Guardiões da galáxia Vol. 2 (2017)

Por André Dick

A equipe da série de ficção científica com grande dose de humor retorna em Guardiões da galáxia Vol. 2, mais uma vez dirigido por James Gunn. A volta era previsível, principalmente pela recepção do original junto ao espectador e uma arrecadação de mais de 700 milhões nas bilheterias, uma surpresa, que antecedeu a de Deadpool pelo pouco conhecimento do público em relação aos personagens dos quadrinhos. E ainda mais surpreendente era que Gunn, autor dos roteiros de duas adaptações para o cinema de Scoby-Doo e da refilmagem de Madrugada dos mortos, havia se destacado na direção à frente apenas de Seres rastejantes e Super.
Na equipe, estão novamente Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), formando os Guardiões da galáxia. A Alta Sacerdotisa Ayesha (Elizabeth Debicki), da raça dos Soberanos, os convoca para proteger baterias de grande valor de um monstro ameaçador, chamado Abilisky, em troca da irmã de Gamora, Nebula (Karen Gillan), que estava tentando roubá-las. Esta sequência, que acontece ao som de “Mr. Blue Sky”, da Electric Light Orchestra, é realmente um dos acertos do universo Marvel: além da mescla entre som e imagens, há uma composição refinada dos ângulos do planeta que remetem ao início de Duna, de David Lynch.

Por causa da atitude de um dos guardiões, a Soberana ataca a nave deles com inúmeros drones, quando surge a figura de Ego (Kurt Russell), o pai de Quill, acompanhado de Mantis (Pom Klementieff). Enquanto isso, Ayesha contrata Yondu Udonta (Michael Rooker), o pai adotivo de Quill, para perseguir os Guardiões. É neste momento que Gunn desvia do humor habitual do primeiro, apesar de manter a trilha sonora, para mostrar algumas das cenas mais fortes do universo Marvel.
Ao contrário do primeiro filme, Guardiões da galáxia Vol. 2 tem uma tentativa de abordar uma relação significativa entre o que seria a origem de Quill e a amizade com seus companheiros. Se no primeiro a ligação era com a mãe, desta vez é com o pai, e Kurt Russell entrega um personagem ambíguo na medida certa, num traço de composição em que ele vem se especializando, desde Os oito odiados. O humor, usado em larga escala no primeiro, está presente, mas de maneira mais contida, principalmente por meio do Groot, a melhor participação da narrativa. É possível vislumbrar uma centelha mais dramática em Chris Pratt, assim como em Michael Rooker, embora Zoe Saldana novamente não ganhe o espaço necessário. Bautista novamente tem boa atuação como Drax, principalmente na sua ligação com Mantis, muito bem interpretada por Klementieff. Não temos aqui as presenças de Josh Brolin (Thanos), Glenn Close (Irani Rael/Nova Prime), John C. Reilly (Rhomann Dey) e Benicio Del Toro (Taneleer Tivan), que de certo modo enriqueciam o elenco original, mas as ausências são supridas não apenas pelas atuações do elenco central como pelos coadjuvantes e pela aparição de Sylvester Stallone.

Como no primeiro, há um padrão interessante de humor despertado por Gunn por meio de seus personagens, com um ritmo quase de animação mas sem se perder na caricatura e sim inserindo os personagens numa ação quase sempre surpreendente – no comportamento do Groot, por exemplo, quando ele precisa ativar uma bomba, embora seus olhos digam o contrário sobre essa atitude extrema diante de uma ameaça. Não apenas por meio de Quill, é visível que Gunn tenta inserir um caráter mais dramático na sua narrativa, principalmente nas expressões de Rocket e do Groot sendo, em determinado momento, colocado numa situação complicada, ou de Gamora e Nebula, sempre inseridas num conflito não solucionado. Há, inclusive, diálogos com uma conotação mais adulta do que o primeiro, de Drax e Quill em relação a Mantis. A mescla resulta interessante não apenas pela interação de elenco, como pelos bons diálogos de Gunn.
Além disso, ainda mais do que o primeiro, a direção de arte de Guardiões da galáxia Vol. 2 é um triunfo, até mesmo de simplicidade, com o design das naves feitos com uma mistura entre CGI e uma estranha coloração humana, aqui se destacando o amarelo fabuloso da raça dos Soberanos. E uma influência visível do Flash Gordon oitentista produzido por Dino de Laurentiis, mas, ainda mais, um cuidado visível com a ambientação fantástica, auxiliada pela fotografia de Henry Braham (A lenda de Tarzan).

O planeta em que a nave dos guardiões cai evoca também Endor de O retorno de Jedi e Pandora de Avatar, e Gunn desenha uma sequência ultraviolenta de maneira sintética apenas com o uso da trilha sonora. Percebe-se o cuidado que o diretor possui em relação aos cenários e à maneira como seus personagens interagem com eles. Como no primeiro, há uma certa profusão de CGI e uma competência técnica que às vezes se sobressai à emoção, mas ainda assim o salto do primeiro para o último ato é interessante.
Se o primeiro lidava com o conhecimento entre si dessa equipe, Gunn parece tentar neste segundo o conhecimento do que leva cada um a se sentir feliz junto uns dos outros. Isso não ocorre sem uma certa amargura e um punhado de decepção no que se refere ao passado. Isso é o que torna este segundo mais diferente do primeiro: mesmo sua trilha sonora mais desconhecida, embora muito boa, contribui para um afastamento do apelo mais pop do original, em que passos de dança podiam significar também um duelo para salvar o universo. Os personagens parecem estar em busca de uma explicação para o que mesmo fazem, e esta explicação pode estar dentro deles mesmos. Aparentemente, esta abordagem poderia ser melhor explorada em alguns momentos, mas mesmo assim se sobressaem aqueles mais íntimos da trama, quase ausentes no original. Isso torna Guardiões da galáxia Vol. 2 surpreendentemente emotivo.

Guardians of the galaxy Vol. 2 Diretor: James Gunn Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Kurt Russell, Sylvester Stallone, Sean Gunn Roteiro: James Gunn Fotografia: Henry Braham Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Kevin Feige Duração: 136 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Studios

 

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2 Comentários

  1. Thaislan Rodrigues

     /  9 de maio de 2017

    Gostei mais deste do que do primeiro. Achei-o mais catártico, emocional, como você apontou. O primeiro Guardiões só me provocou indiferença: saí do cinema da mesma maneira que entrei. E não entendi a aclamação que o filme recebeu. Mas este segundo, não – ele me pegou.

    Responder
    • André Dick

       /  10 de maio de 2017

      Prezado Thaislan,

      agradeço por seu comentário sobre o filme e a crítica. A sua expressão “mais catártico” pode definir este novo Guardiões. Eu havia gostado do primeiro, mas não como esperava. Este, além das cenas de ação excelentes, possui uma consciência maior sobre cada personagem e uma parte emocional bem mais trabalhada, além de ter apreciado mais o design de produção. E isso também me fez gostar mais dele.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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