Fragmentado (2017)

Por André Dick

A melhor notícia de Fragmentado é a volta de M. Night Shyamalan ao posto das grandes bilheterias (até agora, a partir de um orçamento de 9 milhões já fez 257 milhões de dólares). Embora o anterior, A visita, já tivesse recuperado um pouco seu crédito junto aos produtores (orçamento de 5 milhões para arrecadação de 98), O último mestre do ar e Depois da terra, com seus orçamentos típicos de blockbuster, haviam rendido pouco, além das críticas em coro apontando que ele havia perdido seu talento. Em Fragmentado, ele parte da situação de três jovens, Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy) sendo sequestradas num engarrafamento, quando estão dentro do carro do pai de uma delas, por Dennis, uma das 23 personalidades de Kevin Wendell Crumb (James McAvoy). Ele, obviamente, tem um grave transtorno e visita frequentemente a psiquiatra Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), certamente uma homenagem a Louise Fletcher, a atriz de Um estranho no ninho.
As meninas logo percebem que ele surge com outras identidades, como a de uma criança, e imaginam uma maneira de escaparem do lugar onde ficam presas, que lembra bastante tanto Beijos que matam e O silêncio dos inocentes. A atuação de Anya Taylor-Joy, o destaque de A bruxa, talvez seja o toque mais surpreendente de Shyamalan, que novamente aparece aqui em uma ponta, e Buckley também convence.

Claire tem alguns flashbacks que mostram ela criança (em atuação de Izzie Coffey) em momentos de caça ao lado do pai (Robert Michael Kelly) e do tio (Brad William Henke). O que teria a ver a caça, em que o tio finge ser um animal, com a situação na qual ela se encontra? Haley Lu Richardson, que faz a melhor amiga da personagem de Hailee Steinfeld em Quase 18, também proporciona bons momentos, como uma espécie de oposto de Claire, sendo uma jovem mais popular no colégio. No entanto, Fragmentado se sente como uma decepção de Shyamalan principalmente em relação ao filme A visita, mesmo com todas as falhas que este possuía: a grande atuação de McAvoy não sustenta o filme. A partir de determinado momento ela é muito fragmentada, no mau sentido, não desenvolvendo de forma satisfatória cada uma de suas personalidades, não a ponto de criar um impacto, que certamente era o objetivo de Shyamalan, e a elaboração dos demais personagens é ligeira demais. Há um problema de narrativa, com as intrusões da psiquiatra de modo muito evasivo, não compondo um núcleo capaz de fazer a história render com o potencial que demonstrava ter ao menos nos primeiros vinte minutos.

O lugar onde ele prende as jovens não deixa de lembrar não apenas um labirinto humano, como também a falta de passagens para um lado equilibrado – ainda assim, em se tratando do diretor, poderia ser melhor explorado. Aqui, o mote parece ser aquele que envolve a infância: não por acaso, uma das identidades de Kevin é a de uma criança. Por meio dela, Shyamalan, assim como em quase todos os seus filmes, é possível imaginar o que vai acontecer na narrativa.
Seus filmes mais recentes dele, tão criticados (Fim dos temposO último mestre do ar e Depois da terra, por exemplo), têm qualidade, por isso não se exige que sua carreira dê uma guinada: ele realmente não a oferece em Fragmentado, baseando-se em temas simples do gênero de suspense e alguns toques de John Carpenter e Tobe Hooper (alguns movimentos de câmera lembram de O massacre da serra elétrica) e, principalmente, Dragão vermelho (da série de Hannibal Lecter). Há elementos que remetem à sua filmografia, que tem um atrativo por personagens confinados: em Sinais, numa fazenda; em A dama na água, num condomínio; em A vila, obviamente numa comunidade de campo. Assim como ele sempre gosta de mostrar personagens solitários: em Corpo fechado, O sexto sentido e O último mestre do ar, todos são, de certo modo, fechados em seu mundo. Kevin Wendell Crumb é a representação máxima, além de desequilibrada, deste traço.

E, claro, há sua movimentação de câmera sempre particular, construindo com ela parte do suspense de Fragmentado, que, no entanto, não cria uma solidez. Shyamalan desperdiça as personagens de Marcia e Casey, que certamente renderiam mais em combinação com a personagem de Claire durante mais tempo do que efetivamente acontece. Sente-se falta da espontaneidade de seu experimento anterior, A visita, que aproveita muito bem o cenário restrito para compor uma fábula assustadora.
Por outro lado, se temos um final sem uma grande revelação, ele é mais implícito do que o restante da narrativa, trabalhando com os conflitos internos de cada personagem, o que é uma característica do diretor muitas vezes não reconhecida suficiente. Ele também mostra que Shyamalan quer trabalhar com temas às vezes longe da superfície imediata. Em relação à grande parte da crítica destacar que Fragmentado é um grande filme, na verdade serve apenas para inventar que um cineasta que nunca perdeu seu talento, mesmo nos seus momentos mais conturbados, de uma hora para outra o reencontrou. Não é desta vez que ele apresenta seus melhores momentos, no entanto traz características capazes de interessar, de modo geral, o espectador. Isso se deve ao elenco e a seu estilo geralmente interessante.

Split, EUA, 2017 Diretor: M. Night Shyamalan Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Sebastian Arcelus, Brad William Henke, Izzie Coffey Roteiro: M. Night Shyamalan Fotografia: Mike Gioulakis Trilha Sonora: West Dylan Thordson Produção: Jason Blum, M. Night Shyamalan, Marc Bienstock Duração: 117 min. Distribuidora: Universal Estúdio: Blinding Edge Pictures / Blumhouse Productions

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4 Comentários

  1. FERNANDO OLIVEIRA

     /  30 de março de 2017

    André, pra variar suas críticas são excelentes.

    Tenho apenas uma contribuição numa troca de nomes que você cometeu. No texto, você diz que a atriz Haley Lu Richardson é o destaque de A Bruxa, quando na verdade, é a Anya Taylor-Joy.

    Abs!

    Responder
    • André Dick

       /  30 de março de 2017

      Prezado Fernando,

      agradeço novamente pelo comentário generoso e por chamar a atenção para este erro (lamentável); já efetuei a mudança.

      Volte sempre!

      Abraços!
      André

      Responder
  2. Acho que assisti com expectativas demais. Cheguei até a acelerar uns minutos, depois de uma hora assistindo. Senti sono, achei arrastado e umas partes entediantes. Previsível e com muitos furos na parte que relacionada à psicóloga. Me decepcionei. E sou muito fã de Shyamalan, de McAvoy, de suspenses/horror e filmes que tratam de transtornos psiquiátricos. Esperei um plot twist que não aconteceu.

    Responder
    • André Dick

       /  10 de abril de 2017

      Prezado,

      agradeço por seu comentário. Eu também tinha certa expectativa em relação ao filme de Shyamalan, principalmente por ter apreciado o anterior dele, A visita, e muitos falarem que este era muito superior. Mas, a partir da segunda metade, ele fica andando em círculos e tudo o que se relaciona com a psicóloga é mal trabalhado, além da parte final ser, conforme você observa, sem a surpresa necessária. A premissa é muito boa, mas Shyamalan prefere conservá-la mais no plano conceitual.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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