O lar das crianças peculiares (2016)

Por André Dick

o-lar-das-criancas-peculiares-5Faz dois anos que Tim Burton tentou seguir um novo caminho em sua trajetória, com Grandes olhos, logo após o fracasso de crítica e público do subestimado Sombras da noite, um de seus melhores filmes. Eles eram antecedidos pelo grande sucesso de público Alice no país das maravilhas, um dos filmes estranhamente mais impessoais do diretor, mesmo com sua carga estilística. Agora, com O lar das crianças peculiares, baseado no romance de Ransom Riggs, ele tenta mesclar os dois caminhos: um de temática mais adulta e outro de fantasia proeminente, o que já víamos, por exemplo, no aparentemente infantil A fantástica fábrica de chocolate, com seu humor corrosivo. Depois de anos, de artista respeitado por seus atrevimentos Burton passou a ser visto sempre numa zona de conforto, quando na verdade expandiu seu estilo para outros campos – e podemos ver em Sombras da noite, principalmente, um desenho dos anos 1970 de Amargo pesadelo cercado de um inevitável bom humor.
Um adolescente, Jacob/Jake Portman (Asa Butterfield), acompanhado de sua supervisora Shelly (O-Lan Jones), encontra seu avô, Abrãao “Abe” Portman (Terence Stamp), numa situação difícil e, a partir de uma estranha aparição, lembra das histórias que ele contava sobre lutas contras monstros e um lar da senhora Peregrine para crianças peculiares, localizado na costa do País de Gales. Isso, claro, é uma espécie de primeiro passo para uma expansão do que Burton trabalhava em Peixe grande, com seu universo de histórias familiares.

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Jacob passa a consultar a psiquiatra Dr. Golan (Allison Janney), onde tem suas visões colocadas em dúvida, e determinado dia, quando chega a um aniversário surpresa, sua tia Susie (Jennifer Jarackas) lhe entrega o presente de aniversário do seu avô, com uma carta de Miss Peregrine a ele, de apenas dois anos antes.
Jacob e seu pai, Franklin (o subestimado Chris O’Dowd), vão para o País de Gales e alugam um quarto no hotel da ilha, que bem poderia servir como diálogo com os habitantes de O homem de palha. Lá, ele encontra a casa de Miss Peregrine em ruínas por causa de uma bomba lançada durante a Segunda Guerra Mundial. Ele viaja repentinamente no tempo e é acusado de ser um espião nazista, sendo salvo pelo grupo de Miss Alma LeFay Peregrine (Eva Green), que lhe explica que eles vivem sempre no dia 3 de setembro de 1943 e pode se transformar num pássaro (lembrando especificamente a feiticeira de Willow). Na casa havia vivido Victor Buntley (Louis Davinson), até ser morto por um Hollowgast, grupo liderado por Mr. Barron (Samuel L. Jackson). O interesse de Jacob passa a ser por Emma Bloom (Ella Purnell), que precisa usar sapatos de chumbo para não sair flutuando, enquanto conhece as crianças do lugar: Enoch O’Connor (Finlay MacMillan), Olive Abroholos Elephanta (Lauren McCrostie), Millard Nullings (Cameron King), Fiona Frauenfeld (Georgia Pemberton), Bronwyn Buntley (Pixie Davies), Horace Somusson (Hayden Keeler-Stone), Hugh Apiston (Milo Parker), Claire Densmore (Raffiella Chapman) e os gêmeos (Joseph e Thomas Odwell), cada um com suas peculiaridades (e estranhezas à la Burton), quase uma equipe do X-Men em plena Segunda Guerra Mundial, e não por acaso o roteiro adaptado é assinado por Jane Goldman, de X-Men: Primeira classe. São crianças de um mundo à margem, em que a Segunda Guerra Mundial não consegue tocar com sua violência, mesmo que insista com seu relógio do tempo inabalável.

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E são deslocadas como são a maior parte dos personagens de Burton, que de um curta-metragem dos anos 80 passou a um longa há alguns anos sobre um cão que lembra Frankenstein, em Frankenweenie. Essas figuras não atraem pela fantasia: elas são sumariamente estranhas e deslocadas no tempo e espaço pela própria condição. Na ilha, Jacob também tem contato com a Miss Esmeralda Alvocet (Judi Dench) e um ornitólogo (Rupert Everett).
Este universo à parte tem muitos elementos da filmografia de Burton (as esculturas no jardim de Edward mãos de tesoura, os esqueletos do videoclipe que dirigiu para o The Killers, inspirados, por sua vez, em Ray Harryhausen, as cenas aquáticas que lembram Sombras da noite, assim como as da mansão, a floresta noturna que evoca A lenda do cavaleiro sem cabeça, a direção de arte que remete por vezes a Os fantasmas se divertem), mas, de modo geral, tudo é levado num ritmo de episódio de No limite da realidade, quando, por exemplo, Jacob é confundido com um nazista, e com influências nítidas de Feitiço do tempo e de um grande filme de Del Toro sobre um orfanato perdido no deserto em meio à Guerra Espanhola (elementos que devem ter inspirado o romancista que deu origem ao filme, já que o livro é bastante recente, de 2011). Burton sabe, como tem conhecimento cinematográfico, que as referências do livro partem de uma boa parte da história do gênero de fantasia e consegue, como é costume em sua filmografia, não reduzi-la a elementos previsíveis.
Em termos de elenco, chama atenção como Burton extrai uma atuação mais madura de Green, muito exagerada em Sombras da noite, e principalmente de Butterfield, que mostrara talento em A invenção de Hugo Cabret para se perder em meio à ficção adolescente de Ender’s game. Ele consegue tomar esses dois atores no melhor que há neste filme, em que Samuel L. Jackson encarna um vilão exagerado.

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A utilização efetiva de elenco sempre foi um traço de Burton, mas ele vem melhorando ainda mais com a maturidade, ao mesmo tempo que aqui a direção de arte não parece tão destacada dos demais elementos, fazendo uma fusão mais natural com os personagens, comportamentos e figurinos. Há alguns problemas de narrativa, sobretudo quando se tenta explicar a presença dos monstros que ameaçam Miss Peregrine e Jacob, no entanto é justamente em elementos de singularidade que Burton tece sua trama de maneira atrativa. Isso porque ele é acompanhado novamente pelo diretor de fotografia Bruno Delbonnel (O fabuloso destino de Amélie Poulain), seu parceiro desde Sombras da noite, e o figurino de Colleen Atwood, exímios em sua facilidade de compor um universo verdadeiramente marcante. Nesse sentido, O lar das crianças peculiares conduz sua temática de maneira que costumamos ver na obra de Burton, apenas com o acréscimo de um lado soturno menos fantasioso, algo que ele tentou fazer em sua adaptação de Alice sem conseguir com a mesma eficiência. Embora o terceiro ato se pareça com muitas peças no estilo Disney e blockbusters, esta ainda é uma peça com sensibilidade rara.

Miss Peregrine’s home for peculiar children, EUA, 2016 Diretor: Tim Burton Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Allison Janney, Chris O’Dowd, Terence Stamp, Ella Purnell, Finlay MacMillan, Lauren McCrostie, Hayden Keeler-Stone, Georgia Pemberton, Milo Parker, Raffiella Chapman, Pixie Davies Roteiro: Jane Goldman Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Jenno Topping, Peter Chernin Duração: 127 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Chernin Entertainment / Tim Burton Productions

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