Animais fantásticos e onde habitam (2016)

Por André Dick

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Depois de dirigir os quatro últimos filmes da série Harry Potter, David Yates estabeleceu uma parceria com a autora J.K. Rowling. Agora, baseando-se no roteiro dela, a partir de um livro nos moldes de um bestiário que ela também escreveu, temos a volta a um universo que se convencionou chamar de mágico e aqui parece traçar paralelos com a realidade de modo mais abrangente. Animais fantásticos e onde habitam é o primeiro filme de uma anunciada franquia composta por cinco obras.
Em 1926, o magiozoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega de viagem a Nova York. Este início poderia lembrar Era uma vez em Nova York, na chegada da personagem de Marion Cotillard a uma América prometida, e o cuidado visual não fica distante: tudo no filme é apresentado com uma riqueza de detalhes. Durante um discurso de Mary Lou Barebone (Samantha Morton), um dos animais que ele traz em sua mala escapa; é o Niffler, que tem atração por objetos reluzentes. Newt acaba se deparando com Jacob Kowalski (Dan Fogler), um “no-maj”, um trouxa (ou seja, os não magos), que deseja ter uma padaria, e leva os doces que faz para obter um negócio no banco. Ambos acabam trocando de mala. A investigadora Tina Goldstein (Katherine Waterston) leva Newt para MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos), mas a presidente Seraphina Picquery (Carmen Ejogo) e Percival Graves (Colin Farrell) não lhe dão a devida importância.

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No entanto, várias criaturas escapam da mala, agora sob alçada de Kowalsi, atraindo Tina e Newt. Juntos, eles conhecem a irmã de Tina, Queenie (Alison Sudol, agradável). Já Mary Lou Barebone dirige um orfanato, onde ela ensina as crianças a acreditar em bruxos, entre as quais Credence Barebone (Ezra Miller, excepcional), sempre sob proteção secreta de um dos integrantes do MACUSA.
O roteiro de J.K. Rowling é ágil, principalmente em sua primeira meia hora quando apresenta os personagens de maneira a despertar simpatia. Redmayne faz uma boa composição, entre o tímido e o corajoso, como Newt, conseguindo se desvencilhar não apenas da atuação marcante de A teoria de tudo como dos trejeitos um pouco forçados de A garota dinamarquesa e, principalmente, do vilão que apresentava em O destino de Júpiter, mas é Waterston, filmada como uma atriz dos anos 20 e 30, que se destaca com sua sensibilidade vista antes em Vício inerente. Por sua vez, o coadjuvante Fogler tem um tempo de humor notável, que combina com o de Sudol, fazendo esses personagens a princípio atrativos. Com uma fotografia primorosa de Phillipe Rousselot, uma trilha sonora brilhante de James Newton Howard (sem açucarar demais as notas e evocando a trilha de John Williams de Harry Potter, assim como de Alexandre Desplat) e um figurino irretocável, Animais fantásticos e onde habitam é uma das melhores surpresas entre os blockbusters deste ano.

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É o chamado filme que tem uma finalidade comercial bem clara e ainda assim consegue ter coração. Como um não fã exatamente da série Harry Potter, apesar de reconhecer as qualidades dela, especialmente dos três últimos capítulos, esta obra, que se passa setenta anos da saga do menino com poderes supremos, sugere temas envolvendo a magia sob um ponto de vista talvez mais soturno. Há menções, claro, a Hogwarts, mas o filme se sente outro universo, ou seja, o espectador não tem nenhuma obrigação de conhecer a outra franquia para poder entendê-lo. Além disso, ele evita ser o que parecia ser anunciado: uma espécie de Jumanji dos anos 20, com animais soltos por Nova York. Ele toca mais aquele ponto em que uma figura ameaçadora que pode estar causando estragos na cidade se volta contra figuras políticas, representadas pelo senador Henry Shaw (Josh Cowdery), filho de Henry (Jon Voight).
O filme trata de uma cidade não apenas ameaçada por criaturas e sim a ser reconstruída, e pode-se destacar a beleza das imagens que dialogam com King Kong, de Peter Jackson, principalmente em seus instantes de uma enorme criatura (não daremos spoilers) que corre pelo gelo atrás de Kowalski. As cenas de ação têm um vigor interessante, já empregado por Yates nos episódios que dirigiu da série Harry Potter, mesclando a elas um tom assustador.

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Existe uma certa desenvoltura na construção dessa narrativa, passada quase completamente à noite, com a sua figura mítica da águia, conhecida em diversas fábulas. A estreia como roteirista de Rowling se mostra altamente competente ao dosar passagens de um lirismo natural – a entrada no universo dos animais fantásticos – e de quase pesadelo – quando Scamander e Tina são colocados em ameaça. Não há o excesso de subtramas da série Harry Potter, que muitas vezes leva o espectador a perder o fio da meada e Rowling trabalha com referências oportunas à Nova York transformada depois de 11 de setembro, representadas antes de tudo por essa águia, que remete, na narrativa, também ao Arizona, ao velho oeste utópico da cultura norte-americana. Há um trânsito fluente entre o drama e o humor, na figura do padeiro, por exemplo, graças à atuação de Fogler, e uma atmosfera agradável que remete ao cinema clássico, principalmente quando os personagens visitam uma taverna. Newt não aprecia exatamente os seres humanos – tampouco as figuras importantes do filme parecem gostar – e as criaturas que carrega parecem ser ameaçadoras não apenas para a cidade, mas para quem vive no universo mágico. Por outro lado, são dele os gestos de generosidade ao longo da trama e a compreensão que ele lança sobre as ameaças a Nova York são a de quem exatamente entende o que acontece em seus subterrâneos mesmo que não aparente ou finja estar distraído.

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Neste ano, Yates já havia lançado A lenda de Tarzan, que trazia a ligação do homem com a natureza: aqui, ele mostra a ligação do homem com a natureza por meio de um universo mágico e extraordinário, e a visita que fazemos ao artefato que Newt carrega é impactante na resolução dos efeitos visuais – e, com CGI ou não, são magníficos. Esse artefato (a mala) contém não apenas criaturas fantásticas, como poderia também abrigar a cidade – e no momento-chave do final ela adquire uma imponência ainda maior. Se Harry Potter teve pelo menos dois capítulos iniciais como uma espécie de teste para o elenco, este filme começa a todo ritmo, tanto com o quarteto quanto com vilões ameaçadores. Ao mesmo tempo, por seu tom agridoce, Animais fantásticos se sente igualmente também como um grande universo ainda a ser explorado com esses personagens: ele realmente envolve o espectador a ponto de nos deixar com saudade deles depois que a sessão termina.

Fantastic beasts and where to find them, EUA/ING, 2016 Direção: David Yates Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Ezra Miller, Colin Farrell, Zoë Kravitz, Ron Perlman, Samantha Morton, Jon Voight, Carmen Ejogo Roteiro: J.K. Rowling Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Heyman, J.K. Rowling, Lionel Wigram, Neil Blair, Steve Kloves Duração: 133 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Warner Bros.

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