O nascimento de uma nação (2016)

Por André Dick

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O diretor e ator Nate Parker realizou O nascimento de uma nação com cerca de 8,5 milhões de dólares, um orçamento irrisório. Premiado como melhor filme no Festival de Sundance, ele teve grande recepção crítica e se tornou num dos possíveis candidatos ao Oscar num primeiro momento, mesmo porque houve a polêmica da premiação no início deste ano de não indicar artistas negros às categorias. E o título é uma clara referência ao filme de 1915 de D.W. Griffith que elogiava a Ku Klux Khan, inclusive colocando atores brancos pintados de negros, um épico de mais de três horas de duração que revolucionou a maneira de realizar filmes (infelizmente, muitas vezes no mau sentido).
O filme inicia mostrando o personagem central, Nat Turner, na infância (interpretado por Tony Espinoza), em Southampton, Virginia, quando é visto como uma espécie de libertador, marcado pela simbologia africana. Elizabeth Turner (Penelope Ann Miller) o ensina, desde pequeno, a ler e a escrever, além de estudar a Bíblia, aderindo ao cristianismo. Ele cresce e vira pregador. O filho de Elizabeth, Samuel (Armie Hammer), usa o fato de ele ser um pregador para controlar escravos mais rebeldes, e eles convivem proximamente, não exatamente tratando um ao outro como irmão, mas quase. No entanto, há o capataz Raymond Cobb (Jackie Earle Haley), um homem agressivo, já no início em combate com o pai de Nate, Isaac (Dwight Henry), e que pode ameaçar Cherry (Aja Naomi King), interesse amoroso do personagem principal, cuja figura referencial é a da mãe (Aunjanue Ellis).

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A atuação de Parker é excelente, lembrando um pouco a de Ejiofor de 12 anos, mas talvez com mais impacto em alguns momentos, mesmo pela temática mais contundente em alguns pontos, justificando a recepção em Sundance. No entanto, esta recepção exitosa – com grandes chances de ir ao Oscar – se deu até o momento em que uma notícia veio à tona em agosto: de que Parker e seu argumentista, Jean McGianni Celestin, foram acusados pelo estupro de uma jovem na época da faculdade, em 1999. Ao longo do julgamento, inocentaram o diretor, enquanto culparam seu parceiro, que teve as acusações retiradas depois de recorrer. A jovem acabou cometendo anos depois suicídio (há relatos mais apropriados em sites que investigaram o caso). É absolutamente lamentável a tragédia envolvendo a jovem estudante e muito importante o que a imprensa trouxe à cena.
Tentando ver seu filme do ponto de vista artístico e não dos temas que se formaram em razão da polêmica desagradável envolvendo Parker (o que não é fácil), ele tem uma sensibilidade na direção de atores (Hammer dá sua melhor atuação desde A rede social) e no uso da fotografia de Elliot Davis, com sua paleta entre o azul, o verde e o cinza. Pode-se dizer que é um retrato que se preocupa em mostrar um período devastador para a humanidade. O plano religioso também é trabalhado de forma adequada, com uma colocação do discurso como forma de atenuar qualquer rebelião – e, mesmo assim, podendo provocá-la, sob um entendimento equivocado.

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No local onde vive, há um outro reverendo, Zalthall (Mark Boone Júnior), a serviço do dono de Nat e que usa este para tentar controlar outros escravos da região, e um uso grande de imagens simbólicas referentes ao universo da pregação e da retórica que poderia colocar Turner como uma espécie de Malcolm X de sua época. Entre os amigos de Nate, está um escravo, Hark (Colman Domingo) que vê sua noiva (Gabrielle Union) também sofrer. Essas cenas mais graficamente violentas são talvez mais fortes do que aquelas que visualizamos anteriormente em 12 anos de escravidão e Django livre, com Parker tentando usar recursos visuais que McQueen e Tarantino não utilizam. A sensibilidade também é percebida na aproximação de Nat de Cherry, quando ele lhe oferece uma rosa – e a sua cor significa mais do que os espinhos que pode carregar. O espectador é capaz de sentir, como no filme de McQueen, o peso existencial sobre cada personagem.
Belas imagens, como o sangue da orelha sobre o milho, ou os escravos colhendo algodão enquanto o sol parece passar por um eclipse, ou as nuvens da noite cobrindo a lua, antecipam essa vingança baseada nas palavras religiosas. Os homens carregando tochas à noite lembram uma espécie de regresso à África, ao verdadeiro nascimento de uma nação. Uma cena especialmente discreta é impactante é quando uma menina negra brinca puxando outra pela corda na varanda de uma mansão, enquanto Nat observa da carroça.

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Há uma grandiosidade na maneira como os temas são retratados, com certa claustrofobia nos cenários e movimentos de câmera. Parker atua talvez melhor do que dirige, com uma gravidade nas palavras, principalmente quando reconhece o que fazem com escravos em fazendas vizinhas da sua, e isso sustenta talvez a melhor parte do filme. O nascimento de uma nação acontece exatamente por meio desse enfrentamento, que realmente existiu em 1831, mesmo este existindo sem a devida ênfase, por outro lado com uma crueza necessária.
Embora o orçamento seja limitado, o desenho de produção e o figurino têm grande qualidade e, se em alguns instantes parece tentar algo no caminho de Gangues de Nova York, deve mais à obra de McQueen e dialoga com traços de A cor púrpura. E há o elenco, quase todo uniformemente impecável, mesmo os coadjuvantes menos destacáveis. No ato final, Parker utiliza alguns elementos simbólicos e um deles remete, curiosamente, a Twin Peaks – Fire walk with me, de David Lynch, numa espécie de enfrentamento com o destino. Não se compreende que Parker perdoa alguma ação desencadeada pela vingança confundida com a religião, e sim de que ele é atormentado por visões que não explicam o que ele realiza. Isso acontece depois de uma sequência bem trabalhada, embora em fragmentos, e que justifica a obra como um retrato forte sobre a escravidão. Ao mesmo tempo, Nate Parker continuará a ser julgado, por tudo aquilo que teria acontecido em sua vida pessoal, mesmo tendo sido inocentado no plano da justiça, e por todos os temas que tentou levar às telas, de grande importância histórica e cinematográfica.

The birth of a nation, EUA, 2016 Diretor: Nate Parker Elenco: Nate Parker, Armie Hammer, Colman Domingo, Aja Naomi King, Jackie Earle Haley, Penelope Ann Miller, Gabrielle Union Roteiro: Nate Parker, Jean McGianni Celestin Fotografia: Elliot Davis Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Nate Parker, Kevin Turen, Jason Michael Berman, Aaron L. Gilbert, Preston L. Holmes  Duração: 120 min. Estúdio: Bron Studios, Mandalay Pictures, Phantom Four, Tiny Giant Entertainment Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

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