Carros 3 (2017)

Por André Dick

Esta terceira parte de Carros surge logo depois de um longo período de desconfiança em relação à qualidade de seu episódio anterior (de 2011, enquanto o original é de 2006), com direção de um estreante, Brian Fee, ex-integrante do departamento de arte da Pixar, para a qual contribuiu nos filmes anteriores e em Ratatouille e Wall-E. Trata-se da nova parceria entre a Pixar e os estúdios Disney, procurando atualizar uma franquia já desgastada para muitos, embora as crianças gostem muito dela – e já perdi o número de vezes em que comprei de presente para meu sobrinho algum livro da série, mesmo anos depois do segundo filme, de seis anos atrás. Desta vez, a temporada da Piston Cup traz como atração o duelo entre Lightning McQueen (Owen Wilson), visto como uma lenda, e um novo carro possante, Jackson Storm (Armie Hammer). Storm faz parte de uma nova geração que utiliza tecnologia de ponta para conseguir atingir o melhor nível nas corridas. Com isso, os da antiga geração vão sendo demitidos ou se aposentam.
Depois de um grave acidente, McQueen relembra do antigo mentor, Doc Hudson (cuja voz era de Paul Newman) e constata para sua namorada Sally Carrera (Bonnie Hunt) que não quer se aposentar como ele. Decide começar a treinar novamente.

Rusty (Tom Magliozzi) e Dusty (Ray Magliozzi), os proprietários da equipe de corrida de McQueen, o enviam para um novo centro de corridas, onde ele conhece seu novo proprietário, Sterling (Nathan Fillion), que o coloca para trabalhar com a treinadora Cruz Ramirez (Cristela Alonzo). Logo, no entanto, ele entra em conflito pelos métodos empregados.
McQueen propõe uma saída para seu novo chefe e pretende voltar à competição para tentar consegui-la. A fim de obter ajuda, o antigo carro chama seu amigo Mater (Larry the Cable Guy) e volta para sua cidade natal, Thomasville, onde reencontra Smokey (Chris Cooper) e outros conhecidos. O roteiro de Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich costura essas mudanças de espaço de maneira interessante e elege Thomasville não apenas como o reduto de McQueen, como também a representação da cidade quase esquecida em relação aos centros urbanos onde o personagem central precisa estar para que possa novamente revitalizar sua maneira de agir. Storm representa a tecnologia dos grandes centros, mas McQueen pretende estar com a natureza para recuperar sua força. Naturalmente, a imagem do carro sempre está associada a um mercado de rivalidade, e esses três filmes representam isso, no entanto sem nunca deixar de lado os seus bastidores, o mais interessante para o espectador.

Carros 3 não teve a recepção de outros da Pixar considerados ótimos, a exemplo de Divertida mente, Wall-E e Up. Trata-se, na verdade, de outra peça subestimada do estúdio, assim como o ótimo Universidade Monstros e o injustamente esquecido O bom dinossauro. Assim como este tratava da infância, Carros 3 trata do envelhecimento de maneira indireta, fazendo uma ligação entre as corridas e o amadurecimento de modo talvez não imaginado antes na franquia. McQueen é um personagem aparentemente simples, mas aqui sua volta às origens e ao seu mestre (e a voz de Paul Newman novamente é reproduzida) desenha toda uma existência voltada às corridas que ele não quer deixar de lado e, ao mesmo tempo, o leva a se transformar. Seu contato com os antigos conhecidos e a desconfiança de ser treinado por um carro feminino o colocam em conflito. Há um tratamento dado pelo roteiro não voltado a um questionamento direto sobre o gênero, mas que se sustenta de maneira mais interessante e eficiente do que vemos em desenhos como Valente.

Sendo uma franquia conhecida, talvez mais do que outras da Pixar, por vender brinquedos, Carros 3 se prenuncia como uma interessante homenagem a vários filmes, a exemplo de Herbie – O fusca enamorado (o clima de competição), Rocky III (a corrida que ele aposta com Sally numa praia), Dias de trovão (quando surgem os conflitos nos bastidores para a troca de carros, num momento crucial) e Inteligência artificial (numa passagem noturna por um circo de demolição de carros, em que aparece um ônibus escolar estranho (Lea DeLaria)), mas sempre em busca de uma identidade própria. No ano passado, a Pixar teve o sucesso bilionário de Procurando Dory, que carecia de envolvimento, o que não falta a esta sequência de Carros. Todos os momentos em que o diretor Brian Fee tenta demonstrar a emoção, ele consegue por meio das vozes de Wilson e Hunt, principalmente, mas também por lidar com o material de maneira realmente interessada, nunca perdendo fôlego nos momentos mais importantes, e trabalhar com um visual impressionante, no tratamento de cores oferecido a cada instante. Outra qualidade é que não há uma substituição dos personagens por uma sequência sem fim de cenas de ação, o problema principal das animações de hoje. Nesse sentido, o filme cresce por meio de sua própria narrativa.

Cars 3, EUA, 2017 Diretor: Brian Fee Elenco: Owen Wilson, Cristela Alonzo, Chris Cooper, Nathan Fillion, Larry the Cable Guy, Armie Hammer, Ray Magliozzi, Tom Magliozzi, Tony Shalhoub, Bonnie Hunt, Lea DeLaria, Kerry Washington, Paul Newman Roteiro: Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich Fotografia: Jeremy Lasky, Kim White Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Kevin Reher Duração: 109 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures

 

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4 Comentários

  1. Gabriel Peixoto

     /  19 de julho de 2017

    Bela crítica
    O filme eh genial, principalmente dando um nome “mexicano”, se assim podemos dizer…para criticar o atual presidente dos EUA

    Sem contar muitas outras coisas escondidas numa narrativa simples, porém completa do diretor.

    Responder
    • André Dick

       /  19 de julho de 2017

      Prezado Gabriel,

      agradeço por seu comentário sobre a crítica. Gostei muito do filme e não cheguei a fazer essa ligação sugerida por você, que é oportuna no contexto dos temas apresentados pela narrativa, talvez mais compreendidos pelo público adulto. Mesmo tendo sido criticado em relação a outros da Pixar, ele me parece exatamente esconder coisas para o espectador descobri-las. Ou seja, outros filmes da companhia, considerados clássicos, não deixam sua história com elementos tão subentendidos quanto este.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Willian

     /  19 de julho de 2017

    O filme é ótimo #carros4 vem logo

    Responder
    • André Dick

       /  19 de julho de 2017

      Prezado Willian,

      pela qualidade deste, também torço para que tenha uma sequência.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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