Rogue One – Uma história Star Wars (2016)

Por André Dick

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No ano passado, todas as expectativas estavam voltadas para o fato de J.J. Abrams ter preparado o capítulo 7 da série Star Wars, intitulado O despertar da força, que alcançou grandes críticas e uma marca inacreditável nas bilheterias, de mais de 2 bilhões de dólares. Com vários méritos, no entanto, O despertar da força não se sentia plenamente um filme da saga: o estilo de Abrams, tentando reaproveitar de Lucas, fazia muitas vezes apenas uma reciclagem de antigas imagens e o estilo do diretor visivelmente não tinha liberdades. Para este ano, havia se anunciado um derivado da série, que deveria se passar entre A vingança dos Sith e Uma nova esperança, de 1977, no qual George Lucas mostrou seus personagens antológicos pela primeira vez. Mais uma chance para vender caixas de brinquedos para a Disney… Rogue One – Uma história Star Wars é dirigido por Gareth Edwards, cujo experimento anterior é o particularmente fraco Godzilla, um festival de destruições por onde o monstro icônico passa, e se sente, desde os trailers, como tal: mistura imagens que lembram os filmes da primeira trilogia com um elenco de qualidade. Não ajudou o fato de a primeira exibição junto a executivos ter recebido inúmeras críticas, convidando o diretor a refilmagens e a uma inclusão, talvez maior, de um personagem relevante para a saga.

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Nesta história, Jyn Erso é uma menina filha de Galen (Mads Mikkelsen), recrutado para trabalhar na construção de uma fortaleza espacial por Orson Krennic (Ben Mendelsohn). Ela fica órfã e passa a ser cuidada por Saw Gerrera (Forest Whitaker). Já adulta, ela se torna uma das componentes da Aliança Rebelde, integrando-se à equipe de Cassian Andor (Diego Luna) e seu androide K-2SO (Alan Tudyk). Enquanto isso, Galen manda uma mensagem à Aliança por meio de um piloto, Bodhi Rook (Riz Ahmed, colega de Gyllenhaal em O abutre). Numa das visitas a uma cidade, Jedha, eles conhecem Chirrut Îmwe (Donnie Yen), um guerreiro oriental orientado pela força – embora não especificamente um jedi – e o mercenário Baze Malbus (Jiang Wen). Ela acaba também se encontrando com o antigo mentor, Saw Gerrera, que possui uma mensagem de holograma que lhe interessa. Do lado do império, Grand Moff Tarkin (Peter Cushing, ressuscitado digitalmente de maneira espantosa) se reúne com Krennic, pondo sua gestão sobre a construção da fortaleza espacial em dúvida.
Quando se assiste a este tipo de filme, o certo é esperar no mínimo competência técnica. Como O despertar da força, Rogue One é espetacular em termos de efeitos visuais. Edwards, no entanto, ao contrário de Abrams, se aprimora ainda mais nos cenários e nas locações. A direção de arte é um espetáculo à parte. Há um senso de realismo e fantasia nela que não havia na obra de Abrams e era seu principal empecilho: em certos momentos, O despertar da força lembrava mais um parque temático do que propriamente um filme da saga Star Wars.

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Inevitável perceber que Edwards também tem uma noção muito maior no que se refere às transições de cena que tinham as peças originais de Star Wars: com a trilha retumbante de Michael Giacchino, mais efetiva do que a de John Williams em O despertar da força, a grandiosidade atinge o ápice durante as batalhas. Embora comece de maneira atropelada, encadeando sequências sem ligação visível entre si, a narrativa se recupera em seguida e não há quedas no ritmo nem a ligação entre os personagens soa forçada como acontecia em alguns momentos do capítulo de Abrams, sobretudo porque tinha de inserir Han Solo e a Princesa Leia em meio a um novo elenco. Edwards têm apenas a necessidade de expor uma missão e uma situação de guerra – mas o faz de modo extremamente notável. Desde referências ao filme A hora mais escura – o diretor de fotografia é o mesmo, Greig Fraser – até Apocalypse now, Rogue One tem ainda momentos que remetem ao grande A vingança dos Sith, de Lucas. Muitos momentos lembram principalmente de Guerra nas estrelas original, sobretudo na precariedade de alguns ambientes, sem o CGI normalmente utilizado, e isso leva o filme a uma nova escala. E Edwards tem um talento notável, não exibido a meu ver em Godzilla, para sequências de ação em que a grandiosidade se torna elemento normal, filmando naves como os Wachowski o fizeram em Matrix revolutions, de maneira mais aproximada e realista.

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Do mesmo modo, apesar de o roteiro de Rogue One não trazer novidades em termos de estrutura (ele é assinado curiosamente por dois diretores, Chris Weitz, de Um grande garoto e A bússola de ouro, e Tony Gilroy, de Duplicidade, Conduta de risco e O legado Bourne), eis a história da Disney que menos se parece com material da companhia. Se ele tivesse sido dirigido por Lars von Trier em sua estreia na ficção, não seríamos surpreendidos com tal grau de descompromisso com a bravura da saga que envolve a família Skywalker. Em Star Wars, sempre tivemos heróis quase imbatíveis; em Rogue One, os componentes da missão são figuras valentes, mas extremamente frágeis. Não vemos arroubos de heroísmo por parte de Jyn e Cassian, apenas a tentativa de completar a missão da melhor maneira. Isso é uma novidade para a mitologia Star Wars e não atenua quando Edwards leva tudo a um terceiro ato realmente espetacular, que rivaliza diretamente com O retorno de Jedi, numa mescla de cenas irreparáveis e extraordinárias. Que o mesmo diretor que fez Godzilla tenha feito este primor técnico e fantástico é uma surpresa – e nos perguntamos se Abrams não deveria ter estado aqui (spoiler até o fim do parágrafo), numa espécie de Melancolia situado no espaço sideral. Esta sequência que remete à obra de Von Trier é de uma beleza plástica memorável, unindo alegria e tristeza num laço inseparável, graças às atuações de Luna e Felicity.

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Nem mesmo a atuação de pouco vigor de Felicity Jones extrai a carga dramática que o filme possui, muito pela presença do ótimo Diego Luna, parceiro de García Bernal na pequena obra-prima … E sua mãe também, do mexicano Alfonso Cuarón. Donnie Yen e Ahmed estão ótimos, mesmo com pouco roteiro, e Mendelsohn, o que é de praxe em suas atuações (a exemplo de Reino animal), temível. Os personagens não atingem seu ápice porque exatamente são mensageiros na nova esperança – eles se concretizam por meio daqueles que ainda virão – e este é o lado mais emocionante de Rogue One, que parece simplesmente não ter sido dirigido para encantar as plateias encantadas pela saga e sim em conquistar um novo público (lamenta-se apenas que o final se sinta apressado e apenas uma ponte estabelecida com Uma nova esperança de maneira muito abrupta, tornando-se, aqui sim, mais para os fãs e conhecedores de Star Wars).
Havia uma grande obra nas mãos de Abrams no ano passado, mas quem a realiza é Edwards, este ano e contra todas as probabilidades. Rogue One não se sente apenas como um derivado: este é um legítimo filme Star Wars e que merecia carregar os créditos de história inicial, o que não acontece por ser exatamente apenas um capítulo à parte dos outros. Mas que capítulo! Não é simplesmente um fan service, apesar de remeter aos outros da saga, e sim uma obra de beleza plástica e conceitual que lembra o que George Lucas fez numa década conhecida hoje como “anos 80”, mas de maneira realmente contemporânea, mostrando uma missão em prol de um novo tempo a ser resgatado.

Rogue One – A Star Wars Story, EUA, 2016 Direção: Gareth Edwards Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Jiang Wen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen, Jimmy Smits Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Allison Shearmur, Kathleen Kennedy, Simon Emanuel Duração: 134 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Allison Shearmur Productions / Lucasfilm Ltd / Walt Disney Studios Motion Pictures USA

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6 Comentários

  1. O Título do filme deveria ser “A Vingança do Corellian Corvette”!!! O que foi aquilo cara! Sabe qual a tradução de STAR WARS? Guerra nas Estrelas, e foi isso que tivemos. Rogue One é um filme de guerra, e eu como fã de SW, Galactica e de filmes como TORA TORA TORA, Resgate do Soldado Ryan, etc, AMEI! Quem tá criticando o filme é por que gosta de Jar Jar Binks! A menina realmente faltou história, acho que o filme ficou longo demais e cortaram muita coisa ( quero ver a versão Blue Ray ), mas o resto, que RESTO! Adorei todos os personagens, lagrimas nos olhos umas 3 vezes e puxei a batida de palmas no final da sessão. Empatou com o Império Contra Ataca na meu ranking de melhor filme! Sai do cinema querendo mais. QUERO MAIS!!!

    Responder
    • André Dick

       /  17 de dezembro de 2016

      Prezado Augusto,

      agradeço por seu comentário. Eu sinceramente não estava com grande expectativa para este filme, mesmo com todo o marketing e por causa do capítulo feito por Abrams, competente, mas menos do que eu aguardava. Mas, igual a você, este filme realmente tem grande impacto para quem aprecia filmes de guerra, a exemplo dos que assinala, inclusive o clássico Tora! Tora! Tora! e, principalmente, para quem sentiu falta do clima de O império contra-ataca e O retorno de Jedi no filme de Abrams, no sentido das batalhas e da agilidade narrativa. Os personagens despertam simpatia, mesmo sem serem desenvolvidos como poderia, e o final é de um impacto raro. Não sei como ele ficaria ainda num TOP Star Wars, pois assisti muitas vezes aos outros, mas este é, sem dúvida, grande. Não queria me repetir e dizer que gosto de edições estendidas de filmes, mas não reclamaria de uma com 30 minutos a mais de cenas certamente deletadas.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Gostei muito do filme. Sou fã de carteirinha de toda a saga e seus derivados e realmente achei esse filme muito diferente do padrão estabelecido pra saga. Concordo com você a respeito do final corrido, mas(sem spoilers) a cena final com AQUELE fã service foi lindamente impressionante! Espero que levem adiante a ideia de encerrar a saga dos Skywalkers com essa nova trilogia e dediquem-se aos derivados pois temos ótimas histórias a serem contadas!

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    • André Dick

       /  17 de dezembro de 2016

      Prezado Ranieri,

      agradeço novamente por sua mensagem. Tive a mesma impressão sua, de que esse filme é diferente do padrão estabelecido para a saga, mesmo tendo referências claras de outros filmes. É como se tivesse o lado mais soturno de A vingança dos Sith, mas filmado como se fosse realmente uma sequência de O retorno de Jedi. O filme de Abrams não me deu essa impressão por completo, apenas em momentos determinados. Me chamou muito a atenção de como o filme de Abrams tem cenários mal resolvidos em relação a este, por exemplo. Também espero que a nova trilogia continue com toda a desenvoltura possível e depois façam outros filmes como parte deste universo, de preferência seguindo a linha de Rogue One, particularmente uma surpresa. A sequência a que se refere, no final, é espetacular. É um fan service e um grande momento do cinema em 2016.

      Volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder
  3. excelente análise! o episodio VII é muito pragmático, segue ou procura seguir com os mesmos olhos da trilogia VADER… Rogue One foge mais à premissa de que a direção tenha que seguir as marcas de george lucas e isso que o faz muito bom!!! acredito que o VIII seguira o mesmo caminho… aguardemos

    Responder
    • André Dick

       /  23 de dezembro de 2016

      Prezado Rubens,

      agradeço por seu comentário generoso. Também acho que o episódio feito por Abrams no ano passado é muito pragmático e acaba não buscando traços novos. Este Rogue One, apesar de recuperar elementos de George Lucas, nas batalhas épicas, parece mais inovador ao mostrar personagens que independem da saga Skywalker. Não imaginava que isso seria possível, no entanto Edwards é convincente. E aguardo com expectativa o episódio VIII, esperando que Johnson faça um trabalho melhor do que o de Abrams e mais próximo deste.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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