Quando as luzes se apagam (2016)

Por André Dick

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Foi James Wan, roteirista do primeiro Jogos mortais e produtor da série, além de diretor dos dois Invocação do mal, quem deu oportunidade, com um orçamento de 5 milhões de dólares, para que o diretor sueco David F. Sandberg adaptasse seu curta-metragem de 3 minutos Lights out, lançado em 2013, para um longa de 80 minutos. O resultado é Quando as luzes se apagam, que expande o conceito do curta, no qual um duplo susto era capaz de instigar o espectador a ver mais, mesmo que seja excessivamente rápido. De qualquer modo, como a adaptação do curta Pixels feita por Chris Columbus este filme se transformou num grande sucesso de bilheteria, atingindo até agora em torno de impressionantes 98 milhões de dólares.
O início é numa fábrica de manequins, na qual uma funcionária, Esther (Lotta Losten, que estrela o curta), é a primeira a ver o espectro ameaçador do filme. Em seguida, o roteirista Eric Heisserer trabalha a história de uma mãe, Sophie (Maria Bello), que, na incapacidade de criar seu filho, Martin (Gabriel Bateman), em razão de problemas de depressão, vê sua filha, Rebecca (Teresa Palmer), assumi-lo, sob observação da assistente social Emma (Andi Osho). O menino, afinal, está traumatizado com o comportamento estranho em sua casa, em que sombras parecem adquirir novas formas.

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Sophie também vê pessoas mortas e, quando acontece algo com o padrasto de Rebecca, Paul (Billy Burke), esta se vê na tarefa de reorganizar a família. O problema é existir (ou seria apenas um espectro?) Diana (Alicia Vela-Bailey), que pode ter uma ligação pouco esclarecida com Sophie. Rebecca tem como namorado Bret (Alexander DiPersia), e mora em cima de um estúdio de tatuagem, cujo neon fica piscando intermitentemente, mas sua relação com a mãe é conturbada e ela nunca tem certeza sobre se deve namorar ou não alguém.
Em primeiro lugar, Quando as luzes se apagam é, em parte previsível, no entanto o cuidado de produção, a partir da fotografia de Marc Spicer, destaca-se em meio às produções do gênero. Em razão do elenco, de Palmer (uma atriz cada vez melhor, já presente este ano em Cavaleiro de copas, de Malick) e Bello à frente, o filme tem uma consistência dramática a partir do ponto em que as coisas se complicam e as indagações aumentam. Tudo é muito ligeiro, bem editado e leva o espectador a prestar atenção sem exatamente elaborar sobre o que está acontecendo. A figura do espectro tem uma história que leva à compreensão do motivo pelo qual só aparece na escuridão.

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É muito interessante a maneira como Sandberg o retrata e a maneira como ele ilumina cada cômodo da casa em que aparece: primeiro, em meio a um vermelho, com clara influência do Argento de Suspiria e do Gaspar Noé de Enter the void, depois na escuridão e, finalmente, perto do desfecho, à luz de uma cor azul. Ele está na trama para que justamente seja estabelecida essa relação entre mãe e filha, que repercute na vida de Martin. Em vários filmes de terror, as crianças são ameaçadas, e aqui não é diferente. Por outro lado, parece haver aqui uma necessidade intensa de mostrar que a criança não se tornará a salvadora do espectro e sim representa aquela que precisa ser recuperada em detrimento de uma possibilidade de entender questões enigmáticas.
Quando as luzes se apagam algumas vezes pode se sentir como um episódio estendido da série Além da imaginação ou uma peça de Creepshow dos anos 80, mas se sustenta mais no seu diálogo visual e na temática de relacionamento familiar que ecoa em traços sobre a depressão. Esses traços dialogam não apenas com a fábrica de manequins em que se passa a primeira sequência da história (como se as pessoas fossem apenas moldes de outra, no caso de Sophie em relação ao espectro) como com as formas de luz que a obra vai apresentando: lâmpadas, velas, faróis de carro, neons, luzes da janela ou de abajures. Porém, sua principal essência está na maneira como trata da depressão. Em muitos filmes de terror e suspense, figuras assustadoras surgem da imaginação ou de presenças que já percorrem determinados ambientes (como no clássico Poltergeist).

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Em Quando as luzes se apagam, é como se o espectro mostrado fosse resultado de um processo de depressão e ficar na claridade fosse a única saída para não se deparar com ele. Sandberg trabalha essa premissa de maneira eficaz até determinado ponto, embora não a explore da maneira como poderia, optando por caminhos duvidosos de análise, e como permitiriam as atuações de Bello e Palmer. A ressalva maior é que o espectro nunca se torna tão ameaçador quanto de fato o do curta-metragem que inspirou o filme. Isso talvez se deva justamente a Sandberg querer equivaler sua presença a uma espécie de sombra que pode atormentar uma criança, efetivamente bem representada por Gabriel Bateman, ou seja, é notável como Quando as luzes se apagam é feito também para um público jovem, com a tentativa de agradá-lo. Ele tem alguns diálogos, a partir disso, com A visita, de M. Night Shyamalan, em que a infância é colocada à prova numa casa com indivíduos de comportamento assustador. Ao contrário de Shyamalan, Sandberg opta por um diálogo maior com o terror oriental, de produções como Pulse e Medo e tem uma sofisticação visual que poucas vezes se vê em diretores do gênero, mesmo em Wan. Ele trabalha também com uma certa ideia de união familiar, de processo de luto quando é impossível ignorá-lo, e do quanto se fortalece uma amizade entre irmãos quando é necessário dar uma resposta a ameaças incompreensíveis. Não por acaso, o roteiro é de Eric Heisserer, o mesmo da versão mais recente de A hora do pesadelo, que trabalha de maneira intensa o plano familiar, em relação aos originais dos anos 80 e 90. Se ele não consegue se sobrepor, algumas vezes, a suas limitações, é um projeto que cria interesse para o espectador.

Lights out, EUA, 2016 Diretor: David F. Sandberg Elenco: Teresa Palmer, Gabriel Bateman, Maria Bello, Alexander DiPersia, Alicia Vela-Bailey, Billy Burke, Andi Osho Roteiro: David F. Sandberg, Eric Heisserer Fotografia: Marc Spicer Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Eric Heisserer, James Wan, Lawrence Grey Duração: 82 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atomic Monster / Grey Matter Productions / New Line Cinema

Cotação 3 estrelas e meia

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