Melhores filmes de 2016

Por André Dick

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Em 2016, não faltaram bons motivos para que o cinema se destacasse. Já iniciando em grande estilo, a temporada do Oscar trouxe obras como Os oito odiados, Creed, O regresso, O quarto de Jack, e, a partir daí, a qualidade não diminuiu. Os irmãos Coen celebraram a comédia de época em Ave, César!, enquanto a Alemanha trouxe um suspense aterrorizante, Boa noite, mamãe, e o cinema oriental deu as cartas com A assassina e As montanhas se separam.
Depois do Festival de Cannes, tivemos uma seleção de grandes filmes, como Elle, a volta à direção de Paul Verhoeven com uma atuação fora de série de Isabelle Huppert.

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Muitos temas se tornaram relevantes. O mundo passa a ser mais ameaçador, como mostram Snowden, Jogo do dinheiro e Nerve, vigiado por todos os lados. Já a bolsa de valores controla os acontecimentos, como vemos em A grande aposta, mas parece ser o jornalismo que pretende trazer à tona revelações, em Spotlight. Jane Austen é adaptada de maneira peculiar em Amor & amizade. Rock em Cabul, Cães de guerra e Mais forte que bombas mostram diferentes pontos de vista sobre o universo da guerra e os efeitos dela na vida de indivíduos.
Enquanto Carol mostra o direito de duas mulheres de viver um amor proibido, um homem quer se transformar em mulher em A garota dinamarquesa. Uma refilmagem da Disney resgatou em alto estilo a emoção mesclada com ingenuidade em Meu amigo, o dragão. O terror de maior sucesso do ano foi Quando as luzes se apagam, com custo de 5 milhões e arrecadação de 150. Alguns remakes não se tornaram bem aceitos (Caça-fantasmas, A bruxa de Blair), embora com qualidades. A escravidão é visualizada em O nascimento de uma nação e tratada em Os oito odiados pelo estilo de Tarantino. Uma nova ficção científica, A chegada, passa a ser vista como uma das mais revolucionárias. Antigos personagens de livros regressaram: Tarzan e Alice. Tivemos cinebiografias em Snowden, Um homem entre gigantes, Joy – O nome do sucesso, Florence – Quem é essa mulher, A garota dinamarquesa e Steve Jobs.

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Grandes diretores mostraram seu talento novamente: Richard Linklater, depois de Boyhood, regressou com Jovens, loucos e mais rebeldes!!, enquanto Apichatpong Weerasethakul reapresentou sua visão de mundo em Cemitério do esplendor, embora tenha sido o cinema sul-coreano que se destacou, e Almodóvar em Julieta. Woody Allen lançou seu filme anual, Café Society, e Tim Burton retomou seu universo fantástico em O lar das crianças peculiares. Egoyan lança quase um filme por ano desde 2010, e novamente deixou sua marca em Memórias secretas. E Michael Bay fez seu melhor filme, 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi.
No entanto, mais uma vez, as grandes bilheterias se tornaram o centro da atenção, não apenas com filmes de super-heróis, Capitão América – Guerra Civil, Batman vs Superman, Deadpool, ou vilões, a exemplo de Esquadrão suicida, como pelas animações. Pela primeira vez na história, tantas terminaram entre as maiores do ano: Zootopia, Mogli – O menino lobo (embora muitos entendam como live action), Procurando Dory, Pets, Trolls, A era do gelo: O Big Bang Kung fu panda 3. Avançando um pouco mais na experimentação, tivemos a adaptação de um game, chamado Warcraft. Nenhuma surpresa que alguns filmes se tornaram grandes sucessos, mas foi o ano em que Spielberg desapontou com O bom gigante amigo. Franquias regressaram (Star Trek e um spin-off de Star Wars, Rogue one), enquanto outras iniciaram: a de Animais fantásticos e onde habitam.

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Os filmes avaliados para as listas estrearam no Brasil entre janeiro e dezembro de 2016, inclusive aqueles indicados ao Oscar de 2015. Infelizmente, foram deixadas de fora da lista principal obras lançadas diretamente em home video, a exemplo de Cavaleiro de copas, de Terrence Malick, e Docinho da América. Não foram avaliados filmes exibidos apenas em festivais ou que estrearam nos Estados Unidos e irão estrear no próximo ano em circuito comercial no Brasil.
Cinematographe apresenta a seguir listas com menções honrosas (em destaque estão aqueles que quase entraram entre os 25 melhores, com destaque para Depois da tempestade, que foi visto depois de a lista ser fechada e certamente estaria nela), filmes subestimados, apreciados em parte, decepções e/ou superestimados e lançados diretamente em home video.

Menções honrosas

A grande aposta (Adam McKay), Depois da tempestade (Hirokazu Koreeda), Joy – O nome do sucesso (David O. Russell), Boa noite, mamãe (Veronika Franz, Severin Fiala), Mogli – O menino lobo (Jon Favreau), Memórias secretas (Atom Egoyan), Nossa irmã mais nova (Hirokazu Koreeda), Um homem entre gigantes (Peter Landesman), A garota dinamarquesa (Tom Hooper), O abraço da serpente (Ciro Guerra), A chegada (Denis Villeneuve), Rua Cloverfield, 10 (Dan Trachtenberg), Star Trek – Sem fronteiras (Justin Lin), Pets – A vida secreta dos bichos (Chris Renaud, Yarrow Cheney), Águas rasas (Jaume Collet-Serra), 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi (Michael Bay), Amor & amizade (Whit Stillman), Meu amigo, o dragão (David Lowery), O contador (Gavin O’Connor), Snowden – Herói ou traidor (Oliver Stone), Florence – Quem é essa mulher? (Stephen Frears), Capitão Fantástico (Matt Ross), Mãe só há uma (Anna Muylaert), Kung Fu Panda 3 (Jennifer Yuh Nelson, Alessandro Carloni), Invasão zumbi (Yeon Sang-ho), O bom dinossauro (Peter Sohn), A garota no trem (Tate Taylor), O lar das crianças peculiares (Tim Burton), Horizonte profundo (Peter Berg), A luz entre oceanos (Derek Cianfrance)

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Subestimados

Warcraft – O primeiro encontro entre dois mundos (Duncan Jones), Alice através do espelho (James Bobin), Rock em Cabul (Barry Levinson), Jogo do dinheiro (Jodie Foster), Truque de mestre: O 2º ato (Jon M. Chu), Gênios do crime (Jared Hess), O bom gigante amigo (Steven Spielberg), Esquadrão suicida (David Ayer), Um holograma para o rei (Tom Tkywer), Quando as luzes se apagam (David F. Sandberg), A lenda de Tarzan (David Yates), Caça-fantasmas (Paul Feig), X-Men: Apocalipse (Bryan Singer)

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Apreciados em parte

Steve Jobs (Danny Boyle), Capitão América – Guerra Civil (Joe Russo e Anthony Russo), A bruxa de Blair (Adam Wingard), Carol (Todd Haynes), Aquarius (Kleber Mendonça Filho), Nerve – Um jogo sem regras (Ariel Schulman, Henry Joost), Indignação (James Schamus), Kubo e as cordas mágicas (Travis Knight), O plano de Maggie (Rebecca Miller), O lamento (Na Hong-jin), Deadpool (Tim Miller), Brooklyn (John Crowley)

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Decepções e/ou superestimados

Spotlight – Segredos revelados (Tom McCarthy), Anomalisa (Charlie Kaufman, Duke Johnson), A bruxa (Robert Eggers), Tangerine (Sean S. Baker), O homem nas trevas (Fede Alvarez), Doutor Estranho (Scott Derrickson), O que está por vir (Mia Hansen-Løve), Boi neon (Gabriel Mascaro),  Procurando Dory (Andrew Stanton), Sete homens e um destino (Antoine Fuqua), Julieta (Pedro Almodóvar), O filho de Saul (László Nemes), Certo agora, errado antes (Sang-soo Hong)

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 Destaques lançados diretamente em home video

Cavaleiro de copas (Terrence Malick), Oeste sem lei (John Maclean), O que fazemos nas sombras (Taika Waititi, Jemaine Clement), Um cadáver para sobreviver (Dan Kwan e Daniel Scheinert), Uma repórter em apuros (Glenn Ficarra, John Requa), Rio perdido (Ryan Gosling), Destino especial (Jeff Nichols), Docinho da América (Andrea Arnold), O lagosta (Yorgos Lanthimos), Sing Street: música e sonho (John Carney), Love & mercy (Bill Pohlad)

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A seguir, a lista do Cinematographe com os 25 melhores filmes de 2016. Junto com ela, agradeço por sua leitura e companhia durante o ano.

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Clint Eastwood transforma o que poderia ser uma espécie de documentário em uma história fascinante sobre um homem que, para tentar salvar a vida de centenas, colocou em risco o que ele mesmo havia seguido durante sua trajetória. Com idas e vindas no tempo, Eastwood vai atraindo o espectador para uma espiral que parece apenas dedicada a prestar uma homenagem, quando recupera, na verdade, a consciência de um homem diante das ameaças históricas, principalmente quando ele tem algumas visões assustadoras. É também sobre a humildade de um herói do cotidiano, personificada com raro talento por Tom Hanks, num momento que se equivale ao seu subestimado Um holograma para o rei. Hanks concede uma calma sábia a seu personagem sem nunca parecer se exceder em sua timidez, enquanto Eckhart volta em grande estilo a um papel realmente de destaque.

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Este é um filme que se movimenta entre uma comédia corrosiva e um drama moral permeado de características interessantes, ao entrelaçar a narração de Packouz com o protagonismo de Efraim. Ele aparenta, pelo marketing, ser como Dois caras legais, mas esses são caras que não têm nenhuma espécie de alívio existencial ou escape de humor. Phillips concentra sua visão nos dois como a de uma América constantemente perdida em seu próprio foco na guerra e na manutenção de um dinheiro inesgotável. Não se sabe se David, por exemplo, usa também o sexo em seus atendimentos; fica subentendido algo nesse sentido, mas sem certeza. O que importa, sempre, para tais personagens, é o dinheiro que seus negócios trazem. E as promessas de riqueza se mostram promissoras, como uma antiga amizade subentende.

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Animais noturnos tem um início um pouco desinteressante, na maneira que salta da vida de Susan para as páginas do livro, mas, à medida que a trama avança, o paralelo começa a ser construído de maneira eficiente, com atuações notáveis de todo elenco. Amy não chega a construir um personagem por completo, e ainda assim está excelente, assim como Taylor-Johnson surpreende e Gyleenhaal volte a mostrar por que se trata de um ator excepcional para papéis curiosos. Ford utiliza o subtexto – o romance – como uma forma eficiente de entender o casamento de Susan e Edward, o que se esclarece nas digressões, em que ela relembra como o conheceu e como eram os dois quando casados.

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Em O nascimento de uma nação, o espectador é capaz de sentir o peso existencial sobre cada personagem. Belas imagens, como o sangue da orelha sobre o milho, ou os escravos colhendo algodão enquanto o sol parece passar por um eclipse, ou as nuvens da noite cobrindo a lua, antecipam essa vingança baseada nas palavras religiosas. Os homens carregando tochas à noite lembram uma espécie de regresso à África, ao verdadeiro nascimento de uma nação. Uma cena especialmente discreta é impactante é quando uma menina negra brinca puxando outra pela corda na varanda de uma mansão, enquanto Nat observa da carroça.

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O artefato do personagem central (a mala) contém não apenas criaturas fantásticas, como poderia também abrigar a cidade – e no momento-chave do final ela adquire uma imponência ainda maior. Se Harry Potter teve pelo menos dois capítulos iniciais como uma espécie de teste para o elenco, este filme começa a todo ritmo, tanto com o quarteto quanto com vilões ameaçadores. Ao mesmo tempo, por seu tom agridoce, Animais fantásticos se sente igualmente também como um grande universo ainda a ser explorado com esses personagens: ele realmente envolve o espectador a ponto de nos deixar com saudade deles depois que a sessão termina.

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Lenny Abrahamson lida bem com a oposição entre o escuro do quarto e a possível luminosidade do mundo. É como se tanto um novo mundo pudesse se descortinar como também os personagens precisassem enfrentar uma determinada verdade que os conduziu até ali. Neste ponto, Larson e Tremblay são cada vez melhores. O quarto de Jackpassa a ser uma das obras de cinema independente com a indicação ao Oscar mais merecida nos últimos anos, pois não tenta emular uma determinada estética para agradar e sim mostrar um caso capaz de repercutir junto ao espectador, com um cuidado muito grande na maneira de expor suas ideias, além da sua clareza e notável sensibilidade.

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Em Star Wars, sempre tivemos heróis quase imbatíveis; em Rogue One, os componentes da missão são figuras valentes, mas extremamente frágeis. Não vemos arroubos de heroísmo por parte de Jyn e Cassian, apenas a tentativa de completar a missão da melhor maneira. Isso é uma novidade para a mitologia Star Wars e não atenua quando Gareth Edwards leva tudo a um terceiro ato realmente espetacular, que rivaliza diretamente com O retorno de Jedi, numa mescla de cenas irreparáveis e extraordinárias. Que o mesmo diretor que fez Godzilla tenha feito este primor técnico e fantástico é uma surpresa – e nos perguntamos se Abrams não deveria ter estado aqui.

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O cineasta italiano Matteo Garrone faz uma das obras mais poéticas já feitas, um filme que se sustenta numa estranheza sem exageros, com o auxílio de uma fotografia notável de Peter Suschitsky e direção de arte exímios, sem esquecer o magistral figurino, desvirtuando os contos de fadas e dos irmãos Grimm sem tentar ser um novo Terry Gilliam. Salma Hayek é a Rainha dos Longtrellis, Vincent Cassel o Rei dos Strongcliff e Toby Jones o Rei dos Highhills. Esses personagens ligam as histórias, que envolvem Violeta (Bebe Cave), princesa de Highhills, Elias (Christian Lees), príncipe de Longtrelliss, e Dora (Hayley Carmichael). A maneira como as histórias são interligadas é o ponto alto do filme: elas têm uma estrutura aberta, para Garrone exibir seu talento como diretor.

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A impressão que se tem é que, depois de sua passagem pela Europa, principalmente após Meia-noite em Paris, Woody Allen se sente mais cuidadoso com sua parte técnica. Nos anos 70, ele fazia comédias realistas, nos anos 80 alternou obras entre o drama bergmaniano e o humor, no entanto tendo sempre Nova York como ponto de encontro, e nos anos 2000, ao filmar O escorpião de Jade e Vicky Cristina Barcelona, ou 2010, quando esteve na ensolarada Itália (em Para Roma com amor), ele se transformou num autor com toque mais europeu do que antes já se entrevia nele e o qual satirizava em Dirigindo no escuro. Claro que já aparecia um certo cuidado nas ambientações, como em Tiros na Broadway e Poucas e boas, mas nunca com a maturidade de agora e com a beleza plástica de Café Society (em diálogo direto com Meia-noite em Paris).

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Não se trata exatamente de uma sátira, e sim de uma mescla inteligente entre gêneros que poucas vezes funciona como aqui. Como Beijos e tiros, ele se passa quase totalmente à noite, e seus poucos indícios de luz remetem a uma nova cultura surgindo de dentro da cidade. Como pano de fundo, assim como em outras obras de Shane Black, ele brinca com a metalinguagem de maneira inteligente, de modo que não soe forçada dentro do contexto em que os personagens se inserem. Realmente é uma grata surpresa esta comédia e apenas se lamenta que seu orçamento (50 milhões de dólares) tenha retornado até agora em pouca bilheteria (57), talvez invalidando uma possível e merecida franquia com esses personagens.

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O roteiro, escrito por Joachim Trier e Eskil Vogt, tem uma influência clara dos filmes que mostram a juventude norte-americana, com certa música dos anos 80 (o título original é o mesmo de um álbum da banda The Smiths), e dialoga principalmente com o recente e contestado Homens, mulheres e filhos. Onde Jason Reitman mostra mais humor, Trier é mais comedido e, por meio de Conrad, pretende enfocar a solidão dessa juventude. Sua relação com o irmão é terna, assim como os conflitos com o pai demarcados por uma base real, especialidade de Trier. Este nunca esteve tão à vontade para mostrar seus elementos autorais, embora continue bastante pessimista no que diz respeito ao comportamento humano, ainda que não tanto quanto em Oslo, 31 de agosto, e consiga, por meio de uma montagem não linear em alguns momentos, fazer com que o espectador confronte diferentes momentos dos mesmos personagens, abrindo um leque de opções para que identifiquemos (ou não) os sentimentos deles.

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As montanhas se separam possui, como em toda a obra de Jia Zhangke, uma fotografia deslumbrante de Yu Lik-wai, com uma predileção por captar ambientes externos com um cuidado irreparável, assim como deixa cenários internos com uma sensação de realismo destacada. A China antiga e a China moderna convivem não raramente no mesmo enquadramento, e se temos algum sinal de neve é sempre em meio a uma natureza já surgida no asfalto. Cenas que captam a tradição chinesa são ampliadas com um afeto trabalhado, lembrando o que Ka-Wai e Kurosawa já fizeram para o Oriente em termos de imagem. E, em meio a essas imagens, a presença cada vez maior do Ocidente, sobretudo na circulação de automóveis e vendas de equipamentos de som, e um sentimento de que a China vive o futuro, principalmente na velocidade dos trens e na tentativa de incorporar outras linguagens.

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É muito raro encontrar uma animação que ainda invista numa trama policial e não se perca pelo meio do caminho, capaz de desenhar uma amizade entre figuras diferentes de maneira tão crível. As comparações feitas, por exemplo, com o clássico Chinatown são realmente verossímeis e bem solucionadas pelo roteiro escrito por um dos diretores, Jared Bush, e Phillip Johnston, colaborador em Detona Ralph. Em certos momentos, arrisca-se até mesmo um clima noir, em meio a uma perseguição numa floresta seguida de um amanhecer do sol radiante. Ele não soa excessivamente infantil nem apresenta temas mais adultos de maneira pretensiosa, ficando num meio-termo agradável.

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Jovens, loucos e mais rebeldes!! é talvez o filme mais alto astral da década até agora, uma placa de otimismo em meio a tantas obras à procura apenas de melancolia. Quando tudo é uma contagem regressiva para o início das aulas, a alegria pode ser descobrir que justamente o início de tudo se deu muito antes e que fechar os olhos pode abarcar ainda mais vida do que novas lições.

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Com uma fotografia extraordinária de Mark Lee Ping Bing, parecendo filmar Barry Lindon num espaço oriental, fixando o olhar nos cenários irretocáveis, nas cortinas esvoaçantes e nos telhados do reino para onde vai, A assassina tem um lado pouco convidativo (a lentidão de sua trama) que é compensado pela atmosfera tremendamente imersiva. Quando assistimos ao filme, parece que estamos juntos com os personagens, seja num palácio à noite iluminado por homens carregados de tochas, seja numa cachoeira, seja em meio a uma floresta onde desencadeia uma luta sangrenta. Ele se enquadra no gênero wuxia (武侠), de origem chinesa, que mistura artes marciais e fantasia. O início em alto movimento e filmado em preto e branco é um prólogo para o que se segue e difícil imaginar uma sequência prévia ao final tão impactante.

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Verhoeven sempre teve um interesse por mulheres que colocam os homens em situação de ameaçados sexualmente. Aqui, a mulher sofre abusos do mascarado, mas não entendemos suas reações a isso. Huppert faz uma das personagens mais intrigantes do universo feminino dos últimos anos justamente porque parece lhe faltar qualquer compromisso com o discurso em sua própria defesa – parece, pois, na verdade, o que ela faz é justamente empregar esse discurso por meio de atitudes enviesadas. Verhoeven desenha isso com muito talento, procurando, a certa altura, explicações psicológicas de notável desenvoltura para a narrativa.

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Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, Ryan Coogler consegue realmente dar uma sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa, ao contrário da pressa de Abrams no último Star Wars em estabelecer vínculos com os fãs, apesar ainda ser muito interessante. Mas Coogler é mais exato ao criar um compasso original para as cenas de luta, uma delas sem um corte sequer, muito em razão da competência da fotografia de Maryse Alberti, além de empregar uma emoção especial no ato final, que eleva Creed a outro patamar, apesar de sua temática não original em relação aos filmes anteriores.

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Em Demônio de neon, é como se Nicolas Winding Refn admitisse que não há espaço para nenhuma idealização, representada por Jesse, principalmente num universo em que ela é uma estranha, mesmo parecendo ser bem recebida. É como se ela entrasse num bosque do qual não pode voltar justamente no momento em que se depara com os triângulos de neon. A passagem que eles oferecem revela não apenas o universo da moda em Los Angeles, como também o mistério pelo qual a personagem central é envolvida. Pode-se perceber que, assim como no clube noturno, na passarela, no estúdio de fotos e no quarto, Jesse se sente sempre sozinha, como se todos que estivessem à volta não existissem, ou quando espera numa cadeira para uma teste e suas colegas estão imóveis. A questão colocada implicitamente por Refn: ela existe de fato? Este universo existe?

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O novo filme de Apichatpong Weerasethakul (mais conhecido junto à crítica como Joe) lembra muito os anteriores, principalmente Síndromes e um século e Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: é um cinema que busca a reflexão a partir de gestos do cotidiano, ressoando uma espécie de emoção que busca o conforto na tranquilidade. Seus personagens, com isso, sempre estão às voltas com a saúde (lembrando que a família de Weerasethakul é da área da medicina) e buscam nela uma espécie de liberdade para suas vidas sofridas.

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Este é um filme que não se vê mais com tanta frequência: é essencialmente sobre como uma amizade pode persistir no tempo e os sonhos e realizações sempre se anunciam quando o ser humano se depara com seu limite. Os amigos fazem competições curiosas entre si, observam os outros hóspedes do lugar– e a conclusão é sempre a mesma: o tempo nunca conseguiria aproximá-los de alguma definição existencial ou servir como solução para atenuar seus problemas. Essa amizade é comparada às notas de uma música, seja pela maneira como Paolo Sorrentino capta a paisagem – com uma notável tranquilidade e, ao mesmo tempo, agilidade – e ao tempo. Em intensidade igual, o corpo, em A juventude, representa o desejo e a sensibilidade de se saber efêmero.

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A oposição entre a claridade e a escuridão se mostra não apenas no tempo em que se passa – durante um dia – como na narrativa dividida em atos de filmagens, que trazem uma atmosfera maravilhosa que se contrapõe à vida real. Enquanto transcorre o mccarthismo, os irmãos Coen não se incomodam em mostrar exatamente um grupo de roteiristas com uma ligação estabelecida imediatamente com Moscou – quase um lado subversivo do que mostraram no roteiro politicamente correto de Ponte dos espiões, mais próximo de Barton Fink. Em vez de tecerem observações filosóficas sobre o livro referencial sobre o capitalismo, eles preferem atuar numa frente que lembra mais a sátira de David Cronenberg ao sistema financeiro, em Cosmópolis.

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O filme mostra a convivência de um senhor e sua filha numa fazenda, havendo, no fundo dessas questões, uma ampla discussão de Béla Tarr a respeito da exploração e da tentativa de lidar com o outro. Esta relação é baseada mais no silêncio do que no verbo e, se não há sinais de afeto do pai pela filha, isso é reproduzido na maneira como ele cuida do cavalo capaz de trazer ainda mais colheita para a fazenda. Cada sequência tem a duração predileta de Tarr, uma duração concentrada em gestos mínimos e expansivos. Se na sua obra anterior ele colecionava sequências em cenários mais expansivos, aqui ele concentra tudo nos olhares dos atores e no fato de como eles são ínfimos diante do cenário externo.

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A maneira como Quentin Tarantino leva seu elenco, principalmente Russell, Samuel L. Jackson e Goggins, é notável, e Leigh rouba a cena sempre que é chamada à aparição. Visto como uma peça quase política pelo tom de suas ideias – e muitas têm a ver diretamente com o sistema norte-americano –, Os oito odiados é um dos grandes filmes da trajetória do cineasta e uma referência para quem gosta de cinema ousado.

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Seus personagens, apesar de parecerem indestrutíveis, não são robóticos ou unidimensionais e, mesmo com cenas de ação que parecem sempre sobressair aos caracteres, Zack Snyder dá uma razão ao movimento ininterrupto por meio de simbologias, principalmente aquelas familiares, a fim de que cada ação pareça ter um sentido, com uma trilha sonora destacada de Hans Zimmer e Junkie XL. Este é um dos filmes do gênero melhor montados, com pouco mais de 2 horas e meia que passam sem que se perceba, com uma coleção de imagens realmente significativas. Ele consegue mesclar os melhores elementos do Batman de Nolan e do primeiro O homem de aço, sem diluir nenhum dos dois, e ainda apresentar novos personagens sem perder o fio da meada. Ao contrário do que diz quase a maioria esmagadora da crítica, Batman vs Superman não é uma possível falha de ignição: é um dos melhores filmes de super-heróis já realizados.

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Não apenas pela fotografia de Lubezki, como pelos conceitos, há um interesse em dialogar com A árvore da vida. Alejandro G. Iñárritu ecoa Malick, porém não o dilui nem exatamente o imita; ele transforma, aqui, a violência numa espécie de ponto de referência da cultura dos Estados Unidos, quando se dizimaram tribos em uma escala imensa. Essa violência tem um enorme contraste com a beleza das imagens do espectador. Como podem essas paisagens esconder tanta violência? Junto a isso, é um filme com um punhado de cenas executadas com perfeição e que cresce na lembrança, principalmente quando alterna os motivos existenciais que perduram na narrativa. Uma obra-prima do cinema, O regresso é inesquecível.

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8 Comentários

  1. Tomás

     /  2 de janeiro de 2017

    Ótima lista, muito eclética. Gostei muito da lembrança de Dois caras legais e Animais fantásticos.

    Responder
    • André Dick

       /  2 de janeiro de 2017

      Prezado Tomás,

      agradeço por seu comentário e fico feliz que também goste desses ótimos filmes.

      Volte sempre!

      Um abraço!
      André

      Responder
  2. Angelo

     /  3 de janeiro de 2017

    BsV é um erro completo.

    Responder
  3. Uma lista de melhores de 2016 com vários filmes de 2015 não dá para entender.

    Responder
    • André Dick

       /  3 de janeiro de 2017

      Caio,

      eu explico no texto que são os filmes lançados comercialmente em 2016 no Brasil. Não é possível fazer uma lista de fato de melhores filmes de 2016 sem assistir a La La Land, Silence, Moonlight, Jackie, A lei da noite, Manchester à beira-mar etc., que ainda não estrearam no Brasil.

      Um abraço,
      André

      Responder
  4. Paula Rocha

     /  11 de janeiro de 2017

    Excelente lista. Concordo totalmente com os 3 primeiros lugares. Como não assisti a todos da lista, quero aproveitar para colocá-los na lista dos que “preciso assistir”.

    Parabéns novamente. Usando um termo clichê, 2016 fechado com chave de ouro.

    Responder
    • André Dick

       /  11 de janeiro de 2017

      Prezada Paula,

      agradeço por sua mensagem generosa e fico feliz que também concorde com os três primeiros lugares da lista. Espero que possa assistir aos outros que não viu e que aprecie.

      Um ótimo 2017 para você e sua família! E volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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