Fome de poder (2017)

Por André Dick

Em Fome de poder, uma cinebiografia sem os elementos típicos do gênero, Michael Keaton interpreta Ray Kroc, um vendedor ambulante que avança pelas estradas do interior dos Estados Unidos em 1954, vendendo aparelhos de milk-shake. O início parece lembrar um pouco as imagens de Carol, um road movie, sem a tentativa, no entanto, de estabelecer sentimentos entre os personagens – o que eles têm a apresentar são negócios a serem concretizados. Por causa de um pedido maior do que o comum, Kroc viaja até San Bernardino, Califórnia. Lá ele conhece a primeira lanchonete do McDonald’s, assim como os irmãos que a projetaram, Maurice (John Carroll Lynch) e Richard McDonald (Nick Offerman). Apresentado aos bastidores da criação, logo tem interesse em fazer parte do projeto, visualizando uma possível franquia capaz de se estender por todo o país. Para isso, ele tenta convencer quem não pensa o mesmo. Com a esposa Ethel (Laura Dern) como fonte de apoio, Kroc tenta encontrar, afinal, um negócio capaz de fazê-lo se consagrar.

Essa linha de argumento lembra bastante A rede social, quando Sean Parker visualiza de fora a criação de Zuckerberg e tenta convencê-lo a expandir sua ideia. Roy é do tipo compenetrado, que não deseja fazer mais nada depois de vislumbrar essa possibilidade de realmente ganhar dinheiro. Vendo como os hambúrgueres e as batatas fritas são preparados, ele pretende aplicar o mesmo rigor em todas as unidades que deseja abrir depois de assinar um contrato com os irmãos inventores. Como extrair potencial de uma história que parece mais inclinada a um documentário sobre negócios a serem feitos? Sobre a empresa que popularizou o fast-food?
Se Fome de poder tem um grande mérito é a atuação de Michael Keaton, fazendo jus a seu grande momento no cinema, logo depois de Birdman e Spotlight. Ao contrário desses filmes, no entanto, Keaton volta a apresentar certos trejeitos de Beetlejuice. Ele faz um sujeito que não é exatamente antipático, mas bastante frio em seu modo de comportamento, com uma certa alegria calculada. Isso não muda quando conhece o proprietário de um restaurante, Rollie Smith (Patrick Wilson), e sua esposa Joan (Linda Cardellini); pelo contrário: tudo se mostra conforme seu planejamento. É interessante como Kroc visualiza a empresa a ser colocada em expansão como um símbolo dos Estados Unidos e uma espécie de lugar onde não as famílias se reúnem, mas uma comunidade. Nesse sentido, aponta-se que Fome de poder trabalha bem com as potencialidades temáticas, mesmo que nunca ingresse naquele campo que Linklater trabalhe com impacto em Fast food nation, sobre os bastidores dessa indústria.

O diretor John Lee Hancock fez há alguns anos um filme visualmente muito parecido – outro grande mérito de sua direção –, chamado Walt nos bastidores de Mary Poppins. Se lá ele mostrava como agia o criador Walt Disney, aqui ele revela como iniciou a rede de lanches internacional que é lembrada principalmente pela efetiva entrega de seus produtos para consumo num curto espaço de tempo. Seria algo previsível não fosse a maneira como Hancock filma, com bela fotografia de John Schwartzman e trilha sonora de Carter Burwell (e os 25 milhões de orçamento aparecem na tela).
Ele, infelizmente, não recebe um roteiro, escrito por Robert D. Siegel, sem arestas, problema com o qual já lidava em Um sonho possível, o que é lamentável quando se lembra que realizou a história de uma das melhores obras de Clint Eastwood, Um mundo perfeito. Quando as coisas mudam drasticamente no momento em que Ray conhece Harry Sonneborn (BJ Novak), um consultor financeiro que o leva a um caminho específico capaz de inserir Fome de poder em vários temas, como fidelidade, ganância, traição, mas não explica exatamente por que, por exemplo, Crok nunca se reúne com os irmãos McDonald, conversando com eles apenas por telefone (e nem eles demonstram especial interesse pelo que Crok está fazendo), ou por que sua esposa jamais chega a frequentar o seu negócio brilhante. Nesse ponto, os atores, de modo geral, são subaproveitados, a começar por Laura Dern, embora Carroll Lynch e Offerman sejam convincentes e Cardellini discretamente insinuante.

Principalmente por causa de Keaton, o filme transita entre as aspirações de uma pessoa ao grande sonho americano e a maneira como ela tenta possuir o sonho de outra sem ter exatamente o merecimento disso. Hancock desenha uma linha tênue, em que vemos um Crok extremamente dedicado, enquanto os irmãos McDonald parecem até acomodados, e na qual os personagens parecem estar atrás dele em termos de agilidade e esperteza. Não deixa de ser uma limitação narrativa, principalmente quando a obra desenha seu arco final, talvez não mostrando exatamente como as coisas aconteceram e sim como Hancock imagina que causaria um impacto maior no espectador. Ainda assim, é interessante como o diretor desenha essa visão gloriosa de uma marca que é comparada a outras instituições marcantes de uma cidade com uma visão até certo ponto bastante sombria e pouco alegre, mesmo com o sol quase sempre brilhando e os arcos dourados reluzindo à noite. É um filme sobre parte da história dos Estados Unidos por meio de uma marca. Se não chega a ser uma propaganda (pergunta-se se não seria uma antipropaganda), Fome de poder atinge elementos de cinema de qualidade.

The founder, EUA, 2017 Diretor: John Lee Hancock Elenco: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Linda Cardellini, Patrick Wilson, B. J. Novak, Laura Dern Roteiro: Robert D. Siegel Fotografia: John Schwartzmann Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Don Handfield, Karen Lunder, Jeremy Renner, Aaron Ryder Duração: 115 min. Distribuidora: Weinstein Company Estúdio: FilmNation Entertainment, The Combine, Faliro House Productions S.A.

 

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2 Comentários

  1. Encontrei essa resenha pelo seu comentário no Omelete. Ótima resenha, muito bem escrita.

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    • André Dick

       /  23 de março de 2017

      Prezado Jóckisan,

      agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica!

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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