Moonlight – Sob a luz do luar (2016)

Por André Dick

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O diretor e roteirista Barry Jenkins lançou em 2008 sua primeira obra, Medicine for melancholy, cujo título poderia servir como pista básica para o estilo que apresenta na obra seguinte, que vem precedida por várias indicações a prêmios e recepção exitosa. Baseado na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell Alvin McCraney, Moonlight – Sob a luz do luar apresenta a trajetória de Chiron (Alex Hibbert), cujo apelido é “Little” e que se vê sempre perseguido por colegas da escola, por causa de seu jeito tranquilo. Num determinado dia, ele é ajudado por Juan (Mahershala Ali, excepcional em sua discrição), nascido em Cuba, que vende drogas e leva Chiron para a casa da namorada, Teresa (Janelle Monáe). O menino não gosta de conviver com a mãe, Paula (Naomie Harris, comovente), que está sempre às voltas com novos homens e problemas emocionais, e tem como melhor amigo Kevin (Jaden Piner).

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Já mais velho, Chiron (Ashton Sanders) continua a sofrer intimidações e bullying por parte de colegas, como Terrel (Patrick Decile), e continua a ser amigo de Kevin (Jerome Jharrel). Sua mãe tornou-se viciada e ele continua a buscar refúgio na casa de Teresa. Quando se percebe, ele já está adulto (Trevante Rhodes) e com características semelhantes a uma pessoa que tinha como referência.
É difícil falar de Moonlight sem recorrer a algumas informações básicas, que já constam no trailer, mas ainda mais difícil não falar de seu trabalho de fotografia magistral de James Laxton, em que a luz do luar do título se reproduz nas imagens e cores da narrativa, quando o personagem está em determinadas situações-chave.
O que mais chama a atenção é como Barry Jenkins se afasta de um determinado estilo concebido por Spike Lee em Faça a coisa certa e que acaba refletindo em boa parte das obras com temáticas de que trata Moonlight, a exemplo do clássico Os donos da rua e o recente Dope. Jenkins escolhe uma narrativa com trilha sonora quase ausente, usando muito os ruídos da natureza, a exemplo do mar em algumas sequências, embora a trilha de Nicholas Britell, quando surja, seja comovente.

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Ele tem um olhar muito interessante para a condição de Cherrie, assim como extrai grandes atuações de cada componente do elenco, visualizando a sua trajetória como Linklater faz com o jovem de Boyhood: há um sentimento de solidão fortíssimo em Moonlight, de elementos que se estendem ao longo do tempo e que não deixam mais de fazer parte do indivíduo, de lembranças que perduram e atitudes que, por mais que se esforce, não podem ser perdoadas. Ainda assim, chama a atenção como Jenkins aborda os assuntos com uma sabedoria calma e, na condução de algumas cenas, quase poética (numa determinada cena, um jukebox serve como um regresso a outra época).
A maneira como Jenkins filma o personagem, mostrando-o muitas vezes pelas costas, lembra o estilo de Terrence Malick ou Aronofsky em certos instantes. Há um manuseio de câmera que às vezes parece flutuar e vem exatamente de Amor pleno e A árvore da vida, no entanto Jenkins costuma se concentrar mais no rosto de cada personagem e às vezes usa a câmera lenta para extrair a raiva de determinados comportamentos, como o da mãe de Cherry em determinado momento. Este estilo se fecha perfeitamente com a maneira que Jenkins deseja abordar os temas na narrativa: este é um filme sobre um menino que cresce, mas que continua menino, e não consegue se resolver emocionalmente diante das novas direções que sua vida toma.

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Os atores que representam Cherrie nas três fases da vida apresentam características que levam a crer que parecem realmente a mesma pessoa, e este é outro acerto de Jenkins. O personagem acaba tendo uma ênfase que não se dá por meio dos diálogos (eles quase inexistem de sua parte) e Jenkins dá uma espécie de transcendência a momentos focados do cotidiano. É como em Linklater: pequenos gestos se tornam eternos, mesmo que no momento em que acontecem pareçam dispensáveis ou efêmeros. Há elementos, ao mesmo tempo, que evocam uma ligação com o recente American honey: esta América do filme, ou mais especificamente Miami, é reveladora do comportamento humano.
Interessante, igualmente, como se mostra a analogia entre o mar (símbolo principal da história, onde em determinado momento se mostra o encontro do personagem com a segurança e com a memória alheia) e a água de casa, o gelo depois da violência e o sangue estampado no rosto quando o personagem, depois de determinada ocorrência, se olha no espelho. Durante quase todo a narrativa, ele tem receio justamente de se enxergar, de saber o que realmente deseja em relação ao que se passa à sua volta, e isso se mostra ainda mais quando Jenkins lança a analogia entre as cores de sequências diferentes para interligá-las. Se para alguns isso pode soar apenas visualmente interessante, estilo sobre a substância, é preciso dizer que ele realmente consegue efetuar um desenho para cada símbolo que vai evocando, principalmente mais ao final, de maneira comovente. Essas cenas dispersas parecem banhadas literalmente pela luz do luar, assim como o momento definidor para o sentimento de Cherry se dá à noite em frente ao mar. É uma obra absolutamente comovente, sem fazer nenhuma força para que isso aconteça.

Moonlight, EUA, 2016 Diretor: Barry Jenkins Elenco: Mahershala Ali, Janelle Monáe, Naomie Harris, Ashton Sanders, Jharrel Jerome, Trevante Rhodes, André Holland Roteiro: Barry Jenkins, Tarell McCraney Fotografia: James Laxton Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Adele Romanski, Dede Gardner, Jeremy Kleiner Duração: 110 min. Estúdio: A24 / Plan B Entertainment

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