Deadpool (2016)

Por André Dick

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O grande filme de  super-heróis de 2016, na opinião de grande parte do público e da crítica, foi a produção mais modesta de um personagem da Marvel, Deadpool. Com Ryan Reynolds em seu papel principal, ele tenta fazer o mesmo que Ben Affleck: se este passou de Demolidor a Batman, Reynolds passa de Lanterna Verde a um herói mais cômico. Trata-se de um projeto que circulou por alguns anos, sem que a distribuidora quisesse investir nele. Tudo aparenta, no entanto, ser parte de um grande marketing, à medida que o filme foi lançado sem grande propaganda, quase de surpresa. Quando se viu, o grande atrativo foi justamente saber de que obra se tratava. Ela não é para crianças nem exatamente para pessoas que não são especialmente fãs do personagem, mas, de algum modo, funcionou de maneira extraordinária.
Ao contrário de sua atuação em Lanterna verde, Reynolds faz aqui um bom super-herói, mesmo com suas limitações conhecidas. Ele já havia se mostrado um ótimo ator no menosprezado À procura, e parece que aqui aposta suas fichas para se desvencilhar da ideia de que é um ator sem acerto cômico. As grandes qualidades de Deadpool se devem à sua presença. E o filme começa muito bem, com Deadpool contando a sua história particular, desde o fato de ser um sujeito que lida com problemas alheios, Wade Wilson. até conhecer uma prostituta, Vanessa (Morena Baccarin), que se torna sua namorada.  Seu melhor amigo, por sua vez, trabalha num pub (TJ Miller), onde coordena um grupo de apostas.

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É difícil não tratar do que leva o personagem a se transformar num super-herói – e parte dessa transformação lembra a de Wolverine, pois parte do mesmo programa, chamado Arma X, embora este seja mais solucionado em termos de ritmo, pelo menos no início, envolvendo um sujeito que faz recrutamento (Jed Rees). O grande vilão acaba se tornando um personagem que participa de sua criação, Ajax, junto com Angel Dust (Gina Carano). Nesse meio campo, ele vem a ter procurado com Colossus (Stefan Kapicic) e Negasoic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand). E encontra, para ajudá-lo em sua ação, o taxista Dopinder (Karan Soni). O diretor Tim Miller acelera a narrativa, buscando contato, principalmente, com o humor violento de Kick-Ass, mesmo que sem o mesmo mau gosto de Vaughn para extrair imagens pretensamente originais de uma coleção de assassinatos. E tem como correspondência também o recente Kingsman. Visualmente, Deadpool, por uma questão pessoal, é deplorável: ele emula com competência a câmera lenta de Matrix, mas não dá qualquer importância ao design de produção e a fotografia é excessivamente monocromática. Nesse sentido, ele poderia ter sido uma espécie de Scott Pilgrim se tivesse um diretor realmente talentoso por trás.
A questão é que, depois de um início trepidante, o grande problema é a tentativa de o filme ser bem-humorado. Isso vai além do limite e prejudica sua boa parte dramática, sobretudo ao início, quando Reynolds desempenha o papel do melhor modo, associado a uma bela atuação de Baccarin, sem apelar para o exagero e acompanhando a comicidade do parceiro de cena com rara graça. Entende-se que não é possível seguir nesta linha porque, afinal, o herói tem outro estilo, entretanto sua aparência depois de ser adotada pelo programa é certamente assustadora para quem precisa ser reconhecido pelo público. A partir disso, o que poderia ser dramático se transforma em piadas a Sinead O’Connor, Limp Bizkit, a série X-Men etc. Há algumas boas gags, prejudicadas pela necessidade de reiterar uma crítica corrosiva aos filmes de super-heróis, mas que sobrevive dela a todo custo.

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A impressão que os roteiristas tiveram é de que, havendo uma autossátira, o filme se tornaria melhor. Nesse sentido, o herói brinca frequentemente com o pouco orçamento do filme. Há uma quebra da quarta parede, com o personagem se dirigindo diretamente à câmera. Isso seria certamente risível se não fosse apenas uma maneira de dizer, de forma diferente, que Deadpool abraça o mainstream como todos os filmes de super-heróis, ou seja, sua aparente crítica corrosiva apenas procura encobrir a ideia de que todos os filmes acabam tendo os mesmos elementos: o vilão, a mocinha a ser resgatada, o herói abalado por sua criação. É um pouco constrangedor Reynolds satirizar sua própria carreira, como se de fato, em meio a brilhos esparsos, como em À procura, ela nunca se concretizou de fato. De algum modo, por meio da sátira, Deadpool quer adquirir uma autoimportância que não teria, pelo menos claramente. Pode-se dizer que o filme acaba crescendo para o espectador que realmente gosta do estilo do personagem e a maneira com que foi filmado. No entanto, a graça com outros filmes da Marvel é apenas uma extensão do que Homem-formiga fez com mais precisão e agilidade, além de contar com melhores personagens. Embora as cenas de ação sejam muito bem feitas, com certa violência que afastou o público mais infantil, o roteiro e o vilão de Deadpool são absolutamente planos, sem nenhum acréscimo. Que este filme tenha sido recebido como uma grande novidade e colhido uma bilheteria histórica é uma grande surpresa: ele merece por sua primeira parte, não tanto pela segunda, resultando numa diversão moderada.

Deadpool, EUA, 2016 Diretor: Tim Miller Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, Gina Carano, TJ Miller, Stefan Kapicic, Brianna Hildebrand Roteiro: Paul Wernick, Rhett Reese Fotografia: Ken Seng Trilha Sonora: Junkie XL Produção: Kevin Feige, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Marvel Enterprises / Marvel Studios / Twentieth Century Fox Film Corporation

cotacao-3-estrelas

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2 Comentários

  1. fredmorsan

     /  8 de janeiro de 2017

    Só um adendo, André. Esse filme é da Fox, não da Marvel Studios. Faz parte do universo dos X-Men, não dos Vingadores.

    Responder
    • André Dick

       /  8 de janeiro de 2017

      Prezado Fred,

      Na primeira versão estava “foi a produção mais modesta da Marvel” e mudei para “foi a produção mais modesta de um personagem da Marvel”, para deixar mais claro.

      Um abraço,
      André

      Responder

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