Frantz (2017)

Por André Dick

O cineasta francês François Ozon tem se tornado cada vez mais reconhecido por seu estilo eclético. Desde o início da década passada, ele tem realizado obras com uma frequência digna de artista em tempo integral, sendo talvez seu maior destaque Swimming Pool. Nos últimos anos, ele se destacou com Dentro de casa, mas havia nesta obra uma certa frieza, forçando sempre uma metalinguagem. Além disso, a mescla entre drama e humor não se fazia de todo convincente, abrindo lacunas para interpretações que dentro do contexto soavam um pouco forçadas. Essa frieza volta a ser presente em Frantz, primeiro filme dele a estrear nos cinemas este ano (o outro será O amante duplo, exibido no Festival de Cannes).
O filme se passa em 1919, quando Anna (Paula Beer), uma jovem, chora a morte do noivo, Frantz (Anton von Lucke), desaparecido em luta na Primeira Guerra Mundial. Ela vê um jovem, Adrien Rivoire (Pierre Niney), visitar dias seguidos o túmulo dele em sua cidade, Quedlinburg, na Alemanha, e fica intrigada, pois nunca o viu antes. Adrien se anuncia como um amigo de Frantz, de antes da Guerra travada, na qual franceses combateram alemães.

Anna vive com os pais de Frantz, Doutor Hoffmeister (Ernst Stötzner) e Magda (Marie Gruber), desconfiados de Adrien, o que se mostra pelos olhares trocados à mesa durante um encontro. No entanto, ela logo estabelece um vínculo com o visitante, mesmo que esteja sendo seguida por Kreutz (Johann von Bulow). A guerra é um peso para todos: está no dia a dia de cada habitante; a única saída é justamente esperar o fim dela. E, para isso, também imaginar que, de algum modo, ela não existe.
Indicado a 11 prêmios César, o Oscar francês, Frantz ganhou o de melhor fotografia, assinada por Pascal Marti, num trabalho irretocável, que lembra bastante aquele efetuado em A fita branca, de Haneke. Em muitos momentos, suas imagens lembram pinturas e até mesmo a reação dos personagens conduz à interpretação de que Ozon está, na verdade, gravando essas imagens como uma pintura em preto e branco. Nesse sentido, é um filme realmente extraordinário: tudo se sente como sendo de época. O espectador é transportado para os anos 1910, e pode-se traçar também um comparativo com a reconstituição de Mulher-Maravilha para ver como ambos são cuidadosos nesse aspecto. Além disso, o comportamento de cada personagem e os gestos feitos uns em relação aos outros se mostram completamente dotados de verossimilhança.

Os conceitos de Ozon são sempre interessantes e a narrativa muito bem focada, mas por vezes falta alguma reação mais humana, ficando tudo num plano mais literal. Algumas sequências que necessitariam de mais romantismo se sentem excessivamente demarcadas, sem expansão. Tudo, claro, parece fazer parte do objetivo: estamos assistindo praticamente a um filme não apenas passado nos anos 1910, como localizado na mais cuidadosa discrição. Muitos sentimentos ficam subentendidos e o espectador, para captá-los, deve ter, por vezes, certa paciência.
A atmosfera de Primeira Guerra Mundial do filme carrega uma espécie de sentimento de luto, que é vivenciado dia a dia pela jovem. Nesse sentido, Adrien pode ser uma espécie de libertação deste sentimento, e Ozon lida com isso de maneira a nunca perdermos de vista os personagens centrais. Ozon lida com essa relação de maneira que eles podem estar tentando suprir o sentimento de luto com a descoberta possível de um novo amor. Talvez ele seja mais previsível no modo como retrata isso: em flashbacks ou momentos especialmente felizes, Ozon traz cores para o filme, o que causa uma quebra de atmosfera substancialmente prejudicial, como se estivesse fazendo uma produção de época apenas por certa vaidade artística.

Embora Niney tenha uma bela atuação, é Beer que se destaca: ela mostra uma insegurança e uma tentativa de se manter firme que concede à obra de Ozon seu melhor elemento, além daquele contraponto que ele faz entre a velocidade do trem e a chegada da arte moderna (principalmente no terceiro ato) e a lentidão de se definir por um amor ou a permanência a uma promessa feita anteriormente. O diretor sabe escrever roteiros para figuras femininas, e aqui não é diferente: especialmente inspirada é a relação entre uma escritora e uma jovem em Swimming Pool, assim como a melancólica Isabelle de Bela e jovem. Em certos momentos, lembra um pouco o tom impresso na personagem de Audrey Tautou em Eterno amor por Jean-Pierre Jeunet, que também trata de uma mulher à espera do grande amor desaparecido durante a Primeira Guerra Mundial, transformando Anna numa mulher voltada a uma nova inspiração de felicidade. Ao final, inspirado numa peça de Maurice Rostand, que deu origem a um filme de 1932, Broken Lullaby, Frantz agrada pela sua hábil composição de imagens e pelas atuações, podendo numa segunda sessão ser até melhor apreciado.

Frantz, FRA, 2017 Diretor: François Ozon Elenco: Paula Beer, Pierre Niney, Anton von Lucke, Ernst Stötzner, Marie Gruber, Johann von Bülow, Cyrielle Clair, Alice de Lencquesaing Roteiro: François Ozon Fotografia: Pascal Marti Trilha Sonora: Philippe Rombi Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer, Stefan Arndt, Uwe Schott Duração: 113 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Mandarin Films

 

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