O contador (2016)

Por André Dick

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Há poucos thrillers que merecem ser chamados assim, ou seja, a maioria deles têm características de um gênero que sobrevive quase dos mesmos lugares-comuns. Nos últimos anos, todos possuem como referência a série de Jason Bourne e como diretor Paul Greengrass (e não estou levando em conta como outra referência John Wick, com Keanu Reeves). Em O contador, Ben Affleck atua como Christian Wolff, que tem uma espécie de autismo que o permite ter talento com cálculos como se fosse o menino de Mentes que brilham. Ele trabalha num escritório em Plainfield, Illinois, alternando os jantares em casa, com a comida hermeticamente colocada no prato, e tiros a alvo pela vizinhança, que assustam os moradores mais próximos. Deve-se dizer que em sua infância ele viveu um tempo no Instituto de Neurociência Harbor em New Hampshire.
Ele recebe orientação pelo telefone sobre novas missões, pois seu escritório pode ser apenas um motivo para não explicitar quem realmente é. Trata-se de uma vida dupla, com toda clareza e sem spoilers. Há algo estranho: ele mexe com números e atende clientes normalmente, mas parece estar preparado para a guerra. Para completar, seu pai (Robert C. Treveiler) era um militar que pode ter lhe ensinado artes marciais e outras técnicas desconhecidas de grande parte das pessoas, sem querer que seu filho (quando criança interpretado por Seth Lee) tivesse uma vida sob tratamento específico, como havia recomendado um neurologista (Jason Davis). Agora Wolff é perseguido por Raymond King (JK Simmons), o diretor de crimes financeiros para o Departamento do Tesouro, que chantageia uma candidata, Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson), a descobrir informações sobre ele.

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Enquanto isso, ele vai fazer uma auditoria numa companhia de investigação na área de robótica e próteses, com o auxílio da contadora Dana Cummings (Anna Kendrick), que encontrou finanças suspeitas. Lamar Blackburn (John Lithgow) e sua irmã e associada Rita Blackburn (Jean Smart) cooperam com a investigação de Wolff, mas surgem novos problemas pelo caminho, envolvendo um homem chamado Braxton (Jon Bernthal) e outro chamado Francis Silverberg (Jeffrey Tambor). Será que ele está sozinho?
O contador possui um roteiro instigante de Bill Dubuque, baseado num material da DC, com algumas nuances não encontradas em filmes do gênero e algumas subnarrativas sinuosas e que acabam muitas vezes escapando ao controle do espectador. A fotografia elaborada de Seamus McGarvey, habitual colaborador de Joe Wright (Desejo e reparação, Anna Karenina, Peter Pan), acompanha cenas de ação coreografadas com raro talento pelo diretor Gavin O’Connor, e se destaca aqui a mescla com elementos de humor involuntários que não tornam a trama excessivamente pretensiosa, como indicaria no seu início. Affleck está em seu segundo momento de ação do ano, depois de Batman vs Superman, enquanto se aguarda A lei da noite, o próximo dirigido por ele. Esta obra, assim como o personagem de Affleck, possui uma dupla camada: por um lado, trata-se de um thriller, por outro de um drama focado na infância e nos enigmas de um passado que não se resolve – e isso fica claro por meio da figura de King. Os flashbacks da história são pontuais e não cansam, e o diretor consegue minimizar o drama familiar ao contrário do que acontecia no seu filme mais conhecido até então, Guerreiro, sobre o universo do MMA.

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As relações do personagem central se estabelecem por meio da distância e do seu afastamento do que seria mais comum, e Affleck consegue desenhar essas facetas de modo inteligente. Os momentos em que ele fica solitário são genuinamente perturbadores, incomodando o espectador a ponto de as imagens adquirirem uma força que talvez não possuíssem. Não concordo com o fato de que o autismo, por exemplo, estaria sendo desrespeitado pela narrativa: trata-se de uma visão sobre ele, assim como o foi nos anos 80 Rain Man. Não há uma discussão exatamente sobre as características do autismo, porém Affleck tenta por meio do gestual, acima de tudo, incorporar elementos que possam traduzir a sensação do personagem central.
E as referências à pintura de Pollock, mestre do expressionismo abstrato, são essenciais para a compreensão de Wolff. Do mesmo modo, temos uma pintura de Jean Renoir (de uma mãe, figura ausente de sua vida, com seu filho ao fundo), um mestre em reproduzir imagens da infância, à qual Wolff está ligado de maneira decisiva, tanto para explicar seu passado quanto seu presente. Mais interessante é a tranquilidade que surge dessas pinturas em oposição ao que ele vivencia. Em alguns momentos, a narrativa lembra Três dias do condor, dos anos 70, em que um agente do governo feito por Robert Redford se via em meio a uma perseguição sanguinária.

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É permitido dizer que a própria trama incursiona por alguns elementos de abstração, não revelando ao certo os personagens, mantendo-os a certa distância, como o do próprio King. Com os personagens, parece existir uma crítica à cultura norte-americana: o prato feito por Wolff, por exemplo, ou a música que ele escuta, como se estivesse numa área de guerra. O’Connor segue essa linha com certa discrição que diferencia seu thriller dos mais habituais: as sequências de ação se mostram quase parte de um policial arthouse, não fossem os acréscimos pop trazidos à trilha sonora e à relação de Wolff com sua parceira de contabilidade. A fotografia traz imagens que alternam o inverno e o outono, pelos tons, esclarecidos pelas mudanças dos personagens. Apenas se lamenta que não sejam dadas a Kendrick as cenas necessárias para que seu personagem seja mais do que coadjuvante, assim como a JK Simmons, com um papel misterioso na medida certa, e John Lithgow, excelente ator, aqui subaproveitado. Para uma produção de 44 milhões, o filme já obteve retorno de 144 milhões e, a partir disso, pode-se até esperar uma franquia: seria uma maneira de explorar melhor esses personagens que não tiveram seu potencial desenvolvido plenamente aqui.

The accountant, EUA, 2016 Diretor: Gavin O’Connor Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, JK Simmons, Jon Bernthal, Jean Smart, Cynthia Addai-Robinson, Jeffrey Tambor, John Lithgow Roteiro: Bill Dubuque Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Mark Isham Produção: Lynette Howell, Mark Williams Duração: 128 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Electric City Entertainment / Zero Gravity Management 

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