A assassina (2015)

Por André Dick

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O diretor de Taiwan Hou Hsiao-Hsien, autor, por exemplo, de Flores de Shangai, é conhecido principalmente pelos espectadores que seguem obras mais à margem do cinema estrangeiro, não apenas pela composição de imagens, como também por sua tendência a quase não usar diálogos para compor uma narrativa. Neste filme pelo qual foi premiado como melhor diretor no Festival de Cannes em 2015, ele situa a história na China do século IX, contando a trajetória de Nie Yinniang (Qui Shu), sequestrada quando tinha apenas 10 anos de idade por Jiaxin (Fang-yi Sheu), uma freira. A partir daí, ela, por meio de vários treinamentos, se tornou uma assassina, preparada sobretudo para aniquilar homens corruptos ligados ao governo, o que acontece logo no início de maneira impactante. No entanto, em outra missão, sua vítima segura um bebê e ela desiste. Isso faz com que Jiaxin fique bastante irritada e que envie Yinniang a Weibo, a maior província, durante a queda da dinastia Tang, onde deverá matar Lord Tian Ji’an (Chen Chang), casado com uma Lady Tian (Yun Zhou), embora pareça passar mais tempo com uma concubina, Huji (Hsieh Hsin-Ying).

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Repare-se na maneira como Hsien evoca esse ambiente palaciano, em que as cortinas parecem afastar uns dos outros e mesmo assim estão próximos, e, apesar da quietude, tudo parece preocupante. O problema é que Tian é seu primo, a quem ela, antes de ser sequestrada, estava prometida, ou seja, com quem ia se casar, e que está em crise com um de seus ministros, Chiang Nu (Shao-Huai Chang). As danças e os tambores das festas anunciam um período especialmente complicado, em que o passado voltará à tona para um ajuste de contas necessário. Mescle isso com o fato de os pais de Yinniang, Nie Feng (Dahong Ni) e mãe (Mei Yong), terem optado por um determinado destino para a filha e se concentra o principal impasse dessa vida.
Com uma fotografia extraordinária de Mark Lee Ping Bing, parecendo filmar Barry Lindon num espaço oriental, fixando o olhar nos cenários irretocáveis, nas cortinas esvoaçantes e nos telhados do reino para onde vai, A assassina tem um lado pouco convidativo (a lentidão de sua trama) que é compensado pela atmosfera tremendamente imersiva. Quando assistimos ao filme, parece que estamos juntos com os personagens, seja num palácio à noite iluminado por homens carregados de tochas, seja numa cachoeira, seja em meio a uma floresta onde desencadeia uma luta sangrenta. Ele se enquadra no gênero wuxia (武侠), de origem chinesa, que mistura artes marciais e fantasia. O início em alto movimento e filmado em preto e branco é um prólogo para o que se segue e difícil imaginar uma sequência prévia ao final tão impactante.

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A história muitas vezes é confusa, antilinear e sem diálogos (uma complicação em Millennium Mambo, por exemplo), o que é comum nos filmes do diretor, e ainda assim trata-se de uma obra rara. Nie Yinniang, numa bela atuação de Shu Qui, é uma personagem fascinante mesmo que pouco se pronuncie porque ela parece se mesclar à natureza, como se fizesse parte iminentemente dela, do vento, das árvores, movendo-se de forma sorrateira: é ela que vai abalar Weibo e os homens que a perseguem não têm nenhuma capacidade de enfrentá-la. Hsiao-Hsien aplica uma espécie de subtexto a essa história simples quando ela precisa se recuperar num vilarejo, antes de tentar empreender a sua missão: ela conseguirá ou voltará a ser uma pessoa comum, sem ligação com a morte? Hsiao-Hsien basicamente mostra essa história de maneira que o espectador não tem afeto pelos personagens e sim pelos cenários, e isso não ocorre sem o pensamento fundamental de que apenas assim conseguimos entendê-los. Em muitos momentos, o filme lembra a obra grandiosa de Kar-Wai O grande mestre: se lá mostrava-se a figura de Ip Man, aqui a figura dessa assassina treinada não é menos evasiva do que se considera plena realidade para entendê-la. Há, como na peça de Kar-Wai, uma certa abstração, mas calcada num sentimento poético de que ela pode se manifestar em qualquer lugar. Mais do que com este filme de Kar-Wai o de Hsiao-Hsien recupera alguns instantes que remetem a Cinzas do passado, considerada a verdadeira estreia daquele diretor.

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Com um panorama bastante eficiente do mundo oriental na queda dessa dinastia Tang, A assassina se notabiliza por conseguir entrelaçar lacunas de narrativa com atores que parecem estar de acordo com cada posicionamento que vemos na tela. Vemos, de forma indireta, como funciona a estrutura de um clã familiar, assim como sua ligação com um passado nem tão distante. Há também elementos de Ran, de Kurosawa, na imobilidade da câmera dentro do palácio, como se ele representasse a própria falta de desejo de mudança e a manutenção das regras e composições seculares, e um pouco menos da arte saturada de Herói, de Zhang Yimou, excessivamente voltado às imagens internas, sem deixar escapar a beleza natural que Hsiao-Hsien adota. O espectador não deve esperar por sequências de lutas prolongadas ou mesmo focadas em detalhes, e sim por uma narrativa que baseia suas indagações nessa relação intrínseca com o mundo em movimento. Com isso, o figurino adquire uma imponência que leva a uma integração dos personagens com cada cenário, assim como um grupo de mulheres caminhando ou uma mulher cantando para o pássaro azul pode lembrar mais uma visualização de um tanka.

刺客聶隱娘, China/Taiwan/Hong Kong, 2015 Diretor: Hou Hsiao-Hsien Elenco: Qui Shu, Fang-yi Sheu, Chen Chang, Yun ZhouHsieh Hsin-Ying, Shao-Huai Chang, Dahong Ni, Mei Yong Fotografia: Mark Lee Ping Bing Trilha Sonora: Giong Lim Produção: Ching-Song Liao, Wen-Ying Huang Duração: 104 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Central Motion Pictures Corporation / China Dream Film Culture Industry / Media Asia Films / Sil-Metropole Organisation / SpotFilms / Zhejiang Huace Film

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