Rakka (2017)

Por André Dick

Em 2009, Neill Blomkamp surpreendeu o público com sua ficção científica Distrito 9, indicada ao Oscar de melhor filme, e passou a ser visto como uma das promessas entre os novos diretores. Com um orçamento maior e a presença de Matt Damon à frente do elenco, Blomkamp regressou com Elysium, um filme que apostava, como sua estreia, num cenário que mescla os elementos de ficção científica com favelas e exploração de seres humanos vivendo numa Terra combalida, em 2154, Nele, tínhamos no espaço a presença de Elysium, uma estação espacial com mansões e uma vegetação tropical, almejada sobretudo porque conta com um suporte tecnológico que não permite seus moradores terem qualquer tipo de doença. Em 2015, Blomkamp investiu num projeto que mesclava elementos de RoboCop e Short Circuit: Chappie, que conseguia desenvolver bem até a primeira metade os seus personagens para depois se perder em clichês, mesmo com boas atuações do elenco, uma das virtudes do trabalho desse cineasta.

Depois de tentar levar adiante o projeto de Alien 5, que iria ignorar a existência de Alien 3 e Alien – A ressurreição, continuando a história de Aliens – O resgate, Blomkamp não conseguiu fazer seu projeto vir à luz. Somou-se a isso o fato de Ridley Scott estar fazendo a trilogia inicial de Alien. Resolveu, então, desenvolver o Oats Studios para projetos de curta-metragem, a serem lançados pela página do estúdio e pelo YouTube. A tendência é que, a partir desses projetos, ele possa transformá-los em longas, com a ajuda do público.
O primeiro experimento é Rakka, passado em 2020, que mostra a Terra invadida por répteis alienígenas assustadores, levando a humanidade praticamente à extinção. Seria a ideia inicial de Blomkamp para o Alien 5? Eles destroem cidades e constroem sobre obras da humanidade, como a Torre Eiffel, compartimentos que as tornam quase espaçonaves. Blomkamp mostra que os alienígenas usam um líquido escuro e viscoso que transforma o que eles querem na estrutura pretendida e ainda exercem uma influência sobre o cérebro dos humanos. Também passaram a escravizar os humanos; os que escaparam estão escondidos embaixo da terra, num clima pós-apocalíptico nos moldes de Mad Max. No Texas em ruínas, há, porém, um grupo de soldados dos Estados Unidos liderados por Jasper (Sigourney Weaver). O que mais interessa no estilo de Blomkamp é a mescla entre fantasia e realismo, tão bem efetuada, por exemplo numa cena em que a líder visita um espaço cheio de velas, para homenagear a humanidade – tão realista que parece saída de Central do Brasil, na peregrinação dos personagens do filme de Walter Salles.

Jasper vai atrás de Nosh (Brandon Auret), um piromaníaco que constrói bombas e vive num ferro-velho, mas se encontra preso. Ele não tem interesse em ajudar a humanidade, e seu nome subentende o contrário de Noah/Noé. Ao mesmo tempo, a organização encontra Amir (Eugene Khumbanyiwa), que conseguiu escapar dos alienígenas sob efeito dos experimentos. Sarah (Carly Pope), da resistência, tenta convencê-lo a ajudar, levando em conta que ele guarda um segredo consigo. Neste espaço, Blomkamp concentra algumas imagens que dialogam com os filmes de Kathryn Bigelow, a exemplo de A hora mais escura. Se há um elogio maior que se possa fazer é que o espectador realmente gostaria de assistir a uma versão estendida desse curta-metragem, que talvez exista, esperando por uma verba de finalização.
Rakka em finlandês significa “afloramento de rocha no cume de uma colina” (certamente referência ao que fazem os invasores com a paisagem terráquea) e o que se tem aqui, na verdade, é o ressurgimento da carreira de Blomkamp. Com um design de produção fabuloso de Bobby Cardoso e uma bela fotografia de Mannie Ferreira, Rakka tem as principais obsessões do cineasta: a ligação entre homens e uma possível chegada de alienígenas, o interesse pela tecnologia, o clima de Apocalipse. Veja-se, por exemplo, a sequência do alienígena segurando uma caveira shakesperiana antes de lançá-la numa caverna repleta de ossadas: há toda uma tragédia embutida nessa breve sequência. Se Chappie tinha muito pouco dessa efetividade, as visões de Rakka se sentem impressionantes, mesmo com a curta-metragem, desenhando um dos cenários mais assustadores para a humanidade e mostrando que Blomkamp poderia, sem dúvida, acrescentar ao universo da série Alien, mas, ao que tudo indica, vai acrescentar mais ainda com este projeto inovador.

Rakka, EUA, 2017 Diretor: Neil Blomkamp Elenco: Sigourney Weaver, Brandon Auret, Eugene Khumbanyiwa, Carly Pope Roteiro: Neil Blomkamp e Thomas Sweterlitsch Fotografia: Mannie Ferreira Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Mike Blomkamp, Steven St. Arnaud Duração: 22 min. Distribuidora: Oats Estudio

 

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