Twin Peaks – O retorno (Episódios 1 e 2) (2017)

Por André Dick

Assistir a uma nova temporada de Twin Peaks é, antes de tudo, uma realização para quem acompanhava a série nos anos 1990 e teve de aceitar seu encerramento com baixos índices de audiência e uma resposta inconclusiva ao final. O filme, Twin Peaks – Fire walk with me, com sua qualidade notável, ajudou a estabelecer a mitologia dos personagens. Também é uma peça de nostalgia: lembrar que há 25 anos nunca se imaginava que ela regressaria algum dia. Quantas vezes minha esposa – também fã da série – e eu conjecturamos a volta dela, sempre com as negativas públicas de David Lynch, até que… Normalmente, o Cinematographe não fala de séries de TV. Abre uma exceção para uma série que é, na verdade, antes de tudo, cinema e por causa do diretor, particularmente o mais ousado dos últimos 40 anos, ao lado de Terrence Malick.
Ontem, finalmente, os dois primeiros episódios foram lançados pelo Showtime e distribuídos no Brasil pela Netflix, em tempo recorde (em torno de 4 horas depois da estreia nos Estados Unidos). Com uma abertura diferente, mas a mesma música de Angelo Badalamenti, David Lynch regressa depois de 11 anos sem filmar: Império dos sonhos foi seu último projeto cinematográfico. Em sua companhia, o outro criador, Mark Frost. Recordo que em 1990, quando a primeira temporada estreou no Brasil, minha mãe e eu nos tornamos fãs assíduos (ela apreciava especialmente a trilha sonora, que à época lembro de ter comprado em LP, e a interação entre os personagens). Obviamente, não havia as redes sociais para as teorias se proliferarem e não lembro de colegas de escola falando da série, mas havia bastante divulgação nos jornais e cheguei a comprar os livros O diário secreto de Laura Palmer e aquele contendo gravações do agente Cooper desde a infância. Imagino que agora, com a nova temporada, os fãs para isso terão um prato cheio.

Em seus dois primeiros episódios, Twin Peaks é Twin Peaks sem de fato ser como a série antiga. A estranheza e o humor estão lá, mas modulados pela fase cinematográfica de Lynch iniciada em Twin Peaks – Fire walk with me e continuada em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos.

Para quem não quer nenhum spoiler, sugere-se não seguir adiante.

A série tem início com imagens do agente Cooper e Laura Palmer na série antiga e, em seguida, passa para imagens em preto e branco, recordando o primeiro filme de Lynch, Eraserhead. O agente (Kyle MacLachlan, excelente) conversa com o Gigante (Carel Struycken) no Black Lodge, enquanto sai um som estranho de um gramofone, ao que tudo indica o mesmo em que Leland Palmer, pai de Laura, ouvia suas músicas nas primeiras temporadas. A partir daí, Lynch dispara em várias frentes: embora tenhamos a visualização de alguns personagens da série antiga, o episódio se concentra num diretor de escola, William Hastings (Matthew Lillard), de Buckhorn, Dakota do Sul. Ele é casado com Phyllis (Cornelia Guest), preocupada com o jantar, e não se lembra de um crime que teria cometido, o que remete ao filme A estrada perdida. O detetive Dave Mackley (Brent Briscoe), além de tudo, é seu amigo. Ainda vemos em Nova York um jovem, Sam Colby (Ben Rosenfield) filmando uma caixa de vidro com câmeras. Ele sempre recebe a visita de Tracy (Madeline Zima), interessada no que está fazendo.

Lynch obviamente andou vendo filmes de seu pupilo Nicolas Winding Refn – a primeira tomada área de Nova York é idêntica a uma de Refn sobre Los Angeles em Drive e essas sequências deixam claro isso, pela simetria e disposição de luzes no ambiente –, assim como evoca Cosmópolis e Videodrome, de David Cronenberg, diretor com o qual costuma ser comparado, embora ambos sejam muito diferentes. Também há um personagem surpreendente cuja camisa por baixo da jaqueta lembra Sailor de Coração selvagem e, junto com uma gangue, parece ser responsável por matar pessoas. Este primeiro episódio evoca bastante Cidade dos sonhos, principalmente na descoberta de um corpo, nas conversas absurdas entre alguns personagens e na imagem assustadora de uma espécie de mendigo numa cela de cadeia, que remete àquele do final da obra-prima de 2001.
No segundo episódio, Cooper trava novos diálogos com Laura Palmer (Sheryl Lee, extraordinária) e o espectador é reinserido no Black Lodge. Não há mais o anão, e sim uma árvore com uma cabeça de borracha que remete a Eraserhead e a pinturas que David Lynch expôs na Tilton Gallery em 2012. Vemos algumas figuras conhecidas. O policial Hawk (Michael Horse), de origem indígena, conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson, que fez suas cenas durante tratamento contra o câncer, o qual, infelizmente, veio a vitimá-la em 2015). Enquanto isso, a gangue do primeiro episódio tem uma cena-chave com Darya (Nicole LaLiberte). Não é bom dizer muito desta vez. É estranho. É puro David Lynch. Assim como o design de som, feito por ele mesmo.

Quando assistimos a esses dois episódios, fica claro que Lynch é um artista: ele não está interessado em apenas continuar as duas primeiras temporadas; ele quer reinserir novos elementos a partir dos antigos. O estilo é de uma elegância rara para os meios televisivos, pois é cinema em seu grau mais explorado. As cores, a colocação dos objetos em cena, as atuações – tudo é meticuloso. Os mais de dez anos de afastamento das câmeras não prejudicaram o talento do diretor. Ele também não está interessado, pelo menos ainda, a deixar claro o que está acontecendo – e quando ele esteve? Mesmo a ação da polícia para descobrir o que aconteceu dentro de um apartamento é atrasada pelo surrealismo dos personagens. Tendo seu fotógrafo Peter Deming, o que me deixava mais preocupado era o ritmo da série. Explico: Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch e montadora de seus filmes a partir de Coração selvagem, era uma parceira e certamente ajudou a emprestar a agilidade da série original. Aqui, não apenas pelo envelhecimento dos personagens, como pela estranheza geral, não há o mesmo ritmo, mas sim um ainda mais distinto, levando o surrealismo ao limite. Pode-se dizer que nada depois de Império dos sonhos tenha esta escala de originalidade que esses dois episódios possuem. Muitos vão confundir com maneirismos, mas costumam ser os mesmos que não gostam do Lynch mais experimental e consideram o filme de Twin Peaks do cinema uma traição à série. Esta nova série não pode ser entendida sem o espectador ter visto Twin Peaks – Fire walk with me; há referência, inclusive, a Phillip Jeffries, interpretado no filme por David Bowie. Os dois primeiros episódios lembram mais o terror desse filme, com algumas cenas ultraviolentas.

O que se constata aqui é que Lynch e Frost, seu parceiro de criação, querem estabelecer o Black Lodge como explicação para o mal que se comete no universo, e deve ser reparado pela bondade. Fica muito claro aqui o direcionamento que teria tido a série em 1992 se David Lynch não tivesse outros compromissos, tendo dirigido e escrito apenas alguns episódios da segunda temporada. Ou seja, Twin Peaks continua sendo uma série sobre os limites do ser humano e Lynch pretende contar esse retorno em 18 episódios, que ele considera como um filme (talvez o Decálogo desta década). Mas é claro também que quando a história se concentra exatamente na cidade-chave a atmosfera remete aos anos 90, mesmo com a passagem de tempo, principalmente quando mostra Lucy Moran (Kimmy Robertson), Andy (Harry Goaz) e os irmãos Ben (Richard Beymer) e Jerry Horne (David Patrick Kelly) no Greath Northern, estes num diálogo bem-humorado. E o final do segundo episódio evoca Julee Cruise cantando no Bang Bang Bar, desta vez com uma belíssima canção da banda The Chromatics, quando o espectador revê Shelly (Mädchen Amick) e James Hurley (James Marshall). David Lynch – e nunca se disse isso nos últimos 11 anos – está realmente de volta. O cinema (não apenas a TV, okay, Pedro Almodóvar?) agradece. Não duvide: baseando-se nesses episódios de retorno, em termos de cinema, não se verá nada como esta terceira temporada de Twin Peaks neste ano.

Twin Peaks – Episodes 1 & 2, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Kimmy Robertson, Richard Beymer, David Patrick Kelly, James Marshall, Matthew Lillard, Madeline Zima, Ben Rosenfield, Cornelia Guest, Michael Horse, Catherine E. Coulson, Harry Goaz, Carel Struycken, Brent Briscoe, Ray Wise Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 111 min. Distribuidora: Showtime

 

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2 Comentários

  1. Vinicius

     /  9 de junho de 2017

    Obrigado, pelo texto! Traduziste bem o entusiasmo que tenho sentido desde que a Netflix anunciou que exibiria a terceira temporada de Twin Peaks, cujas demais, assim como os dois filmes, eu vi ano passado (ou seja, está tudo “aqui”). Assim como você(s) sou fã de Lynch, a quem considero gênio, e estou muito entusiasmado com esses 5 episódios iniciais. Completamente envolvido e enlevado com o gênio e o universo Lynchiano. Isso pra mim já é uma obra-prima antes de terminar.

    Responder
    • André Dick

       /  9 de junho de 2017

      Prezado Vinicius,

      agradeço por sua mensagem generosa sobre o texto. Fiquei muito feliz que a Netflix tenha conseguido disponibilizar a terceira temporada no Brasil praticamente ao mesmo tempo que é exibida nos Estados Unidos. As séries antigas e o filme são, a meu ver, obras-primas e David Lynch, como você comenta, é um gênio (palavra às vezes usada em excesso para alguns cineastas, mas que no caso dele não me parece exagero). Os cinco primeiros episódios conseguem ser tão inovadores, para a TV e o cinema, que as temporadas de quase três décadas atrás e mesmo com tantos concorrentes no mercado. Também para mim apenas esses cinco episódios constituem uma obra-prima: suspense, drama, humor, surrealismo, como só Lynch conseguiria fazer. Imaginemos ainda o que deve surgir nos próximos.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André.

      Responder

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