Twin Peaks – O retorno (Episódio 8) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

A terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) recebeu, em seu oitavo episódio, tudo que parecia faltar no anterior: cenas vagarosas e sem linearidade alguma. Para David Lynch, este sempre é o melhor caminho, em se tratando de ele não estar acostumado a histórias mais comuns ou um humor mais superficial, como aquele visto na personagem de Diane, em desempenho de Laura Dern, ainda a ser melhor avaliado com participações futuras.
O episódio anterior terminou com o duplo mal de Cooper (Kyle MacLachlan) e seu parceiro Ray Monroe (George Griffith) escapando da prisão, depois de o primeiro chantagear o diretor do lugar. O oitavo inicia com os dois na estrada – lembrando exatamente A estrada perdida – até que Sr. C. pede algumas informações que o outro possui. Este pede para parar o carro e quando o duplo mal de Cooper o ameaça com uma arma recebe disparos à queima-roupa. Em seguida, surgem, ao que parece, almas vindas da floresta (chamadas woodsmen) – homens que parecem escurecidos com carvão, sendo que um deles aparece no segundo episódio e outro no sétimo, quando a tenente Knox está avaliando o corpo do major Briggs – chegando até o corpo do duplo mal, até desentranhar dele a figura de Bob, para espanto de Ray, que foge, assustado, falando em seguida com Phillip Jeffries (que no filme era interpretado por David Bowie).

Corta para a Roadhouse, onde um senhor anuncia Nine Inch Nails, com uma canção de rock que remete também ao filme A estrada perdida, “She’s gone away”, e que parece dar uma nova vida ao duplo mal – lembre-se que a música é sempre, para Lynch, uma ligação entre almas e eletricidade – veja-se o episódio da segunda temporada em que se conhece o assassino de Laura Palmer por meio de outro crime e vários personagens na Roadhouse choram, como se houvesse uma tristeza no ar da cidade. A música da Roadhouse capta esse lado maligno de Cooper de alguma maneira.
Há uma volta no tempo para 1945, quando, no Novo México, explode a primeira bomba atômica. Esta imagem é filmada de maneira tão impactante que se imagina o quanto Lynch faria com um filme de orçamento blockbuster: sua câmera vai se aproximando da bomba até captar dentro dela o fogo, lampejos, luzes desfocadas, partículas, com acompanhamento de  “Threnody to the victims of Hiroshima”, de Krzysztof Penderecki. Deve-se lembrar que Gordon Cole tem uma imagem da bomba atômica em seu escritório, assim como um quadro com uma espiga de milho – milho que constitui o “garmonbozia”, mistura de “dor e tristeza”. Cole sabe de detalhes que não informa aos restantes do FBI? É uma espécie de cena da criação do mundo de A árvore da vida às avessas (como defini num tweet logo depois de assistir ao episódio na madrugada de domingo). Essa bomba dá origem exatamente à figura de Bob – dentro de um ovo – e Lynch se desloca para uma “loja de conveniência” no deserto. A “loja de conveniência” é onde Bob, segundo o Homem de Um Braço Só, habita – e aparece em Twin Peaks – Fire walk with me (primeira imagem abaixo). À frente dessa loja de conveniência, perambulam as almas que apareceram na primeira parte do episódio (no filme de 1992, era Jürgen Prochnow, sentado no fundo à direita). E Bob sendo criado em meio ao fogo da bomba atômica dá outro significado a “Fire walk with me”.

A partir daí, Lynch se desloca para um castelo em alto-mar, remetendo imediatamente ao lar dos Atreides em Duna, onde estão Señorita Dido (Joy Nash) e o Gigante (Carel Struycken), ao lado de um sino – parecido com aquele que Cooper vislumbra no terceiro episódio. Ele parece receber um chamado e se desloca, por uma escadaria, para um teatro, onde se projeta, na tela, a imagem da bomba atômica seguida pela de Bob. O Gigante se eleva no ar, aos olhos de Señorita Dido, e sai dele uma luz amarela que chega à mulher como uma bola dourada: dentro dela, está a imagem de Laura Palmer (Sheryl Lee). Esta bola é lançada no ar e entra numa espécie de gramofone gigante, direcionando-se à Terra.  Sendo tudo muito surreal, deve-se notar que essa sequência remete tanto a Duna – a mulher lembra o Barão Harkonnen, que também flutuava como o Gigante – quanto a Cidade dos sonhos – o teatro parece o Club Silencio – e Coração selvagem – na qual Sheryl Lee é a Bruxa Boa do Mágico de Oz nos dias atuais. O jogo de luzes adquire um grande impacto, com a trilha sonora emocional de Angelo Badalamenti, dando grandiosidade à encenação. Laura estaria sendo enviada à Terra para enfrentar Bob?

A história volta ao Novo México, desta vez para 1956, quando as almas do mal perambulam numa estrada pedindo fogo para um cigarro e assustando um casal de velhinhos – imagem antológica que parece sintetizar todos os filmes de terror dos anos 50. Também vemos um casal de jovens caminhando por um posto de gasolina, com uma loja de conveniência, e será encontrada uma moeda no chão (um diálogo com as moedas mágicas do traficante Red e de Hawk no sexto episódio). O rapaz (Xolo Mariduen) acompanha a adolescente (Tikaeni Faircrest) até a porta de sua casa. Lynch, então, mostra uma alma do mal (Robert Broski) descendo do espaço e se dirigindo a uma estação de rádio do lugar, onde domina a cabine de transmissão, depois de matar a recepcionista (Tracy Philips) e o disc jockey (Cullen Douglas), para lançar uma mensagem… Um mecânico e uma senhora numa lanchonete a ouvem e desmaiam. A menina que era acompanhada pelo jovem a escuta, dorme, e de repente surge um inseto gigante que havia saído de um ovo no deserto, entrando em sua boca. Seria o início de Bob? Impressiona, nessa sequência, o quanto Lynch parece fazer um Veludo azul em forma de terror no Novo México. É simplesmente brilhante a composição de imagens e a maneira como essas almas assustam os incautos – inclusive o espectador. E a caminhada do jovem casal na noite escura parece remeter mais a Twin Peaks dos anos 90 do que todos os episódios desta terceira temporada até agora.

Lynch aproveita o oitavo episódio, nesse sentido, para desenvolver a mitologia de Twin Peaks. Há uma quebra quase completa com o que estava sendo mostrado nos anteriores e pode-se sentir que, se não fossem as referências a personagens vitais de Twin Peaks, este seria um episódio de outra série. Talvez seja este o intuito de Lynch: transformar a série numa espécie de canal para suas experimentações. Isso pode provocar certo desencanto – vários personagens ainda não apareceram ou não foram desenvolvidos, e o verdadeiro agente Cooper vaga no corpo de Dougie Jones – e, por outro, um grande respeito pelo que Lynch mostra e desenvolve: ele realmente faz um surrealismo nunca visto antes, no cinema ou na televisão. É verdadeiramente notável o que ele reproduz com poucas imagens e breves diálogos. Um episódio que se sente quase à parte de toda a série – inclusive as duas primeiras temporadas – e que, de certo modo, pretende contar a origem da maldade humana e daquilo que pode combatê-la – na figura de Laura Palmer – de forma antológica. Esse episódio traz ainda mais significado à figura do anjo no final de Twin Peaks – Fire walk with me (última imagem acima) aparecendo para Laura Palmer como se fosse a sua salvação. Neste episódio, é como se Laura fosse a alma que poderia fazer frente a Bob. Para cada maldade, Lynch expõe aquilo que pode enfrentá-la de fato. Twin Peaks sempre tratou do amor e da salvação. Este episódio, que certamente será um dos mais lembrados de toda a série e da carreira de Lynch, confirma.

Twin Peaks – Episode 8, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, George Griffith, Carel Struycken Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

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6 Comentários

  1. Jose Rocha

     /  27 de junho de 2017

    O que foi aquilo ontem? OMG ..

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    • André Dick

       /  27 de junho de 2017

      Prezado Jose,

      realmente foi a peça mais histórica já feita para a televisão, embora seja puro cinema. Não lembro de nada que se assemelhe a isso.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. estou estupefata com ep 3×8, Lich é um dos caras mais brilhantes que eu conheci

    Responder
    • André Dick

       /  28 de junho de 2017

      Prezada Rosana,

      agradeço pela mensagem. Um episódio decisivo para a história do cinema e da televisão. Lynch é brilhante mesmo, na minha opinião o maior cineasta vivo ao lado de Terrence Malick.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  3. Um verdadeiro petardo, bem difícil de digerir. é o lynch sem amarras. até ler seu texto, tava em dúvida se tinha gostado ou não. o que não ficou claro pra mim é como se sabe que aquele inseto que sai do ovo é o bob. devo ter perdido algum detalhe.

    Responder
    • André Dick

       /  28 de junho de 2017

      Spoilers a sguir

      Prezado Fábio,

      agradeço por sua mensagem generosa. É um “verdadeiro petardo”, sem dúvida, com toda a complexidade de Lynch e, como você assinala, sem amarras. Quanto ao inseto ser Bob, é ainda algo indefinido, mas há aquela sequência em que um ser fantasmagórico dentro da bomba atômica expele ovos e dentro de um está ele, o que pode criar uma correlação. Além disso, o inseto é engolido pela menina quando o woodsman fala sua mensagem na rádio, como se ele soubesse que esse inseto precisa ser o parasita de alguém. Vamos ver se é isso mesmo e também se há uma explicação de como depois ele domina Leland Palmer.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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