Doutor Estranho (2016)

Por André Dick

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O diretor Scott Derrickson, do remake de O dia em que a terra parou e de alguns filmes de terror, como A entidade, foi o escolhido para estar à frente da adaptação de Doutor Estranho, personagem criado por Stephen J. Ditko e Stan Lee, para as telas de cinema. Antes do lançamento, como ocorrem com os filmes de super-heróis, houve uma grande onda de marketing, levando à questão de que são eles que parecem manter o sistema financeiro de Hollywood girando, a fim de que se possam bancar outras produções. Nada menos do que cinco obras do gênero estão entre as dez maiores bilheterias do ano até o momento: Capitão América – Guerra Civil, Batman vs Superman, Deadpool, Esquadrão suicida e X-Men: Apocalipse. Tudo indica que Doutor Estranho irá entrar nessa lista.
O neurocirurgião Stephen Strange é brilhante e competente no que faz, embora ao mesmo tempo ambicioso. Tendo como interesse amoroso a médica e colega Christine Palmer (Rachel McAdams), ele sofre um acidente que o incapacita a trabalhar no campo a que se dedica com fidelidade e acaba viajando viajando para o Kathmandu, Nepal, a fim de descobrir uma cura. Nisso, já fomos introduzidos também ao grande vilão, feiticeiro Kaecilius (Mads Mikkelsen), que, depois de entrar em Kamar-Taj para roubar um livro proibido, luta com uma figura misteriosa em meio a prédios cuja envergadura e imponência, se desdobrando, remetem claramente ao filme A origem.

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Derrickson, porém, faz dessa experiência visual algo realmente reconfortante, como se a realidade fosse um jogo de espelhos desmontável. Ou seja, o que Doutor Estranho mais joga para o espectador é uma necessidade de questionar o que seria, afinal, a realidade: no filme, tudo passa a ser colocado em dúvida, inclusive a existência. Se na peça de Nolan havia uma inspiração filosófica, em Doutor Estranho Derrickson abre um leque mais pop. Quando o personagem se refugia no Oriente, e o filme incursiona numa linha de meditação, por meio dos personagens da Anciã e de Mordo (Chiwetel Ejiofor), o roteiro de Derrickson com Jon Spaihts e C. Robert Cargill apresenta uma amostra da discussão dos planos físico e material de modo delicado.
Há uma interessante busca de si mesmo que claramente dialoga com outras histórias, mas é o cuidado com que esse ambiente é introduzido que faz o espectador ficar agradecido pelas imagens em composição: no momento em que a Anciã leva Strange a uma viagem psicodélica, pode-se lembrar mesmo de Bowman em 2001 ou de Enter the void, de Noé: é, em suma, espetacular. Derrickson nunca chegou a ser um cineasta vistoso; aqui ele se torna competente com poucos elementos à mão, como quando insere o personagem na dimensão espelho, que lembra um pouco a aula de lutas de Paul Atreides em Duna.

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Eis que se deve dizer, ainda assim, que, a partir de determinado momento, alguns temas parecem se repetir, a sobreposição se acentua e as cenas de ação passam a existir em sequência, sem nenhuma lacuna entre elas e sem uma ligação orgânica. O Doutor Estranho não permanece a mesma figura interessante que Cumberbatch desenha em sua primeira parte. A entrada do personagem central na biblioteca protegida por Wong (Benedict Wong) passa a ser exemplo da necessidade de um humor inusitado e desperdiçado, com sua série de menções a nomes da música pop, que destoam da narrativa. Claro que existe toda uma condição em jogo: se Strange vai decidir usar sua energia para voltar a usar suas mãos como gostaria ou disponibilizá-las para um enfrentamento com Kaecilius, seguido por um grupo feroz e que pretende trazer ao cenário uma figura de dimensão assustadora.
Em meio a isso, também há uma grande competência em construir uma parte visual calcada em efeitos espetaculares. Deve-se lembrar que  eles não são apenas inspirados em A origem, como também o filtro da fotografia é o mesmo, embora nunca tenha a profundidade dada por Nolan no sentido de compor uma mente vagando, melancólica. Por sua vez, o desenho de produção se mostra pouco amplo, parecendo lembrar cenários de estúdio, principalmente na reconstituição de detalhes orientais, às vezes excessivamente fechados (talvez porque estejam todos dentro de uma caixa mental), o que contrasta com a amplitude das viagens proporcionadas pela Anciã e mesmo com as ruas cheias de população de Kathmandu.

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Com trilha sonora de Michael Giacchino, habitual colaborador de J.J. Abrams, aqui num momento menos inspirado e mais intrusivo, e competente fotografia de Ben Davis, de Guardiões das galáxia e Vingadores – Era de Ultron, Doutor Estranho é encarnado por um Cumberbatch indefinido entre empregar seu estilo reconhecido também em Sherlock e lidar com o roteiro repleto de frases de exposição. O ator, já reconhecido pelo vilão de Além da escuridão – Star Trek e por Alan Turing de O jogo da imitação, não consegue muitas vezes tornar Doutor Estranho numa figura que poderia: fascinante. Ele começa muito bem e transmite bem o sentimento de abandono e solidão, logo sendo prejudicado pela necessidade de o roteiro colocar o personagem em meio a gags deslocadas (outro ponto complicado é quando tenta se adequar a seu uniforme). No início, há uma espécie de tragicidade bem dosada e depois o roteiro esquece disso para transformá-lo, aos poucos, num super-herói que desenvolve poderes literalmente num passe de mágica – porém, não há um sentido de algo sendo descoberto, crescente, e sim apenas como parte do script. Com ele, o elenco extraordinário é subaproveitado, mesmo Swinton, McAdams e Ejiofor. O vilão, feito pelo grande ator Mikkelsen, não se sente em nenhum momento ameaçador e sua motivação é rasa, além de não receber um punhado de bons diálogos para rivalizar com o Doutor Estranho.

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Todos se sentem deslocados pelo roteiro desenvolvido rapidamente e sem se aprofundar. O bibliotecário Wong? Ele existe para os momentos de humor. A Anciã? Apenas para adiantar o que Doutor Estranho deve fazer. Onde o filme de Derrickson mais ganha é quando explora a espiritualidade e o plano físico de modo fundamental, como nas cenas do hospital e nos duelos que se expandem para novos edifícios, numa maravilha técnica de encantar os olhos, com exceção do CGI exagerado do terceiro ato. Porém, falta um elo humano, por exemplo, entre Doutor Estranho e a Anciã: tudo é projetado demais para ressonar uma verdadeira emoção e colocado em nome da franquia a ser iniciada (para ter um exemplo, mesmo com temas mais profundos, não chega perto do que acontece com o Groot ao final de Guardiões da galáxia). Doutor Estranho tenta mesclar discussões interessantíssimas sobre a vida e a morte, mas prefere, na maior parte das vezes, atenuar tudo com o humor e a exposição nos diálogos. Derrickson não consegue (ou não quer) expandir essa faceta que tornaria o personagem mais interessante; é como se temas complexos precisassem ser invariavelmente substituídos pelo programa a ser seguido. Quando vemos um elenco dessa estirpe (talvez o melhor reunido num filme da Marvel) e uma grandiosidade técnica ser diminuída por um roteiro pouco desenvolvido, nota-se que está em jogo a própria essência que a companhia desenvolveu tão bem em Os vingadores e Guardiões da galáxia, por exemplo: um misto entre humor, sentimentalismo e ação que poucas vezes se viu, sem pular de quadro em quadro para um filme totalmente diferente.

Doctor Strange, EUA, 2016 Diretor: Scott Derrickson Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige Duração: 115 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

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21 Comentários

  1. Jonathas

     /  7 de novembro de 2016

    Absurda essa crítica. O filme é exelente.

    Responder
  2. messias silva dos santos

     /  9 de novembro de 2016

    KKKKKKKKKKKKKK… FANZETE FAZENDO CRITICA! O filme é excelente!

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    • André Dick

       /  13 de novembro de 2016

      Não sou fã, como parece ser você. Apenas vejo e analiso, Fernando ou Messias, dependendo do e-mail ou do nome que você assina.

      Responder
      • Anônimo

         /  14 de novembro de 2016

        André Dick!! com certeza você não é!! sei disso só pelo fato de vc não ter achado o filme excelente.

  3. Paula Rocha

     /  10 de novembro de 2016

    Nossa, André, estava numa expectativa enorme, ainda mais por grande parte da crítica estar elogiando o filme. Agora, lendo sua análise estou meio desapontada, mas mesmo assim ainda quero assistir. Fico assim porque compartilho bastante com suas ideias, sei que você entende muito de cinema e grande parte de suas análises me surpreende.

    Responder
    • André Dick

       /  11 de novembro de 2016

      Prezada Paula,

      Obrigado por seu comentário sempre generoso. Eu estava com certa expectativa em relação a este filme, justamente em razão da crítica (não vejo ela se equivocar assim em filmes de super-heróis desde os elogios a Homem de Ferro 3). Talvez ela tenha diminuído agora e talvez você o aprecie mais do que eu. Ainda acho que vale a pena assisti-lo; só não me parece o que muitos estão descrevendo. Depois, se puder, volte para comentar o que achou.

      Grande abraço
      André

      Responder
      • Paula Rocha

         /  30 de novembro de 2016

        Assisti ao filme e vi que muitas de suas afirmações na análise são constatáveis rapidamente. Resumindo: o fato de Cumberbatch ter começado bem com o personagem e depois ter se deslocado é notável. Parece que ele não conseguiu acompanhar as mudanças do personagem ou o roteiro é que não ajudou mesmo. As piadinhas sem contexto e sem graça; o vilão clichê e sem motivação forte para acabar com o mundo; as coisas acontecendo muito rápido e que não deixaram espaço para uma dimensão mais humanística; o Doutor Estranho adquirir poderes e controle sobre eles muito rápido, entre tantas outras coisas.
        Apesar de tudo, tem suas qualidades, tanto na questão técnica quanto na dos personagens secundários. No entanto, como minhas expectativas eram altas, fiquei bem frustrada, pois esperava um filme mais à altura de Guerra Civil, por exemplo. Neste, acho que o elo entre os personagens e o drama da história deram uma maior complexidade à temática abordada. Infelizmente, não vi isso em Doutor Estranho, não tendo me surpreendido tanto quanto eu imaginava que iria surpreender.
        Como você, penso que a crítica especializada tem superestimado o filme.

      • André Dick

         /  2 de dezembro de 2016

        Prezada Paula,

        agradeço novamente por sua visita e pelo comentário a respeito do filme. Percebi que temos a mesma impressão a respeito da atuação de Cumberbatch, que começa bem e depois se perde; a meu ver, ele fica visivelmente deslocado por causa do roteiro e também porque a direção do filme a partir dos ensinamentos dele não é boa. As gags, como você comenta, não têm contexto nem graça e o vilão é plano, um desperdício na trajetória exitosa de Mikkelsen. Também tivemos a mesma impressão – e me parece o fator que mais prejudica a narrativa – sobre a pressa com que o personagem adquire seus poderes e a falta de espaço para um lado mais humano (o que aparecia no início).
        Isso, claro, não impede que o filme tenha essa parte técnica muito bem desenvolvida. Em relação a Guerra Civil, apesar de este me parecer uma decepção também, pelo menos há um arco narrativo desenhado mais interessante. Parece-me que ele é superestimado, mas bem menos do que está sendo Doutor Estranho, em que os temas poderiam ser melhor explorados e o resultado mais interessante do que o filme dos irmãos Russo. Imaginemos o que faria um diretor de mais talento com este material, embora eu não saiba o que certamente fica de cada um no resultado final dos filmes da Marvel e o que seria de Kevin Feige.

        Volte sempre!

        Grande abraço,
        André

    • Anônimo

       /  14 de novembro de 2016

      Paula, se você dor fã! nem assista pra n se desapontar!! uma bosta esse filme.

      Responder
  4. Daniel

     /  11 de novembro de 2016

    Este blog só elogia filme do DCU, pois este é um dos melhores do ano.

    Responder
    • André Dick

       /  11 de novembro de 2016

      Antes de falar isso, sugiro então que você leia as resenhas de Os vingadores, Vingadores – Era de Ultron, Guardiões da galáxia, Thor – O mundo sombrio e Homem-Formiga.

      Responder
  5. Rodrigo

     /  13 de novembro de 2016

    Concordo contigo, já esta na hora de começar a mostrar que alguns críticos exageram demais nas críticas positivas encima de filmes da Marvel, e críticas negativas em filmes da DC, eu particularmente achei o roteiro de BvS superior ao do Guerra Civil, pois os dois heróis da DC tinham problemas, isso é fato, a HQ sempre destacou que muitos dos heróis cresceram encima de desastres e não se conheciam, então os motivos de brigarem entre si já existia, ainda mais quando o Batman quer proteger os humanos contra ameaças vindas de outros mundos e o Super é uma ameaça. Me lembro das críticas encima de BvS e umas das críticas negativas é o excesso de CGi, e fico perguntando, qual filme da Marvel de herói não tem excesso de CGi. Outra, reclamaram do Lex ser novo, porém eu lembrei de uma coisa, Mulher Maravilha é imortal, ela pode ser morta, mas se não for, ela não morre, não envelhece, Super envelhece, mas lentamente, Batman envelhece e neste filme esta velho, então não vejo absurdo o Lex ser novo ainda. Porém os críticos reclamaram disso, do Lex, mas acharam interessante o ancião ser uma mulher, onde nas HQs sempre foram homens, e o Doutor Estranho que é aceito no treinamento fácil demais, onde nas HQs tem um processo, para tornar ele mais humilde, ele varre, ele faz serviço pesado, porém no filme, é fácil, e outro detalhe, Doutor Estranho na HQ é sério, fechado, arrogante, no filme, faz piada o tempo todo.

    Responder
    • André Dick

       /  15 de novembro de 2016

      Prezado Rodrigo,

      eu tenho uma admiração pelos grandes momentos da Marvel, a exemplo de Os vingadores, Homem Formiga e Guardiões da galáxia. No entanto, acredito que as críticas elogiosas a filmes da companhia, como, neste ano, Capitão América e Doutor Estranho, são desproporcionais. Neste ano, por exemplo, Batman vs Superman é um filme, a meu ver, bastante superior, por todos os conflitos que aponta em seu comentário. Você tem boas observações sobre os personagens e também concordo com o fato de que a CGI é utilizada em grande quantidade pelos filmes da Marvel (e Doutor Estranho é um exemplo perfeito, sobretudo em seu ato final), mas basicamente apenas a DC/Warner é criticada por utilizá-lo. E, mesmo que contestem Jesse Eisenberg e seu jovem Lex Luthor, ele realmente tenta empregar um vilão, ao contrário de Mikkelsen neste filme, sem roteiro para se destacar. Acho que Doutor Estranho tem um excelente início, mas tudo, conforme você observa, se torna “fácil demais” e ultrapassa mesmo o Homem de Ferro na quantidade de gags, neste caso bastante deslocadas. Não estou falando de uma pretensa “fórmula de sucesso”; estou falando de um cinema que poderia ser melhor do que realmente entrega.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André.

      Responder
  6. Lúcio

     /  13 de novembro de 2016

    Blog nitidamente tendencioso, tentando ver falhas num filme que ficara marcado pelos grandes efeitos visuais.

    Responder
    • André Dick

       /  13 de novembro de 2016

      Pelos efeitos visuais acho sim que ele será lembrado. Queria que também fosse pela história, pela direção e pelo elenco.

      Responder
    • Paula Rocha

       /  30 de novembro de 2016

      Um filme para ser bom precisa muito mais que excelentes efeitos visuais. Pense na quantidade de filmes de ação com uma qualidade técnica inquestionável, mas com roteiro e atores horríveis.

      Responder
  7. o filme não é uma maravilha, mas duas estrelas uma piada, deveria rever o filme ou perceber o que é um filme de qualidade, o benedict está bem como em sherlok, lutas fantásticas

    Responder
  8. Fiquei triste por este filme!!

    Responder

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