Na vertical (2017)

Por André Dick

Há três anos, o diretor francês Alain Guiraudie lançou no Festival de Cannes o badalado Um estranho no lago, um thriller de suspense que parecia misturar elementos de Zodíaco, de David Fincher, com Parceiros da noite, obra referencial dos anos 80. Agora, em Na vertical, que estreou no mesmo Festival, ele ingressa numa área de estranheza que vai de David Lynch a Leos Carax, passando por outros cineastas com toques de surrealismo, como Buñuel.
Um estranho no lago trazia uma narrativa tão pré-concebida, dirigida a um final em forma de esquema e simbologia, que às vezes dava impressão de falta de envolvimento sentimental do espectador com seus personagens. A solidão, as árvores, a tranquilidade do lago que pode esconder a morte, o cenário cercado por pedras e os faróis noturnos dos carros, tentando iluminar um cenário que parece tão claro durante o dia, indicavam que Guiraudie tentava criar subterfúgios para não explorar suficientemente os personagens, reduzindo suas experiências a trocas de diálogos não tão ousadas quanto as cenas de sexo. Parece que de Um estranho no lago para Na vertical houve um salto do cineasta, com novas escolhas, mais interessantes e mesmo ousadas tematicamente.

O roteirista Leo Breton (Damien Bonnard) caminha por um campo em Lozère, numa atmosfera que evoca algo de Michael Haneke em A fita branca e Caché, e de Bruno Dumont em A humanidade, quando se encontra com Marie (Indie Hair), mãe solteira de duas crianças, que trabalha como pastora na fazenda de seu pai, Jean-Louis (Raphaël Thiéry), com uma espingarda em mãos caso apareçam lobos. Eles logo se apaixonam, e não se deixa nada muito explicado. Na região, também mora Yoan (Basile Meilleurat), um jovem que vive com o velho Marcel (Christian Bouillette), com os quais Leo estabelece uma estranha ligação. Ele tenta convencer Yoan a participar de uma audição para se transformar em ator, mas não tem uma boa receptividade.
Marie tem um bebê com Leo, mas está sofrendo por uma depressão pós-parto, e ele não deseja assumi-la, preferindo ficar na cidade grande e indo ao campo apenas algumas vezes. Guiraudie mostra como todas essas ligações podem estabelecer um patamar cíclico à medida que podem esconder, na verdade, um desejo oculto pertencente a cada personagem. Para desenhar a presença do homem, Guiraudie recorre à figura do lobo e ele torna Leo numa espécie de representação daquele que tenta fugir de uma revelação, mas é levado a ela a cada momento – e os momentos em que ele procura terapia natural com uma médica (Laure Calamy) são os mais estranhos possíveis, assim como há algumas cenas de sexo nos moldes de Um estranho no lago. Guiraudie, a exemplo do que apresentou em seu filme anterior, mostra esse comportamento em geral próximo ao instinto selvagem, daí o roteiro nunca esclarecer muito bem a relação que Leo deseja estabelecer com outras pessoas.

Para tratar da paternidade, Guiraudie elege uma série de escolhas incomuns num filme, assim como para tratar da submissão da mulher em determinados momentos e da tentativa de agradar ao outro. No entanto, o tema em destaque, aqui, é o da fuga: quando Leo não consegue entregar o roteiro a seu produtor, quando se nega a morar com Marie, quando se nega a um comportamento familiar – tudo acaba indicando que ele terá de se dobrar. Guiraudie usa uma metalinguística muito comum a poetas que lidam com o surrealismo, desde Buñuel, passando por Lynch até Carax, para citar alguns dos mais conhecidos. Seu interesse é sempre situar os personagens no limite da convivência natural, para que eles possam ser extraídos dela e colocados numa espécie de universo paralelo, que não se afasta, no entanto, da realidade (e vemos isso claramente na nova temporada da série Twin Peaks, de Lynch). Para isso, o elenco é de suma importância e o destaque absoluto aqui é para a atuação de Damien Bonnard, uma das mais excêntricas do cinema recente. Ele representa o homem indefinido entre a carreira – ser roteirista – e se dedicar à família. Já Christian Bouillette está excepcional, num papel que exige um rigor descompromissado.

A maneira como Guiraudie mostra seu interesse em cuidar do filho, ao contrário de Marie, mostra um sentimento de fundo trágico. Há uma ideia familiar para ele, e suas tentativas de estabelecer contato com Marcel mostram isso, no entanto desequilibradas pela falta de clareza do que realmente almeja. É como se ele quisesse vivenciar a vida alheia, mas ao mesmo tempo não se conforma com isso.
Não que seja um mérito especial, mas Na vertical é um dos filmes mais originais dos últimos anos, mesmo que alguns temas ao final emerjam de maneira um pouco abrupta, devido ao pouco desenvolvimento adotado por Guiraudie para determinados personagens, embora Leo ingresse exatamente no universo ficcional que produz como roteirista, adentrando em sua própria criação. Há um sentimento permanente nele de deslocamento, assim como se mostra ao longo de toda a narrativa, seja caminhando por um campo aberto, seja caminhando embaixo de um viaduto na cidade. A fotografia de Claire Mathon cria uma sensação de distanciamento de tudo, principalmente quando mostra a fazenda durante a noite ou a estrada onde Leo se desloca constantemente. Isso funciona em combinação com a analogia estabelecida entre homens e lobos, extremamente funcional e impactante.

Rester vertical, FRA, 2017 Diretor: Alain Guiraudie Elenco: Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry, Christian Bouillette, Basile Meilleurat, Sébastien Novac, Laure Calamy Roteiro: Alain Guiraudie Fotografia: Claire Mathon Produção: Benoît Quainon, Sylvie Pialat Duração: 100 min. Distribuidora: Zeta Filmes Estúdio: Les Films du Worso

 

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2 Comentários

  1. Antonio Manuel Lopes Amaral

     /  23 de junho de 2017

    Bom dia. Caro amigo, você poderia, por favor, escrever resenhas de filmes dos ícones Gene Hackman e Harrison ford ( sobretudo dos anos 80 e 90), ao menos uma vez por semana? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.

    Responder
    • André Dick

       /  23 de junho de 2017

      Prezado Antonio,

      agradeço por sua mensagem. Aprecio muito esses grandes atores, e há críticas sobre alguns filmes deles no Cinematographe. No entanto, costumo escrever mais sobre lançamentos e filmes antigos que aprecio, sem especificar algum ator ou diretor.

      Agradeço por seu interesse e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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