A qualquer custo (2016)

Por André Dick

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Há alguns filmes que procuram revitalizar um gênero nos tempos modernos, e A qualquer custo é um dos mais interessantes. Não parece, mas este é um legítimo faroeste. O que mais o aproxima deste gênero é certamente uma história que parece simples apenas na superfície, quando possui muitos detalhes narrativos capazes de mostrar personagens em evolução, com uma complexidade inesperada e por vezes comovente. Aqui, um pai divorciado, Toby Howard (Chris Pine), e seu irmão Tanner (Ben Foster), começam a roubar vários bancos no oeste do Texas. Enquanto Toby parece mais tranquilo, Tanner encarna uma faceta mais raivosa, tentando canalizar o que resolveria dívidas da família. Não se sabe muito bem por que eles agem desta maneira, sem procurar outra opção, mas esta passa a ser uma das qualidades de quem assiste à história.
Dois Texas Rangers, Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e Alberto Parker (Gil Birmingham), saem à busca da dupla de assaltantes. De origem indígena, Parker é admirado por Hamilton de maneira que este é um faroeste moderno em que as figuras do homem branco e daquele que perseguiu durante um longo tempo se unem para tentar impedir a escalada de roubo e violência proporcionada por dois irmãos a princípio inofensivos.

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Pela amizade entre os rangers, há mesmo uma espécie de admiração no que se refere ao modo como os irmãos se dedicam a seus planos. Não chega a haver nenhum humor excessivo como existia em Arizona nunca mais e Coração selvagem, embora as ameaças aos caixas de banco soem mais do que verossímeis.
A história quase não possui diálogos e ainda assim todos funcionam exemplarmente, com cada cena construída de maneira que reflete na seguinte, sem deixar sobras, uma qualidade da direção de David Mackenzie, nunca dando a entender, por isso, que o filme é simplesmente rápido. A linguagem de cada personagem soa quase como específica, mesmo pertencendo a um lugar mais vasto: o modo como um se dirige ao outro caracteriza também suas ações. Por exemplo, a sequência em que Toby conversa com uma garçonete, Jenny Ann (Katy Mixon, mais conhecida por suas participações em séries de humor, numa bela atuação), antes de praticar um dos assaltos combinados com o irmão, mescla um desejo de fuga desse universo e um ingresso em outro ambiente, que não parece viável, porque, afinal, ele e seu irmão precisam fazer o que estão realizando. E o Texas é visto não como um lugar apenas semiabandonado, como também aquele em que as pessoas entram em ajuste umas com as outras de forma assustadora, ou mesmo entram em estado de negação diante de uma ameaça.

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A qualquer custo dialoga com Terra de ninguém e Onde os fracos não têm vez, com elementos ainda do grande Cianfrance de O lugar onde tudo termina – a agilidade com que são filmados os assaltos –, do setentista Corrida contra o destino e possui um ritmo quase perfeito, com atos bem definidos e ótimas atuações de todo o elenco, principalmente Pine, surpreendentemente numa atuação madura e envelhecida no bom sentido, e Bridges, este claramente revivendo o cowboy grosseiro de Bravura indômita, principalmente quando decide buscar algumas cervejas na geladeira. Ainda assim, Birmingham e Foster não ficam distantes dessas atuações: Foster consegue trabalhar mais ao final um traço de impacto nas ações de seu Tanner.
O roteirista Taylor Sheridan é o mesmo de Sicario e aqui a paisagem é tão deserta quanto no filme de Villeneuve, além do sentimento familiar ser acompanhado de certa melancolia. Esta é uma paisagem em que os poços de petróleo da comunidade não concedem imunidade contra ameaças econômicas externas, e onde os personagens tentam preservar suas famílias longe da violência, a qual, no entanto, jamais evitam em sua jornada. O tema das finanças familiares se estende ao longo de toda a narrativa, sempre acompanhado por uma dúvida: para que existe toda uma riqueza secular numa terra abandonada se ela não reverte para as pessoas da comunidade? Sheridan aproveita o roteiro para criar quase uma sátira ao sistema bancário, sem meios termos nem grandes explicações.

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Tudo é mostrado como uma grande sequência longa em que os acontecimentos se passam quase no tempo que concede o filme. Dificilmente há alguma pausa para descanso – o momento em que os acontecimentos são vistos parece ser o mesmo em que foram filmados. Para isso, os personagens de Pine e Bridges contribuem com eficácia, assim como a fotografia exuberante de Giles Nuttgens, embora a direção deixe o terceiro ato se tornar mais plano e o final, de certo modo, soe abrupto em demasia em comparação com o que acontece antes, de maneira tão fluida e intensiva. Talvez seja este o impasse trazido pela obra de Mackenzie: como ele aponta de forma direta o que está criticando, não resta muito espaço para possíveis nuances. Isso, de qualquer modo, não diminui os personagens ou os afasta de uma determinada combinação de fatores que os tornam, inclusive, complexos. As famílias aqui se mostram distantes entre si, mas é o núcleo para o qual esses personagens solitários se voltam no momento-chave. A investigação passa a ser não apenas de quem se saiu melhor num cenário em que os duelos predominam, nem quem conseguiu ganhar mais, e sim quem conseguiu sobreviver ao status de ser, afinal, um solitário.

Hell or high water, EUA, 2016 Diretor: David Mackenzie Elenco: Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, Gil Birmingham, Katy Mixon Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Giles Nuttgens Trilha Sonora: Nick Cave, Warren Ellis Produção: Julie Yorn, Peter Berg, Sidney Kimmel Duração: 102 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Film 44 / Sidney Kimmel Entertainment

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