A lenda de Tarzan (2016)

Por André Dick

A lenda de Tarzan.Filme 4A última adaptação do personagem de Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, havia sido Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva, nos anos 80, com Cristopher Lambert no papel principal e grande êxito dramático e de recriação da atmosfera selvagem, com macacos criados por Rick Baker, mestre da maquiagem. Era inevitável que uma história mais moderna do personagem, em meio à tecnologia atual, se rendesse a muitas cenas de efeitos especiais. Desde os trailers, isso já era esperado em A lenda de Tarzan, nova empreitada do competente David Yates, responsável por quatro filmes da saga Harry Potter, inclusive o seu melhor (particularmente) As relíquias da morte – Parte 1, e de Animais fantásticos e onde habitam, que estreará no final do ano, baseado também em J.K. Rowling.
Tendo à frente do elenco Alexander Skarsgård (mais conhecido pela participação em Melancolia, de Von Trier) como o herói, Yates prefere partir de um conceito interessante: ele trata Greystoke como uma espécie de primeira parte dessa obra, recuperando flashbacks que lembram o filme de Hugh Hudson. Como explica o início do filme, o Congo foi dividido entre a Bélgica e o Reino Unido. Como a Bélgica está num estado de falência, seu rei, Leopoldo II, envia Léon Rom (Cristoph Waltz) para conseguir diamantes preciosos de Opar, e ele vai tocando a vegetação africana como quem está prestes a destruí-la de fato. A expedição dele é cercada pelo Chefe Mbonga (Djimon Hounsou), numa sequência capaz de evocar o encontro da tripulação do barco petrolífero com a tribo indígena da Ilha da Caveira do King Kong de 1976, que lhe faz um determinado pedido para que não seja morto.

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Enquanto isso, Tarzan já está perfeitamente adaptado à sociedade, como Jack Clayton III, Lorde Greystoke, casado com Jane Porter (Margot Robbie), e recebe um convite do presidente do Congo para visitar o país, por meio do primeiro-ministro da Inglaterra (Jim Broadbent). George Washington Williams (Samuel L. Jackson), dos Estados Unidos, deseja que Greystoke aceite o convite porque acredita que os planos da Bélgica é escravizar o povo do Congo. No entanto, parece mais uma emboscada. Yates escolhe um tom quase descompromissado para seu filme, fazendo lembrar, sob um ângulo positivo, produções de uma certa infância já perdida no tempo e bastante nostálgica. Há, não raramente, uma sucessão de acontecimentos que parecem dar justificativa apenas para o próximo passo. Se Tarzan entra em conflito com Jane, pois não a quer na empreitada, logo o roteiro opta por mostrar esse ambiente como, ao mesmo tempo, acolhedor e ameçador. A chegada de Tarzan ao Congo é um sinal claro disso. Os flashbacks servem não apenas para contar o passado de Tarzan, como também o de Jane, quando foi ao Congo com o pai que ensinava inglês, e se no início parecem atrapalhar a narrativa, com o andamento servem quase como um complemento a Greystoke. A partir daí, Yates opta em fazer de Tarzan uma espécie de libertador do Congo, com todas as cenas de ação a que se tem direito.

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Em relação a Greystoke, este A lenda de Tarzan se sente um filme pleno de aventura, sem a mesma tentativa de estabelecer o personagem como uma figura antropológica. Ainda assim, é claro, por trás dos temas de escravidão, que se trata de um personagem que une o que se considera civilização e o primitivo, sem que se saiba onde um começa exatamente e onde outro termina. E Clayton, abalado por não poder ter tido ainda um filho com Jane, tem sua infância traumática recuperada – seu encontro com crianças se mostra não como um ensinamento de como viver na selva, mas sim um desejo de reencontrar a infância. Em paralelo, Jane ensina num museu sem deixar de sentir que o passado de outro lugar distante lhe interessa mais.
A primeira preocupação com esta releitura do personagem se concentra em sua naturalidade ou não. Perto de Greystoke, é visivelmente um filme moderno. No entanto, mesmo apurado tecnologicamente, ele consegue ser mais eficiente na reconstituição do que outros, e se há uma cena específica com elefantes que lembra Mogli – O menino lobo, grande sucesso de Favreau deste ano, ele consegue ser superior à reconstituição dos primatas do que os dois últimos Planeta dos macacos.
As belezas naturais se mostram ao longo da navegação do barco de Rom – que podem lembrar, em parte, Fitzcarraldo, em parte Aguirre, ambos de Werner Herzog, com um grande acerto na fotografia de Henry Graham. Em se tratando do elenco, se Skarsgård é levemente contido, funcionando nas cenas de ação e menos dramaticamente, Robbie consegue fazer uma Jane interessante, e Waltz se mostra mais uma vez um vilão capaz de sustentar a trama – e já é o terceiro seguido dele, antecipado pelo de Grandes olhos e 007 contra Spectre –, mas é Samuel L. Jackson que funciona de maneira decisiva, uma grande variação em seus papéis recentes, embora seu roteiro não seja muito expansivo.

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Yates utiliza esse elenco demarcando cenas de ação em acréscimo a flashbacks e nunca deixando o ritmo esmorecer. Ele tem um olhar para os detalhes e os conflitos nunca se sentem sem tensão, principalmente naqueles em que Tarzan enfrenta macacos ou quando há um determinado estouro de animais em direção a uma cidade. Se o filme não chega a ser um triunfo épico – e duvido que tenha sido sua pretensão –, ele possui uma contundência e leveza, ao mesmo tempo que expõe seus argumentos sobre a invasão do homem branco na selva. É, sem dúvida, uma história anticolonialista, assim como Greystoke mostrava a falência da aristocracia e uma necessidade de voltar ao habitat natural. Entende-se que às vezes A lenda de Tarzan possa ser visto como uma caricatura dessa tentativa de invasão e de exploração, jogando os temas um atrás do outro sem uma maior reflexão. Por outro lado, o que no início soa apenas como um jogo político para despertar uma conquista pode, ao final, tomar um nascimento verdadeiro. Num blockbuster comum, inevitavelmente poderia ser visto de maneira enviesada, porém no filme de Yates soa mais comovente.

The legend of Tarzan, EUA, 2016 Diretor: David Yates Elenco: Alexander Skarsgård, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Djimon Hounsou, Jim Broadbent Roteiro: Adam Cozad, Craig Brewer Fotografia: Henry Braham Trilha Sonora: Mario Grigorov Produção: Alan Riche, David Barron, David Yates, Jerry Weintraub, Mike Richardson Duração: 110 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Dark Horse Entertainment / Jerry Weintraub Productions / Riche Productions / Village Roadshow Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

 

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4 Comentários

  1. fredmorsan

     /  8 de agosto de 2016

    Gostei do filme e sua crítica reflete bem o que também percebi no filme: é um filme pipoca, despretensioso que não quer nunca ser épico (o termo da moda nos dias de hoje). Cumpre bem o papel de entreter o público.

    Responder
    • André Dick

       /  9 de agosto de 2016

      Prezado Fred,

      senti exatamente isso: que se trata de um filme despretensioso, com o bônus de ser muito bem feito e com grande elenco. Esperava bem menos pelo trailer que havia visto, mas é um bom complemento a Greystoke dos anos 80.

      Volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder
  2. Assim, é um filme legalzinho, mas esquecível, ele serve pra te entreter ali na hora que você assiste, não mais do que isso. Gostei da fotografia do filme, os CGI achei meio “ok”, o enredo poderia ser um pouquinho mais ousado. Um dia bem que podiam fazer um filme mais “sombrio e realista” de Tarzan, não fantasiando muito, algo com pé no chão, mostrando um Tarzan mais animalesco e selvagem enfrentando um conflito de identidade,enfim…to viajando já…hahahaha

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    • André Dick

       /  15 de agosto de 2016

      Prezado Clayton,

      acho que é um filme muito bem feito e imagino que ele passará interminavelmente na televisão (o que pode ser uma qualidade e uma falha, claro). A fotografia do filme é bem trabalhada, e o CGI dentro dos padrões. Em relação ao Tarzan mais sombrio e realista, enfrentando conflito de identidade, já existe um: é o Greystoke, a que me refiro na crítica, de 1984.

      Um abraço,
      André

      Responder

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