalgia daquele universo misterioso erguido sobre pinheiros Douglas das temporadas originais. Não se engane: a essência de um mundo de mistério como havia nos anos 90 em Twin Peaks está aqui também, porém mais direcionada ao que David Lynch considera conceitual.
Nesse sentido, o episódio 11 se ressente dos mesmos problemas do anterior. Ele começa muito bem, com alguns garotos vendo a professora Miriam (Sarah Jean Long), que parecia estar morta, pedindo por socorro. Em seguida, Becky (Amanda Seyfried) liga para sua mãe Shelly (Mädchen Amick), a fim de que lhe empreste o carro para ir atrás de Steven Burnett (Caleb Landry Jones); ele a está traindo com Gersten Hayward (Alicia Witt, que aparecia criança na segunda temporada e fez a irmã de Paul Atreides em Duna), irmã de Donna. Shelly chega ao parque de trailers com o carro e a filha rouba o carro dela. Carl Rodd (Harry Dean Stanton) aparece para dar uma carona a Shelly de volta ao Double R. Ela vai se reunir com a filha novamente e o pai, Bobby Briggs (Dana Ashbrock), mais tarde, para tratar de um possível término de casamento dela. Esta bela sequência encerra com o encontro de Shelly e o novo namorado, o traficante Red (Balthazar Getty), e Bobby tendo de conversar com uma senhora depois de um menino disparar tiros sem querer no Double R. Bobby está vendo sua juventude se repetir tanto por meio de sua filha quanto por sua ex-esposa Shelly, afinal Red não passa de um novo Leo Johnson, mais poderoso, pelo que entendemos no sexto episódio. Pior ainda é ele ver uma estranha senhora buzinando no trânsito carregando alguém que parece ter engolido o mesmo inseto da menina dos anos 50 do oitavo episódio.

Enquanto isso, em Buckhorn, Gordon Cole (David Lynch), Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), Diane (Laura Dern), Tammy Preston (Chysta Bell) e o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) vão até lugar onde William Hustings (Matthew Lillard) adentrou a Zona e encontrou o Major Briggs. Chegando ao local – Rua dos Sicômoros, o mesmo nome daquela onde Cooper tomou o lugar de Dougie Jones e as mesmas árvores que demarcam no bosque de Twin Peaks a entrada do Black Lodge –, Gordon e Albert veem um homem maltrapilho saindo de uma casa abandonada e encontram o corpo de Ruth Davenport, a bibliotecária amante de Hustings. Gordon se aproxima da casa e avista no céu uma passagem para uma dimensão paralela, numa das cenas mais interessantes dessa temporada. O mesmo homem maltrapilho – que se trata de um dos woodsmen, aqueles do oitavo episódio – entra no carro de Hustings e o mata. Diane tem um comportamento novamente estranho, tanto não se referindo a esse estranho homem que ela enxerga, como querendo ver sinais do braço de Ruth Davenport quando Albert mostra a foto que tirou.
Estranhezas à parte, o xerife Truman (Robert Forster) e Hawk (Michael Horse) conversam sobre as pistas deixadas pelo Major Briggs, quando recebem um telefonema da Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). Um mapa de origem indígena do território de Twin Peaks mostrado por Hawk oferece boas pistas para os símbolos do milho e do fogo.

É exatamente creme de milho que come Robert Mitchum (Robert Knepper), à espera de um encontro com Dougie Jones, ao mesmo tempo que seu irmão Bradley (James Belushi) coloca cereal de caixa em seu pote de café da tarde. Esse encontro foi providenciado por Bushnell Mullins (Don Murray, menos inspirado do que regularmente) e vai terminar num restaurante, onde os Mitchum aproveitam uma torta de cereja – Dougie vai comer pedaços dela extasiado, lembrando do agente Cooper (mas isso estamos vendo desde o terceiro episódio…) –, observados por Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal). Tudo conforme o sonho de Bradley.
Este é mais um episódio cheio de alterações em seu contexto, com problemas de montagem e que sofre de falta de ritmo: enquanto o início é muito interessante, a parte final, com Dougie Jones, em seu momento menos inspirado até agora, faz uma referência divertida a Seven de David Fincher (mesmo porque a trama de Lynch sugere exatamente que aparecerá dentro da caixa aquilo que surge no filme de Fincher), mas transforma os sonhos inspirados e reflexivos de David Lynch em apenas uma apresentação de cartão postal, assim como as rosquinhas que Gordon e sua equipe comem na delegacia depois do terrível acontecimento com Hustings.

Os episódios 10 e 11 sofrem basicamente dos mesmos problemas: Lynch parece ter perdido o ritmo apresentado antes – com exceção do episódio 7, que já adiantava problemas acentuados  nesses, mas ainda era muito bem feito –, transformando a trama excessivamente circular, voltando aos mesmos pontos e acelerando demais onde não deveria e interrompendo cenas-chave para dar destaque a outras sem o mesmo interesse. Antes fosse o fato de não terem aparecido ainda personagens como Audrey Horne e Big Ed Hurley, ou tendo havido apenas uma aparição de James Hurley. O problema não é esse. O problema aqui passa a ser mais grave: Lynch ter dito que se tratava de um filme em 18 etapas requisitava mais enchimento de trama (que na maior parte dos episódios se sustenta até o momento em que cria interesse) e menos conceitos, pelo menos nesses dois últimos. Um exemplo é o roteiro entregue a Laura Dern, como Diane: ela parece apenas um motivo para Lynch incluí-la nas filmagens. O roteiro dos irmãos Mitchum também não é bom, mas Knepper e Belushi fazem o possível, embora principalmente o segundo soe deslocado e com um tom cômico acima do esperado. Eles certamente configuram alguns dos momentos menos inspirados da trajetória de Lynch, o que é uma pena. E, diante da importância recebida agora, fica estranho imaginar por que anteriormente eles só haviam aparecido quase de relance no quinto episódio. Faltam sete partes para se solucionar a trama e tudo parece indicar que teremos pouquíssima participação do verdadeiro agente Cooper nessa volta, caso não se confirme a quarta temporada. David Lynch, neste caso, pode ter escolhido um caminho mais original, mas não deixará de ter feito o espectador que aguardou a volta do personagem (sim, sabendo que não seria o mesmo que antes) por mais de 20 anos estranhamente nostálgico, voltando às duas primeiras temporadas para reencontrá-lo e com a estranha sensação de que Lynch quis ocupar seu lugar como Gordon Cole. Sim, Lynch é o artista completo, mas o agente Cooper é o guia dessa série.

Twin Peaks – Episode 11, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Horse, Chrysta Bell, David Lynch, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Brent Briscoe, Laura Dern, Balthazar Getty, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Caleb Landry Jones, Catherine E. Coulson, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, James Belushi, Alicia Witt, Robert Knepper, Harry Dean Stanton, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Don Murray, Josh Fadem Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

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