Caça-fantasmas (2016)

Por André Dick

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Um dos filmes que mais dividiram o público e a crítica este ano foi sem dúvida a refilmagem (ou seria continuação?) de Os caça-fantasmas (1984) e Os caça-fantasmas 2  (1989), ambos de Ivan Reitman, aqui atuando como produtor. Caça-fantasmas (excluindo o artigo) aponta uma reunião da equipe de Missão madrinha de casamento: o diretor Paul Feig com Kristen Wiig e Melissa McCarthy, com o acréscimo de Leslie Jones e Katie McKinnon, ambas do Saturday Night Live (programa no qual surgiu Wiig) e Chris Hemsworth.
Lidar com adaptações de filmes dos anos 80 para os dias atuais é mexer com um nicho dedicado de fãs. Um exemplo é aquele que aconteceu com José Padilha, até hoje não perdoado pela sua refilmagem de RoboCop (aliás, de excelente qualidade). Entende-se por que esses filmes tem cultuadores e seguidores: eles ajudaram a lançar o universo da fantasia no cinema. Mas Os caça-fantasmas, como RoboCop, não são obras intocáveis e irretocáveis: eles possuem qualidades, assim como falhas que podem ser encobertas pela nostalgia.
E mesmo a continuação de Os caça-fantasmas havia sido recebida de maneira pouco entusiasmada cinco anos depois do primeiro, embora ainda tenha bons momentos e soluções inteligentes para a narrativa, e Evolução, também de Ivan Reitman, que tentara repetir seu sucesso e sua fórmula, foi um fracasso na carreira de David Duchovny e Julianne Moore. De qualquer modo, de forma previsível, antes do lançamento de Caça-fantasmas, já havia acusações ao fato de o grupo antigo constituído apenas por homens ser substituído por um de mulheres e se apontou que o filme seria feminista.

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Obviamente, se há feminismo em Caça-fantasmas é pelo fato de ser protagonizado por atrizes, de grande qualidade. Ou seja, os comentários misóginos injustificados antes do lançamento apenas mostram não entender que um filme se trata, antes de tudo, de arte. As pesquisadoras de física Erin Gilbert (Wiig) e Abby Yates (McCarthy) escreveram um livro sobre fantasmas. No entanto, Gilbert não deseja ser conhecida como tal e concorre a uma vaga de professora na Universidade de Columbia, onde é procurada por Ed Mulgrave (Ed Begley Jr.), responsável por uma antiga mansão, depois que um de seus guias (Zack Woods) é perseguido por uma aparição assustadora. Já Yates continua suas pesquisas, com a ajuda da engenheira Dra. Jillian Holtzmann (McKinnon). Diante de um caso em que é irrecusável acreditar na presença de um espectro, as duas voltam a ficar amigas e se unem para fundar um grupo de caça-fantasmas, tendo como recepcionista Kevin Beckman (Hemsworth). De homens preparados para enfrentar o sobrenatural, a presença masculina nesta nova versão é vista como despretensiosa e que apenas serve para as mulheres ficarem em constante provocação (no original, Annie Potts interpretava a sarcástica secretária).
No metrô da cidade, em uma referência ao segundo filme, mas também a Alucinações do passado e Ghost, a guichê Patty Tolan (Jones), determinado dia, vê um fantasma ameaçador e procura a ajuda do grupo. Claro que muitos não acreditam nas cientistas excêntricas, a começar pelo Dr. Martin Heiss (um ex-caça-fantasmas em participação discreta), e o prefeito Bradley (Andy Garcia) pretende evitar que a história se espalhe e não assuste a população, com a ajuda da assessora Jennifer Lynch (Cecily Strong, também do Saturday Night Live) e de dois agentes, Hawkins (Michael Kenneth Williams) e Rourke (Matt Walsh).  Tudo parece ser o plano de alguém desconhecido? Haverá uma nova versão para o personagem de Rick Moranis, do original? Um determinado fantasma glutão irá reaparecer?

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O roteiro de Feig em parceria com Katie Dippold, sua parceira também em As bem-armadas e A espiã que sabia de menos, não tem a naturalidade dos roteiros originais dos anos 80, mas nem por isso deixa de apresentar algumas gags muito boas, com destaques para uma no metrô e outra num show de rock. Sempre quando a ação se concentra em mostrar a ligação entre a equipe, o filme cresce, e Wiig (que certamente poderia ter colaborado no roteiro, área em que mostrou talento em Missão madrinha de casamento, pelo qual foi indicada ao Oscar) e McCarthy novamente formam uma boa dupla, com bons momentos especialmente para a primeira, uma atriz que consegue alternar drama e humor de maneira particular. Ainda assim, é McKinnon que realmente se destaca como a engenheira esquisita do grupo, com olhar esbugalhado e comportamento errático, assim como Hemsworth, como já havia mostrado na refilmagem de Férias frustradas, não tem receio de se expor ao ridículo. Ele é um humorista surpreendentemente versátil, e talvez se dê melhor neste gênero do que em seus filmes com Ron Howard, nos quais também se sai muito bem.
Esse elenco não empalidece em relação ao original, nos quais tínhamos Harold Ramis, Bill Murray, Dan Aykroyd e Ernie Hudson, além de Sigourney Weaver e Rick Moranis, em grande fase. E tinha como chamariz a canção-título, extremamente exitosa, composta por Ray Parker Jr., reaparecendo numa nova versão neste filme (embora nem precisasse). Se o mais novo é ligeiramente inferior é porque, de fato, não apresenta, como o primeiro, uma ideia original, baseada principalmente no sucesso, à época, dois anos antes, de Poltergeist e que anos depois inspiraria Os fantasmas se divertem, de Tim Burton, que aqui ganha uma homenagem mais ao final. Lembremos nisso do mais recente Star Wars e se perceberá que originalidade pode se converter em homenagem mesmo nas mãos de um grande diretor (Abrams).

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Tecnicamente, o novo Caça-fantasmas igualmente não fica a dever para o antigo, partindo da bela fotografia de Robert Yeoman (colaborador de Wes Anderson), que consegue tornar algumas cenas mais assustadoras do que no original, com jogo de sombras e luzes, com efeitos visuais de ponta (no original, Richard Edlund foi indicado ao Oscar pelo trabalho). Feig, como em A espiã que sabia de menos, mostra talento na mescla de gêneros e desta vez não deixa o ritmo diminuir depois de uma meia hora inicial especialmente bem trabalhada, mantendo-se mais perto do que apresenta em seu ágil Missão madrinha de casamento, particularmente uma das maiores comédias dos últimos dez anos.
Diante da bilheteria (faturamento até agora de 194 milhões de dólares para orçamento de 144), é difícil prever a continuação da franquia, o que se deve realmente ao hype contrário antes do lançamento. O que se vê é que o diretor e as atrizes respeitam o legado do original e em nenhum momento se colocam como substitutas definitivas de uma equipe clássica. Talvez onde o filme mais falhe seja quando tenta repetir detalhes do original, a partir do terceiro ato, em que os efeitos digitais se sobrepõem à química entre as atrizes e as piadas de grupo dão espaço a raios de luz e combate contra os fantasmas que podem tomar Nova York, assim como no original, e algumas participações especiais soem encaixadas demais na trama. Ou seja, quando realmente apresenta elementos novos, Caça-fantasmas é um alívio cômico bastante interessante: quando ingressa na tentativa de ser uma refilmagem, não tanto, ainda que seus confrontos entre humanos e fantasmas sejam em grande parte apresentados de maneira mais interessante do que nos originais.

Ghostbusters, EUA, 2016 Diretor: Paul Feig Elenco: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon, Leslie Jones, Chris Hemsworth, Charles Dance, Michael Kenneth Williams, Matt Walsh, Neil Casey, Cecily Strong, Karan Soni, Ed Begley Jr. Roteiro: Katie Dippold, Paul Feig Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Amy Pascal, Ivan Reitman Duração: 116 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Pascal Pictures / Sony Pictures Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

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