Cães de guerra (2016)

Por André Dick

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O diretor Todd Phillips se destacou com a trilogia Se beber, não case!. Se o primeiro era antológico, uma comédia muito acima da média, o segundo não deixava a desejar, ao transformar Bangkok num cenário de perdição para o trio principal e a morte se transformava numa iminente ameaça. No entanto, porém, havia no fechamento da trilogia uma guinada para um universo mais pesado, em que o humor antes mais leve se fixava em pontos ligados a uma violência de determinados personagens. Se dentro da série, essa mudança foi brusca e mal efetuada, já mostrava um pouco a tentativa de Phillips em fugir do gênero de comédia evidente, assim como em Um parto de viagem, comédia mais de humor negro do que exatamente leve, como anunciam seu título e Robert Downey Jr., em razão de Zach Galifianakis. Isso se concretiza, de certo modo, em Cães de guerra, no qual assina o roteiro com Stephen Chin e Jason Smilovic, baseado em fatos reais, extraídos de um artigo assinado por Guy Lawson para a Rolling Stone, mais tarde transformado em livro.
David Packouz (Miles Tiller) trabalha como massagista na Flórida e tem uma namorada, Iz (Ana de Armas). No funeral de um amigo, ele reencontra o seu melhor amigo de escola, Efraim Diveroli (Jonah Hill), que se transformou num vendedor de arma em Los Angeles, com a ajuda do tio, mas logo criou independência, criando a AEY. Ele lida com encomendas do governo norte-americano principalmente por causa da guerra no Iraque. Sem explicar direito à namorada, Packouz decide ficar sócio de Efraim, que começa a lhe ensinar sobre as transações de vendas de armas, a partir de sites públicos.

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Em determinado momento, eles conseguem uma venda de pistolas Beretta para as tropas dos Estados Unidos em Bagdá, enquanto são protegidos por um magnata local, Ralph Slutzky (o ótimo Kevin Pollak). No entanto, acontece um problema e eles precisam viajar para a Jordânia.
Isso é o início de uma série de contratempos, em que a dupla se coloca cada vez mais em situações de risco. O marketing de Cães de guerra pode anunciar um filme leve e descompromissado. O que se vê na tela é o encontro entre duas pessoas que estão em dúvida sobre que caminho devem seguir, a começar por Packouz. Ele pretende conviver bem com a namorada, mas o seu amigo sempre o atrai para um lugar mais escuro, em que a convivência familiar se torna um detalhe.
Teller consegue fazer muito bem seu personagem, enquanto Hill demonstra a competência habitual para compor tipos ambíguos. É evidente, na velocidade da narrativa, permeada por frases de personagens, para dividir algumas cenas, a influência do Martin Scorsese de O lobo de Wall Street. Phillips mostra um talento na direção que já havia se manifestado inclusive na homenagem aos anos 70, Starsky & Hutch, com Ben Stiller e Owen Wilson. Há um natural crescimento em Cães de guerra, com uma montagem ágil e a fotografia de Lawrence Sher, o mesmo de Se beber, não case!. O roteiro, ao antecipar diálogos em seus fragmentos de filme, como se fossem vinhetas ou chamadas, lembra uma espécie de sátira a Jerry Maguire, dos anos 70, com suas mensagens de bom humor sobre o universo dos negócios. A grande trilha sonora de Cliff Martinez, habitual colaborador de Refn, só contribui para esse universo distorcido.

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Assim como traços de O lobo de Wall Street, Philips utiliza algumas referências diretas ou indiretas a Os bons companheiros e Scarface, além de a Fahnrenheit 11/9, de Michael Moore, em suas constantes menções de George Bush e Dick Cheney e da cultura de guerra em que os Estados Unidos vivem mergulhados. Não por acaso, numa das reuniões, os personagens estão sentados com os retratos de Bush e Cheney ao fundo, como se esses, na verdade, agissem como Packhouz e Efraim. Nunca, contudo, chega ao limite do humor absurdo, como faz Bay em Sem dor, sem ganho. Torna-se ainda mais contundente quando mostra a dupla fazer um negócio de 300 milhões de dólares diretamente com o Pentágono, a fim de vender milhares de munições para armar o exército afegão, até o momento em que surge um misterioso negociador (Bradley Cooper, também um dos produtores, parecendo fazer uma cópia visual de Bono Vox).
Este é um filme que se movimenta entre uma comédia corrosiva e um drama moral permeado de características interessantes, ao entrelaçar a narração de Packouz com o protagonismo de Efraim. Ele aparenta, pelo marketing, ser como Dois caras legais, mas esses são caras que não têm nenhuma espécie de alívio existencial ou escape de humor. Phillips concentra sua visão nos dois como a de uma América constantemente perdida em seu próprio foco na guerra e na manutenção de um dinheiro inesgotável. Não se sabe se David, por exemplo, usa também o sexo em seus atendimentos; fica subentendido algo nesse sentido, mas sem certeza. O que importa, sempre, para tais personagens, é o dinheiro que seus negócios trazem. E as promessas de riqueza se mostram promissoras, como uma antiga amizade subentende.

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Neste universo, como o do gângster Mr. Chow de Se beber, não case!, tudo pode ser um sinal de um grande problema. A partir disso, Phillips desenha um recanto escondido da América e retrata muito bem a solidão dos que tentam ingressar em seus negócios como se fosse uma grande brincadeira ou como uma ida à discoteca. Neste ponto, com seu retrato de apartamentos enormes e vazios, de festas regadas a muito champanhe e pouca amizade, de personagens divididos entre o próximo trato e desrespeitar o anterior, Cães de guerra lida com temas pouco leves para uma pretensa comédia. O que poderia se tornar numa versão subversiva de Máquina mortífera lida com um panorama mais complexo. Trata-se de um universo pouco retratado e que envolve a sociedade norte-americana – e não parece à toa que o filme vem obtendo, de maneira geral, más críticas por lá.

War dogs, EUA, 2016 Diretor: Todd Phillips Elenco: Jonah Hill, Miles Teller, Bradley Cooper, Ana de Armas, Kevin Pollak, JB Blanc, Barry Livingston, Bryan Chesters Roteiro: Jason Smilovic, Stephen Chin, Todd Phillips Fotografia: Lawrence Sher Trilha Sonora: Cliff Martinez Produção: Bradley Cooper, Bryan Zuriff, Mark Gordon, Scott Budnick, Todd Phillips Duração: 119 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Green Hat Films / The Mark Gordon Company

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