O que está por vir (2016)

Por André Dick

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No ano passado, a cineasta francesa Mia Hansen-Løve, que tem apenas 35 anos, lançou Eden, um filme sobre a cena musical dos anos 90 na França e recebeu muitas críticas negativas. Particularmente, era um dos melhores de 2015, uma obra-prima em termos de combinação entre som e imagens. Eis que estreia sua nova obra, O que está por vir, e os elogios a ela se sentem descompassados, inclusive tendo sido ela escolhida como melhor diretora no Festival de Berlim. Esses elogios, particularmente, deveriam ter sido feitos exatamente a Eden, mas, por uma dessas escolhas estranhas de quem recebe a obra, é este novo filme que recebe as láureas.
Isabelle Huppert interpreta Nathalie Chazeaux, uma professora de filosofia que se separa do marido, Heinz (André Marcon), enquanto tem grande admiração por um aluno, Fabien (Roman Kolinka). Ao mesmo tempo, além de ter um filho, Johann (Sola Forte), sua filha, Chloé (Sarah Le Picard), está grávida, e sua mãe,Yvette (Edith Scob, mais recentemente a chofer de Holy Motors), enfrenta problemas de saúde. Esses personagens estão cada vez se deparando mais com um momento crucial de definição, e o casal composto por Nathalie e Heinz certamente se mostra como parte de um caminho a ser seguido, não necessariamente pela vontade própria de cada um e sim pelo que é imposto de acordo com as situações que cada um vai vivenciando. O passeio inicial do filme pela praia de Saint-Malo mostra, na verdade, que esses personagens não possuem nenhuma ligação exata com a natureza; eles têm uma relação com o universo filosófico.

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Havia material suficiente aqui para uma boa obra, no entanto Hansen-Løve parece querer fazer mais um trabalho acadêmico aqui – em certos momentos, o filme se sente como um de fato, entregue pela metade. Cineastas franceses têm grandes obras filosóficas, mesmo quando não possuem esse objetivo definido, e poderíamos lembrar mesmo de Azul é a cor mais quente, que envolvia citações culturais sem parecer excessivo ou mesmo propositivo neste campo. Também há o delicado A bela Junie, de Cristophe Honoré, em que um jovem professor se apaixonava por uma aluna, com raros momentos vividos por um elenco de alto nível. Abbas Kiarostami fez o mesmo nos belíssimos Cópia fiel e Um alguém apaixonado, com traços de Eric Rohmer. Já havia alguns elementos disso em Eden, suplantados por uma emoção seca. Aqui, com citações seguidas a filósofos e ao mundo cultural, a exemplo de Jean-Jacques Rousseau, Fabien não foge ao retrato do jovem com aspirações culturais e seu discurso sempre soa já reprisado, lembrando bastante o superestimado Depois de maio, exatamente do marido de Hansen-Løve, Olivier Assayas, e um pouco do superestimado Os sonhadores. Kolinka não ajuda no propósito de transformar o personagem em algo mais interessante para o espectador. Não é uma característica da diretora trabalhar de maneira extensiva seus personagens, no entanto não havia ainda esta indecisão entre seguir um caminho interessante e outro um tanto deslocado. Os tempos vão se misturando de maneira fluida – o que não se transforma em natural é justamente o objetivo de cada personagem, à medida que tudo está a serviço apenas do discurso pessoal de Hansen-Løve e ele se mostra vago no sentido de não querer, em nenhum momento, deixar escapar um instante de emoção que pareça real. Para ela, o comedimento é impressionante.

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Os personagens da professora e do aluno ressoam um certo romantismo francês, que a diretora liga a protestos políticos, não sem uma certa crítica a este mesmo universo. No entanto, a diretora desta vez não consegue fazer esses personagens acessíveis, nem mesmo com a boa atuação de Huppert, e a narrativa se sente um tanto sem vigor, apenas para preencher lacunas inevitáveis. Imagine que se trata da mesma atriz que entregou uma atuação extraordinária em Elle, mas porque neste tinha de fato um roteiro elaborado. Em O que está por vir, o espectador entende que são pessoas presas a um universo teórico, sem uma vida realmente palpável – e, ao mostrar isso de maneira explícita, acaba se tornando igual ao modo de existir que critica. Não se sabe se ela deseja um romance com o aluno mais jovem, se deseja apenas superar a separação do marido ou se pretende entender a mãe que se encontra com problemas de saúde. Certamente, ela deseja tudo isso, mas não pode transparecer. Huppert tinha uma atuação brilhante em Elle porque lhe deram a oportunidade de revelar a si mesmo como atriz; aqui, a diretora apenas extrai uma versão competente daquele filme, correta e sem grande complexidade.
É interessante como a diretora conseguia trabalhar bem a trilha sonora em Eden, assim como a fotografia, e aqui não consegue acertar o tom, fazendo algo com objetivo de ser esmaecido e mais com tentativa de apresentar elementos da natureza. O que era uma real emoção contida anteriormente se apresenta aqui apenas como um grande estudo sobre personagens que não vivem fora do universo no qual se encontram e nem gostariam disso – mesmo que quisessem se deslocar para uma casa de campo. Talvez seja o impasse, no momento, da própria Hansen-Løve. Se era seu objetivo revelar o próprio impasse, atingiu por caminhos que não levaram a uma obra interessante.

L’avenir, ALE/FRA, 2016 Diretora: Mia Hansen-Løve Elenco: Isabelle Huppert, Roman Kolinka, Edith Scob, André Marcon, Sarah Le Picard, Guy-Patrick Sainderichin, Yves Heck, Rachel Arditi Roteiro: Mia Hansen-Løve Fotografia: Denis Lenoir Produção: Charles Gillibert Duração: 102 min. Distribuidora: Zeta Filmes Estúdio: CG Cinéma

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