Estrelas além do tempo (2016)

Por André Dick

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Em Estrelas além do tempo, o diretor Thedore Melfi utiliza as mesmas características já apresentadas em seu filme anterior, Um santo vizinho: uma história inspiradora com elenco em grande momento. Se nesse Melfi mostrava Bill Murray como um senhor de idade em transformação ao conhecer uma criança que muda sua vida, na nova obra os personagens estão também a um passo da mudança que pode ocasionar um impacto, principalmente na época enfocada. Ambientado em 1962, quando a segregação racial estava vigente nos Estados Unidos, o roteiro de Melfi com Allison Schroeder, adaptado de um romance de Margot Lee Shetterly, mostra um trio feminino à frente seu tempo. Katherine Johnson (Taraji P. Henson) trabalha numa equipe de mulheres negras na Nasa, ao lado de Mary Jackson (Janelle Monáe), que pretende ser engenheira, e Dorothy Vaughan (Octavia Spencer), que supervisiona essa equipe. Porém, elas trabalham num departamento à parte, onde não há os mesmos direitos dos demais.

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Para enfrentar o sucesso dos russos na ida para o espaço, Al Harrison (Kevin Costner, lembrando o Jim Garrison de JFK), diretor do Space Task Group, precisa providenciar a ida de um norte-americano às estrelas. Katherine passa a fazer parte de sua equipe para obter cálculos exatos para a programação de viagens, mas precisa se remeter ao engenheiro principal Paul Stafford (Jim Parsons). Extremamente perspicaz com os cálculos, ela logo se torna uma referência em seu departamento, mesmo que precise se deslocar, de forma inconveniente, todos os dias, do prédio onde está trabalhando, por motivo de segregação e sem dizer aos colegas.
As suas amigas também tentam seguir seus caminhos, como Dorothy, que tenta uma promoção, mas é barrada sempre por Vivian Mitchell (Kirsten Dunst),  e está preocupada com a chegada de computadores da IBM numa sala próxima da sua. Já Mary Jackson tenta entrar em aulas de engenharia, destinadas apenas aos homens brancos. Em meio à rotina, surge a figura do coronel Jim (Mahershala Ali), que, infelizmente, não é tão aproveitado quanto sugere a boa interpretação do seu ator.

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Com uma ótima direção de arte e música de notas comoventes de Hans Zimmer, Pharrell Williams (um dos produtores) e Benjamin Wallfisch, além da bela fotografia de Mandy Walker, constituindo de fato uma atmosfera que insere a narrativa nos anos 60, Estrelas além do tempo traz à discussão tanto os sonhos quanto o racismo do período enfocado. Se ele não desenvolve totalmente alguns personagens – mesmo a relação do trio se dilui um pouco, quando não vemos uma compartilhar sua realização pessoal com a outra, extraindo parte de sua dramaticidade –, este filme desenha bem a tentativa de ser lembrado e pertencer à história. Com alguns momentos que lembram Os eleitos, de Kaufman, por evocar a mesma situação, na figura de John Glenn (Glen Powell, numa bela participação), Melfi não chega a armar conflitos intensos entre os personagens; tudo transcorre de maneira calma e bem feita.
Em certos momentos, ele evoca, igualmente, Histórias cruzadas, ao tratar de um tema delicado de forma bem-humorada e com cenas de apelo direto (talvez, sob certo ponto de vista, forçadas), sobretudo aquelas protagonizadas por Costner. Pode-se imaginar por que Melfi, afinal, não utilizou tais personagens para de fato tratar os temas de forma espinhosa: não era seu objetivo, e nem por isso o material que tem em mãos diminui. Ele não se concentra no problema do racismo em si e sim em como reagir a ele, de forma contundente e individual. O melhor momento, nesse sentido, é aquele em que Katherine se dirige de maneira oportuna a seus colegas de trabalho; é o melhor momento da atuação de Henson.

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No elenco, a atuação de Henson é bela nos momentos certos, e Spencer é competente como é de forma habitual, num papel à altura que teve em Histórias cruzadas, pelo qual recebeu o Oscar de atriz coadjuvante, mas é Monáe (de Moonlight) que se destaca nas cenas em que interagem, assim como Dunst entrega uma personagem que poderia ser maquiavélica em uma interpretação discreta, tal como Parsons, embora este numa figura pouco desenvolvida, sem aproveitar o seu potencial, já revelado antes no drama The normal heart. Não se entende como seu personagem não possui, ao longo de toda a narrativa, uma conversa substancial. Ali, por sua vez, é um destaque como em Moonlight: sua calma ressoa em todas as cenas em que aparece. Todos eles fazem de Estrelas além do tempo um filme interessante sobre como a corrida espacial pôde inspirar figuras diferentes a seguirem suas aspirações. Alguns dirão que este filme tende a glorificar ainda mais o destaque aos astronautas, o que se trata de um pensamento tendencioso: sob esse ponto de vista, seriam apenas destacáveis aqueles que surgem, nesta história, sob holofotes. Ou seja, o preconceito passa a ser justamente em relação às figuras que fazem um trabalho que não se torna conhecido pela maioria das pessoas, mas tampouco deixa de ser essencial para a chegada do homem às estrelas. Sob esse ponto de vista, o preconceito passa a existir de modo enviesado, igualmente sem justificativa. E não é disso que obviamente Estrelas além do tempo trata.

Hidden figures, EUA, 2016 Diretor: Theodore Melfi Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Jim Parsons, Mahershala Ali, Kirsten Dunst Roteiro: Allison Schroeder, Margot Lee Shetterly, Theodore Melfi Fotografia: Mandy Walker Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer, Pharrell Williams Produção: Donna Gigliotti, Jenno Topping, Peter Chernin, Pharrell Williams, Theodore Melfi Duração: 127 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Chernin Entertainment / Fox 2000 Pictures / Levantine Films

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