Jackie (2016)

Por André Dick

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Depois de receber o Oscar de melhor atriz por Cisne negro, Natalie Portman poucas vezes teve seu talento novamente aproveitado, e se destacou, nos últimos anos, especialmente nos poucos minutos de tela em Cavaleiro de copas, de Malick, como uma das namoradas do roteirista de Hollywood Rick, feito por Christian Bale. É uma participação quase sem falas, baseada em gestos, e que Portman converte numa das melhores de sua carreira, que inclui ainda peças como O profissional, dos anos 90, as prequelas de Star Wars, Closer, V de Vingança e os dois filmes da série Thor. Uma grande atriz não precisa percorrer a calçada da fama e estar presente em tweets todos os anos como Meryl Streep: é em papéis específicos que ela consegue brilhar como poucas outras em toda a sua carreira. Neste filme do chileno Pablo Larraín, ela interpreta Jacqueline Kennedy, esposa de JFK quando aconteceu o assassinato mais tempestuoso dos Estados Unidos na década de 60, que repercute até hoje.
Basicamente, é o relato de Jackie ao jornalista Theodore H. White (Billy Crudup), quando ela lembra dos acontecimentos que marcaram o dia fatídico com seu marido e presidente (feito por Caspar Phillipson) e o que transcorreu depois, com a posse de Lyndon Johnson (John Carroll Lynch), ao lado da esposa Lady Bird (Beth Grant), a ligação com Bobby (Peter Sarsgaard), irmão do presidente, e sua amizade com a secretária social Nancy Tuckerman (Greta Gerwig) e Bill Walton (Richard E. Grant). Todas essas ligações vão se desenhando de maneira interessante pelas lentes de Larraín, captando uma atmosfera de desespero e consternação diante do ocorrido.

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Para uma obra que parece um relato histórico, Jackie possui uma profundidade no drama, graças à maneira como Portman se apresenta longe e à frente das câmeras. Ela concede uma grandeza trágica a essa primeira dama, e suas conversas com Bobby e a secretária social se transformam em referências para entendê-la, assim como quando conversa com um padre (John Hurt, excelente, em um dos seus últimos papéis). Tudo isso poderia resultar em apenas um dos tantos relatos históricos cansativos que assistimos na televisão, em que se eliminam as falhas da figura evocada para tecer um panorama perfeito.
Larraín é um diretor de talento, como já havia mostrado na sua análise sobre a disputa política em No, e já havia trabalhado no gênero de cinebiografia com Neruda, um dos favoritos ao Oscar de filme estrangeiro antes de anunciarem os pré-finalistas, contudo mais exatamente no primeiro não exibia o domínio narrativo que possui aqui. Jackie é uma obra belíssima, no sentido tanto das atuações, principalmente de Portman, capaz de rivalizar com a atuação de Huppert, quanto na parte técnica. A trilha sonora de Mica Levi (que antes apresentara um trabalho excêntrico em Sob a pele) e a fotografia de Stéphane Fontaine (de Elle) ajudam a dar uma sustentação notável, assim como o design de produção da Casa Branca: cada elemento está ali para agir em conjunto com o restante.

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Além de Larraín extrair grandes atuações de todo o elenco, o que mais chama atenção, contudo, é a maneira como o cineasta transmite as sensações de cada personagem. Há um sentido de solidão diante do inesperado, uma angústia que não consegue se desprender do corpo e puxa o enfrentamento de toda uma existência. Jackie, depois do acontecimento, vê toda sua vida se transformar em horas, e o que lhe resta é tentar projetar imediatamente o que pode acontecer a seguir. O roteiro de Noah Oppenheim (o mesmo, surpreendentemente, de Maze Runner) é eficaz na maneira como liga passado e presente (o da entrevista) e como deixa algumas lacunas para o espectador preencher, sobretudo quando Jacqueline precisa preparar o enterro do marido. O político, que existia por exemplo em JFK, de Oliver Stone, acaba sendo diluído em meio a comportamentos de bastidores que oscilam entre o drama implacável e a simples necessidade de esquecer o que aconteceu.
Larraín transforma cenas aparentemente simples, como a chegada dos Kennedy ao Texas, numa aula de ligar cinema e história, sempre aproximando a câmera das reações de Jackie e dando oportunidade a Portman de entregar nuances que não seriam vistas de outra maneira. Outro bom momento, nesse sentido, é quando ela conversa com o motorista do carro que transporta o caixão de JFK e presencia o silêncio abalado de Bobby, uma figura que empunha determinado poder capaz de fazer Lyndon Johnson se curvar em sua cadeira e cujos negócios, como lembra Jackie, não são plenamente estabelecidos. O belo figurino que ela veste é como se fosse um contraponto à sua angústia, mais exatamente quando ela chega ao quarto da Casa Branca depois do assassinato e visualiza as manchas de sangue nele. Há uma primeira dama que aparece em frente às câmeras, forçando uma fala perfeita, quase robótica, e outra justificadamente abalada, nos bastidores.

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Mas atenta, principalmente, a alguns momentos-chave, por exemplo quando Jackie se limpa em frente a um espelho depois do atentado e quando testemunha a passagem de poder, como se estivesse, num prazo curto de tempo, saindo da história para ingressar no temido esquecimento. Muitas vezes, ela compara o que está acontecendo a ele com o que aconteceu a Abraham Lincoln, e há uma ligação disso com o momento em que ela e JFK recebem uma equipe de TV na Casa Branca para mostrar a reforma que foi realizada nela, em razão de Jackie, quando se criou um quarto e a conservação de peças históricos desse presidente referencial para a extinção da escravatura, como já vimos em Lincoln. Há breves entraves nessa sequência em relação ao restante da narrativa, assim como é mostrada a entrevista com o jornalista, que poderiam servir apenas como introdução.
No entanto, em relação a alguma tentativa de tornar as imagens de JFK e Jackie em irretocáveis, nada mais falso: a coragem aqui se mostra em revelar como o centro do poder desaba diante de uma tragédia incontornável para uma população e uma conversa gentil com os filhos se mostra o resquício de uma liberdade ainda a ser guardada. Larraín aprimora isso com a fotografia de Fontaine, que parece misturar os trabalhos de Malick, Noé e, sobretudo, Reygadas (principalmente nos tons das cores, a exemplo daquele momento em que Jacqueline corre atrás de seus filhos). O clima chuvoso de Washington, com suas árvores e gramados, com o clima fúnebre, também ajuda a transmitir, por outro lado, a angústia enfocada: todos esses elementos tornam Jackie num filme de raríssimo impacto.

Jackie, CHI/EUA/FRA, 2016 Diretor: Pablo Larraín Elenco: Natalie Portman, Billy Crudup, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, John Hurt, John Carroll Lynch, Beth Grant, Caspar Phillipson Roteiro: Noah Oppenheim Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora: Mica Levi Produção: Ari Handel, Darren Aronofsky, Juan de Dios Larraín, Mickey Liddell, Pascal Caucheteux, Scott Franklin Duração: 100 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Jackie Productions / Jackie Productions (II)

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