Despedida

Para Lauro João Dick (1934-2016), com amor, in memoriam

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Meu pai tinha a literatura como seu grande referencial na arte, tendo sido professor desse campo, mas nunca deixou de apreciar excelentes filmes, também certamente por seu interesse pela dramaturgia. Num momento em que me despeço dele, lembro de alguns filmes que marcaram sobretudo a minha infância e entrada na adolescência: filmes que ajudaram a configurar minha paixão pelo cinema, que devo a ele tanto quanto à minha mãe. São obras que me marcaram quando assisti com ele e que eram também, alguns, de sua predileção. Os elos sentimentais se fazem por meio também da arte: as pessoas são parte de nosso elo com a imaginação, com a maneira com que vivenciamos essas relações (acho que nisso estou citando indiretamente Barthes). Tive alguns professores de literatura, mas nunca o tive como professor em aula. Entendo que ele não ensinava literatura, mas de fato a vivenciava.
Depois da época de pedir brinquedos, estava sempre atrás dele ou da mãe para comprarem a Cinemin, Vídeo News e a SET. Meu interesse por livros e filmes cresceu com a leitura dessas revistas, e devo isso a eles. Também lembro que meu pai gostava de comprar livros com roteiros de filmes, como o de Adeus, meninos, que eu ia mexer na biblioteca de casa. Era, igual à minha mãe, interessado na arte como forma de crescimento pessoal e como maneira de estabelecer relação com os filhos (minha irmã e meu irmão também sempre gostaram de filmes e livros), parentes, amigos. Conversávamos sobre isso sempre. Recordo, nisso, de sessões especialmente gratificantes de Aliens – O resgateGremlins e Gremlins 2Esqueceram de mim e Esqueceram de mim 2Império do sol, O ursoUma cilada para Roger RabbitUma secretária de futuroO segredo do abismo De volta para o futuro III, Os caça-fantasmas 2Indiana Jones e última cruzadaRain ManDick TracyTop Gang – Ases muito loucos, As tartarugas ninja, Corra que a polícia vem aí e O poderoso chefão III. E lembro especificamente de um filme que não assisti com ele e o marcou muito: Entre os muros da escola, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Tanto meu pai quanto minha mãe começaram a se afastar mais da vida no momento de fazer a passagem para algo maior e transcendental. A memória é o que fica. Abaixo, uma lista de 10 filmes marcantes, em homenagem a meu pai.

10. Jurassic Park – Parque dos Dinossauros

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Spielberg volta ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones: muita aventura e uma trama para justificá-la. Desta vez, ele se baseia num romance de Michael Crichton (também autor da adaptação para o cinema). O projeto do parque dos dinossauros é fascinante e ao mesmo tempo assusta um casal de arqueólogos e um matemático. Apesar da superficialidade dos personagens e da lição de moral previsível, o filme tem uma qualidade inegável: empolga o espectador. Spielberg não faria um mau filme de ficção, e este não fica para trás. O capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área, mesmo com os computadores atuais) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade. Quando o vi com meu pai em 1993, Jurassic Park nos deixou impressionados com seus efeitos visuais de ponta, a um palmo da tela. Eram mais de 10 anos depois de eu ter pedido para sair da sessão de um filme por causa das criaturas assustadoras: O cristal encantado.

9. Batman

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Determinados filmes conseguem, por um motivo às vezes também secundário ao cinema, marcar uma determinada época. Em 1989, o trailer de Batman, de Tim Burton, tinha uma presença destacada em salas de cinema. A diferença do mês de estreia nos Estados Unidos para o do Brasil ainda era considerável (nos Estados Unidos, a estreia se deu em junho, aqui em outubro), auxiliando num dos mais bem feitos trabalhos de marketing da história. A expectativa se dava não apenas em razão dos fatores de produção e da presença de Jack Nicholson no elenco, mas por se tratar do primeiro grande filme de Tim Burton, que havia assinado um ano antes a comédia Os fantasmas se divertem e tinha estreado em 1985 com As grandes aventuras de Pee-wee, com um personagem mais familiar para os norte-americanos. E pelo menos desde 1978, de Richard Dooner, não era feito um filme baseado em herói dos quadrinhos tão esperado. Precedido ainda por críticas elogiosas da imprensa estrangeira, a estreia de Batman se deu num ambiente receptivo – e a questão seria se sua qualidade corresponderia ao marketing. Esse marketing não poderia escapar ao fato de que meu pai e eu fomos assisti-lo no dia de estreia e na primeira sessão, quando um cinema inteiro conheceu o que era um ator fazendo a plateia rir a sessão toda: Jack Nicholson, um dos atores favoritos dele (meu pai gostava especialmente de Melhor é impossível).

8. O nome da rosa

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O nome da rosa, adaptado de um romance de Umberto Eco por Jean-Jacques Annaud, trazia Sean Connery como William de Baskerville, um fransciscano acompanhado pelo jovem Adso (Christian Slater) que investigava crimes numa abadia italiana. O mistério envolvia os livros de uma biblioteca. Tendo sido professor de latim e leitor da obra de Eco, entendo como este filme era tão agradável para meu pai, além de lindas paisagens e um mistério impressionante.

7. Os saltimbancos trapalhões

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Não havia um filme dos Trapalhões que eu perdesse. Extremamente popular nos anos 70 e 80, o grupo lançava um filme nas férias de inverno e outro nas de verão e meu pai era admirador deles. O mais marcante, para mim, foi Os saltimbancos trapalhões, passado no circo Bartolo. Dirigido por J.B. Tanko, é uma espécie de mistura entre humor, drama e musical, apresentando Os Trapalhões em grande momento, além de Lucinha Lins, com cuidado cenográfico especial na sua alternância de cenários.

6. Campo dos sonhos

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Um dos maiores sucessos de 1989, trata-se de uma obra modesta, baseada em livro de Ray Kinsella, com toques de ficção científica, de pouco mais de 6 milhões, que arrecadou dez vezes mais. Atestou também a posição de galã de Costner, que no ano seguinte faria o épico Dança com lobos. Aqui ele faz o fazendeiro Ray Kinsella, que vive com a mulher (Madigan) e uma filha (Gaby). Certo dia, começa a escutar vozes no milharal, que lhe dizem para construir um campo de beisebol. A princípio, fica assustado, pois apenas ele ouve as vozes. Um dia, ele tem a visão de um campo de beisebol e resolve construí-lo, já que seu falecido pai era fã do esporte. Era outro filme que meu pai adorava.

5. Sociedade dos poetas mortos

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Merecido vencedor do Oscar de roteiro original, concorreu também ao de melhor filme e tem todos os temas que poderiam interessar a meu pai. Robin Williams interpreta o professor de poesia John Keating, que em meados dos anos 50 dá aulas a uma turma de alunos inseguros da universidade Welton Academy, conhecida pelas tradições escocesas. O professor excêntrico sobe na mesa para explicar a arte poética e imita Marlon Brandon e John Wayne falando versos de poesia. A turma é formada por um futuro ator (o ótimo Robert Sean Leonard), um jovem tímido (Ethan Hawke), um apaixonado (Josh Charles), um disciplinado (Dylan Kussman) e o rebelde (Gale Hansen), entre outros. Eles acabam recriando a Sociedade dos Poetas Mortos, fundada pelo próprio Keating quando estudou na Welton Academy, para lerem poemas de autores antigos, numa gruta dentro da universidade. Mas, como sempre, enfrenta o preconceito dos diretores e pais. O maior problema é o de um jovem que deseja ser ator (Leonard, ótimo), mas seu pai (Smith) não deixa. Tecnicamente perfeito (direção, música, cenários, fotografia), foi um merecido sucesso e se mantém atual, tendo transformado Weir num dos diretores australianos mais requisitados de Hollywood (ele fez antes A testemunha e faria depois O show de Truman). Poucos filmes fazem chorar realmente. Este é um deles.

4. Guerra nas estrelas

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Luke Skywalker, o jovem guerreiro Jedi; Darth Vader, o lado negro da força; o mercenário Han Solo; seu amigo Chewbacca; o sábio Obi-Wan Kenobi; os robôs R2-D2 e C-3PO, entre outros, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos – embora a história não se passe na Terra, mas em planetas com lugares parecidos – se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores, os ensinamentos espirituais de luta, ganham, na trilogia de Lucas, contornos ao mesmo tempo medievais e futuristas.
A mensagem por trás das palavras de Obi Wan-Kenobi podem, hoje, parecer ingênuas – e foi criticada à época principalmente por seus amigos próximos –, mas a questão é que George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar o cinema para a diversão. Lembro de ter visto com meu pai este filme num cinema de praia, em que passam muitas vezes filmes antigos e de ter, à época, ficado especialmente assustado com Darth Vader.

3. JFK – A pergunta que não quer calar

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Oliver Stone coloca a pergunta: por que se quer encobrir o assassinato de Kennedy, visto como a ação solitária de Lee Oswald? Para isso, tenta desvendar aquilo que ficou encoberto no acontecimento em Dallas, Texas. Num lugar associado à mitologia do velho oeste, Kennedy sofreu a emboscada de um inimigo oculto, em que não teve chance de defesa. Mas Stone também está tratando daquele que é considerado como o país que tenta sempre estar à frente de qualquer questão política ou de guerra. No período em que Kennedy estava à frente da presidência, havia conspirações de toda ordem para que os Estados Unidos organizassem a situação no Vietnã e se contrapusessem à União Soviética. Havia motivos para que se quisesse, segundo Stone e os livros em que ele se baseia, a eliminação de JFK, quando ele teria deixado de agir com a firmeza esperada diante desses fatores – e não apenas se restringem a uma ação de Oswald. JFK definiu para mim o que seria um filme com fundo político, com suas inúmeras elucubrações. Em 1992, quando o assisti com meu pai, era como se descortinasse outro universo.

2. A missão

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Com fotografia esplêndida, A missão foi sucesso de bilheteria e mostra Robert De Niro e Jeremy Irons ótimos como jesuítas. Começa com os índios sacrificando um padre, mas logo vem outro (Irons) para tentar catequizá-los. De Niro interpreta um caçador de índios, traído pela mulher com seu irmão, o qual mata. Arrependido, pede ao padre jesuíta (Irons) para se converter e ajudar na guerra contra os espanhóis, que querem destruir as missões. A transformação dele de caçador sanguinário em missionário não tem nenhuma grande sutileza, mas o diretor Roland Joffé quer considerá-la parte intrínseca de um arrependimento maior, o qual não tem solução ou retorno. A amizade entre esses dois personagens sem nenhuma proximidade prévia, junto com algumas das mais belas imagens já captadas da natureza – com uma dose essencial de realismo –, ao som da excelente e antológica trilha de Ennio Morricone, faz o espectador gostar do filme sem nenhum comprometimento religioso, mas interessado em olhar o aspecto histórico de frente: embrenhar-se na mata fechada, em outra cultura, não é para inocentes. É justamente isto que A missão pretende tratar, de forma aberta, sem nenhum sectarismo, e com um golpe de realidade final como vemos em poucos filmes. Uma bela lição de história e de humanidade, esta obra me comoveu quando assisti com meu pai no início de 1987. Era um dos favoritos dele.

1. E.T. – O extraterrestre

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Finalmente, o filme mais clássico de Spielberg. Perdi a conta das vezes em que o assisti com meu pai: a cada Natal, depois de 1982, ele era relançado, antes de existir VHS. Álbum de figurinhas, revista Cinemin com a capa do filme, desenhos, pedidos para ter a mesma bicicleta de Elliot. Descoberta, vida, morte e ressurreição. Quando revimos a versão com cenas inéditas em 2002, algo estranho aconteceu: não era realmente o mesmo filme. Spielberg depois pediria desculpas por esta versão. Não precisava. Este filme é incrível. Há pessoas que mudam o sentido da vida. E há filmes que também podem mudar. E.T. – O extraterrestre é um deles. Obrigado, pai, por me ter levado para assisti-lo. Não há como não chorar com sua despedida final.

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4 Comentários

  1. Meus Sentimentos!!!

    Responder
  2. Paula Rocha

     /  10 de novembro de 2016

    Meus sentimentos. Nem consigo imaginar a dor de perder alguém assim!

    Responder
    • André Dick

       /  11 de novembro de 2016

      Prezada Paula,

      agradeço por suas palavras gentis. É uma dor e uma falta indescritíveis.

      Grande abraço,
      André

      Responder

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