Aquarius (2016)

Por André Dick

Aquarius

O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho teve uma carreira inicial baseada em curtas-metragens, a exemplo de Eledrodoméstica e Recife frio, seguidos por uma grande estreia em longa, O som ao redor, que colheu opiniões entusiasmadas no mundo todo, e, particularmente, me parece uma obra-prima. Seu segundo filme, justamente este Aquarius, estreou em Cannes, cercado por um componente político: mais cedo ou mais tarde, muitos souberam que a equipe teria apontado em cartazes que haveria um golpe político no Brasil. Desde então, o filme vem sendo avaliado por muitos espectadores com um viés naturalmente ligado ao evento na Riviera Francesa. Eis que o filme estreou no Brasil na mesma semana em que foi votado o afastamento da presidente Dilma Rousseff, aconteceu a posse do até então interino Michel Temer e a polêmica veio à tona novamente.
Aquarius, de fato, como O som ao redor, é um filme político apenas para quem entende que a arte carrega sempre um discurso por trás dela. É permitido achar assim, e há filmes que se esclarecem contrários a um status quo. Ou dedicados a analisar políticas internas, como Nascido em 4 de julho e JFK, de Oliver Stone, ou à Revolução de Maio de 68 francesa, a exemplo de Amores constantes. Mas essas evidências não aparecem em O som ao redor, tampouco em Aquarius. Kleber Mendonça se movimenta entre uma visão de uma certa classe e suas aspirações à grandeza ou às circunstâncias mais comuns do cotidiano.

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Não por acaso, sua personagem central é Clara (Sônia Braga), na mesma Recife do diretor, uma ex-jornalista musical do alto de seus 60 e tantos anos, que mora no antigo edifício Aquarius, sendo a única a enfrentar a construtora Bonfim, que já comprou os outros apartamentos, a fim de modernizá-los. Essa construtora é representada pelo engenheiro Diego (Humberto Carrão, impecável), fazendo uma ponte com o personagem central de O som ao redor, João (Gustavo Jahn), que era um integrante do mercado imobiliário, cansado de suas tarefas. Diego é comprometido: ele realmente pretende tirar Clara do seu espaço. Este é o retrato universal de muitos personagens, ou seja, podemos ver esta temática nos mais diversos lugares, não sendo estritamente ligada ao Brasil – e me veio à mente principalmente Winter sleep, vencedor de Cannes em 2014, e seu dono de hotel com várias posses na região onde mora. Kleber sabe construir um sentido de ameaça por trás dessa condição, ao mesmo tempo que potencializa um certo drama que remete aos filmes de Jafar Panahi, Asghar Farhadi e exatamente Ceylan.
É nítido como, mais do que em O som ao redor, um filme extremamente experimentalista, apesar de aparentar apenas um retrato urbano, Kleber aqui condensa mais sua narrativa em algo acessível para o espectador. Juntamente com a atuação de Sônia Braga, em certos pontos exitosa e em outros menos (principalmente no ato final, quando algumas sequências são desnecessárias e parece haver um inacabamento), ele faz o filme se movimentar de maneira interessante, recorrendo à memória, mas, surpreendentemente, o faz de maneira plana – ao contrário de O som ao redor. Ele tem um olhar muito apurado para enquadramentos e sua primeira metade tem leveza e movimento, mas aqui lhe faz falta exatamente aquele toque experimental que fazia sua obra de estreia ser uma mistura entre um drama de Roberto Altman e um suspense de John Carpenter.

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Ele torna a personagem na representação de seu olhar sobre essa ameaça à memória sem reter dela o principal: de que ela não é meramente um símbolo contra o que considera uma injustiça; é, antes de tudo, uma personagem cotidiana. Kleber acaba destacando o posicionamento do engenheiro para que a personagem central, mais humana, se torne também uma heroína. Isso não acontece de modo sutil porque Braga, apesar de uma atriz experiente, não consegue em certos momentos superar o roteiro. Sempre que isso não acontece, porém, temos ainda a fotografia notável de Pedro Sotero e Fabrício Tadeu, já presentes em O som ao redor, com um traço luminoso em cada cena e mesmo enigmático, quando mostra os arredores do Aquarius ou a praia do Recife.
O início do filme, mostrando a festa de aniversário de uma tia dela, Lucia (Thaia Perez), anos antes (quando Clara é interpretada por Barbara Colen), se encarrega de ser o ponto inicial para o que se considera uma memorabilia de reuniões: Kleber pretende mostrar como as moradias guardam recordações de uma vida inteira (sobretudo quando mostra Clara lidando com seus discos, e não se pode ignorar que Sônia Braga foi consagrada na TV brasileira com a novela Dancing days, eminentemente musical), como também podem apagar ou reacender relações perdidas. Isso rende tanto boas sequências (mais exatamente no início) quanto algumas deslocadas (quando a namorada do sobrinho coloca uma música para que ela escute). Ele tem um interesse amoroso tímido, um salva-vidas, Roberval (o excepcional Irandhir Santos, infelizmente pouco aproveitado), em instantes que remetem a Praia do futuro, enquanto pretende se afastar de possíveis discussões que podem envolver a venda do imóvel com a filha Ana Paula (Maeve Jinkings, de O som ao redor, novamente irretocável). Esses núcleos são interessantes, porém surgem em meio a outros que parecem inseridos à força.

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A questão é que Kleber Mendonça Filho não apresenta a mesma perícia narrativa que havia exibido no seu filme de estreia, mesmo sabendo-se que se trata de um filme diferente em seu propósito: não por acaso, ele parece, algumas vezes, se voltar àquilo que Farhadi tentou fazer em sua peça seguinte à A separação, O passado. Kleber está mais interessado no retrato de um passado que se mantém no presente e o faz por meio de traços de melancolia, mas imbuídos de um certo vazio que não leva o espectador a ter uma expectativa especial pelo que acontece. O que mais guarda de semelhança com sua estreia é uma procura, às vezes, por imagens de tensão em zooms (não por acaso, há um cartaz de Barry Lindon no apartamento de Clara) e olhares deslocados. Em meio a isso, a necessidade final de desenhar um simbolismo que remete a David Lynch é superada pelo fato de que antes tudo é muito explícito para que soe de modo orgânico.
A recepção, claro, depende do espectador: se Clara torna-se uma personagem fascinante, o filme se encarregará do restante; caso não (particularmente da metade para o final), haverá uma sensação de afastamento e menos interesse. Dramaticamente, Aquarius empalidece perto, por exemplo, de dois filmes recentes que lidam com a casa como espaço da própria história: Casa grande e, no plano afetivo, É proibido fumar – sobre a relação entre uma mulher à procura de um amor (Glória Pires) com seu vizinho (Paulo Miklos). Clara é o ponto-chave, mesmo cercada de parentes e amigos, enquanto a grande riqueza de seu filme de estreia era a multiplicidade real de personagens e caminhos, uma mescla de vozes. Kleber, aqui, tenta se manter mais subjetivo, como se retratasse um monólogo: em certos momentos, ele cumpre com o objetivo; em outros, apenas o filme se encarrega de mostrar a sua passagem do tempo inabalável.

Aquarius, BRA, 2016 Diretor: Kleber Mendonça Filho Elenco: Sônia Braga, Julia Bernat, Humberto Carrão, Barbara Colen, Maeve Jinkings, Buda Lira, Irandhir Santos, Thaia Perez Roteiro: Kleber Mendonça Filho Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd Duração: 142 min. Distribuidora: Vitrine Filmes

cotacao-3-estrelas

 

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