Assassin’s creed (2016)

Por André Dick

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Por ter como origem um game da Abisoft, Assassin’s creed tem sido comparado consequentemente a Warcraft, o filme menosprezado de Duncan Jones lançado no ano passado e cujo orçamento se pagou com sua trajetória nos cinemas fora dos Estados Unidos. Já a trajetória da nova adaptação tem tido mais riscos, com pouco faturamento nos Estados Unidos e no exterior até agora, mesmo com um elenco mais conhecido e uma produção que levantou bons recursos do estúdio. Particularmente, como Warcraft, nunca tive a experiência de jogar com esses personagens. Talvez para os fãs se intensifique a expectativa em torno da história.
Michael Fassbender atua como Callum Lynch, que teve sua mãe assassinada quando era criança, em 1986, e, nos dias atuais, no momento em que está para ser condenado à morte, é transportado para um centro de pesquisa em Madri, a Fundação Abstergo, onde conhece Sophia Rikkin (Marion Cotillard), cujo pai, Alan (Jeremy Irons), chefe do lugar, quer utilizá-lo em experimentos que o fazem revivenciar o que foi séculos antes, Aguilar de Nerha.

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Tratava-se do líder de uma sociedade de assassinos que pretende capturar a “Maçã do Éden” em oposição aos cavaleiros templários com o objetivo de manter o livre arbítrio, durante a inquisição espanhola, tendo como rival Torquemada (Javier Gutiérrez), mais exatamente em 1492, mesmo ano da descoberta de Cristóvão Colombo, como vemos no filme de Ridley Scott com a trilha de Vangelis. E Callum está em meio a uma sociedade composta por figuras enigmáticas, entre os quais se incluem ainda McGowen (Denis Menochet) e a experiente Ellen Kaye (Charlotte Rampling). A história parece estranha? O filme é ainda mais, no bom sentido.
Por meio desse experimento, o filme encarna uma espécie de Matrix, em que há o lugar em que Callum se encontra e os lugares históricos para onde se dirige por meio de um maquinário extremamente detalhado, chamado Animus (que lembra os tentáculos do vilão de Homem-Aranha 2 e do próprio Neon da saga dos Wachowski), sobretudo quando encarna seu antepassado Aguilar. Trata-se de viagens mentais, e que envolvem ainda Maria (Ariane Labed). Este lugar de experimentos, Abstergo, possui algumas paisagens que lembram um Éden esquecido e imagens de pássaros voam por cima de telhados de vidro. Visualmente, Assassin’s creed é atrativo. Ainda mais o elenco: Fassbender consegue lançar seu habitual drama ao encarnar o personagem, e Cotillard mostra sua angústia e mistério habituais para compor sua personagem.

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O roteiro de Michael Lesslie, em parceria com Adam Cooper e Bill Collage, compõe um embaralhamento de tempos que concede ao filme uma camada complexa e instigante de história. Alguns temas evocam Cruzada, de Ridley Scott, mas a questão do Éden se fecha mais com filmes sobre a influência bíblica e religiosa na vida de organizações (interessante ver a hora da morte calculada de Callum, na qual imaginei que tivesse alguma referência religiosa e, se visto de forma inversa, remete ao versículo 59:17). Alguns temas da obra se espalham ao longo da narrativa, e vão constituindo um elo. Há alguns elementos de Fonte da vida, de Aronofksy na maneira como o diretor mostra a relação entre Sophia e Callum, como se estivessem num universo realmente à parte e a volta ao passado representasse uma espécie de ingresso no cosmos.
O diretor Justin Kurzel, que já havia trabalhado com Fassbender e Cotillard na adaptação de uma peça de Shakespeare, Macbeth, aplica um punhado de sequências de ação que envolvem malabarismos e lutas cênicas capazes de atrair a atenção todo o tempo. Lamenta-se apenas que a história não desenvolva o potencial, principalmente do personagem central, depois de um início instigante, mesmo que apresente uma boa parte dramática, que envolve a figura paterna, Joseph (Brendan Gleeson), trazendo mais informações sobre o desaparecimento de sua mãe.

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O seu passado é o mote que Kurzel estabelece para tornar o filme mais do que uma adaptação de um game, conseguindo verter para a nova linguagem uma interessante fusão de personagens e situações para quem desconhece o jogo original. O personagem feito por Jeremy Irons é uma espécie de figura a distância, como se fosse um elemento não divino, mas que se situa acima de todos, um emblema de poder capaz de contrariar as escolhas de Callum ou mesmo ter de aceitá-las.
A fotografia de Adam Arkapaw, que fez a de outra obra recente de Fassbender, A luz entre oceanos, é bela na sua composição entre um filtro azul do lugar de experimentação e um bege retratando a época passada. Fica-se imaginando o que Ridley Scott teria feito com essa adaptação de game para o cinema, mas o que resulta ainda é um trabalho capaz de jogar com os temas que possui em mão da melhor forma possível. As motivações iniciais do personagem evocam um interesse e, aos poucos, não são suficientemente trabalhadas, possivelmente aguardando por uma sequência. É um filme sobre como o passado pode ser revitalizado por meio de novas sensações e da luta corporal que lhe dê um vigor e um sentido e ainda sobre desafiar a própria possibilidade de resolver seu passado e o futuro por meio de um traço fantástico.

Assassin’s creed, EUA, 2016 Direção: Justin Kurzel Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Charlotte Rampling, Jeremy Irons, Khalid Abdalla, Carlos Bardem, Javier Gutiérrez, Brendan Gleeson, Ariane Labed Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Michael Lesslie Fotografia: Adam Arkapaw Trilha Sonora: Jed Kurzel Produção: Arnon Milchan, Conor McCaughan, Frank Marshall, Jean-Julien Baronnet, Michael Fassbender, Patrick Crowley Duração: 115 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Regency Enterprises / Ubisoft Motion Pictures

cotacao-3-estrelas

 

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2 Comentários

  1. Anônimo

     /  12 de janeiro de 2017

    Acabei de ver o filme. Gostei muito (joguei todos os jogo, li livros, etc.), não achei fraco, para mim acho que foi 4/5. Vou explicar porque:
    Primeiro, um filme de cerca de duas horas nunca conseguirá mostrar em detalhes tudo de um universo tão rico como A.C., temos que entender isso. Não dá para explicar todos os detalhes de 10 anos de jogos e livros, etc em apenas duas horas. Então bom senso, pessoal.

    Por outro lado, vi muitas referências aos jogos, como a maçã do éden, a abstergo, o animus, a amputação do dedo anelar dos assassinos pré-Ézio, as bombas de fumaça, a hidden blade, escalada, lutas, o lema dos assassinos, etc, tudo muito próximo aos jogos.

    Observem também que nos jogos podemos controlar o personagem nas memórias de Desmond e de outros que vieram, mas acho que o filme acertou ao mostrar que essas memórias só podem ser vividas e não controladas. Além do que, em AC3, vemos muita ação de Desmond Miles fora do animus. Então não foi nada demais. Gostei que ficou bem ambientado.

    Para concluir. Minha esposa, que nunca jogou e nem leu AC, gostou de filme e entendeu tudo, exceto sobre a maçã do éden.

    “Nada é verdade, tudo é permitido” aplica-se a esse filme.

    Responder
    • André Dick

       /  13 de janeiro de 2017

      Prezado,

      agradeço por seu comentário sobre o filme e como conhecedor do Assassin’s creed. Eu realmente não conheço o material de origem e apreciei o resultado deste filme, assim como Warcraft. O que se percebe, para um não conhecedor do universo, é que existe um material muito instigante por trás de cada personagem e mesmo uma complexidade quase ausente em vários blockubsters. Gostei das referências históricas e religiosas, assim como do universo para onde Callum é levado, como se fosse uma espécie de lugar entre a realidade e o sonho, sempre sob um ponto de vista conturbado. As atuações de Fassbender e Cotillard são convincentes, do mesmo modo que as cenas de luta e aquelas relacionadas ao Animus. Se este filme está sendo demitido por grande parte da crítica é por falta de acesso desta mesma crítica a filmes realmente fracos. Este não é.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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